terça-feira, 16 de agosto de 2011

Segunda feira. Lotado? Que é isto?

onibus_lotadoSão seis da tarde, há muito não tenho vontade de sair correndo do PS. Esta nova função me mantém afastado da assistência e, em dias como hoje, a vontade é ficar bem longe dela. A passar a já conhecida porta vai e vem a cena é desoladora. Não há uma maca sequer vazia. Observo atentamente e a pequena esperança de altas para melhorar a situação logo de desfaz. Teremos um plantão daquele.

Hoje recebo seis auxiliares de enfermagem recém contratadas. Tenho que distribuí-las pelo hospital e observar seu desempenho. Como? Não dá para largar o PS e simplesmente ficar na supervisão. A coisa está muito complicada hoje.

Para adiantar confiro e afixo a escala dos auxiliares no local de costume. O fato de afixar a escala me parece simbólico. É como se disséssemos a todos: “A partir de agora é com a gente.”

Chegam PT, enfermeira de outro plantão que vem nos ajudar fazendo horas extras e a VR, enfermeira que tem o privilégio de ter seu primeiro emprego aqui. Deixo-as recebendo o plantão e vou fazer a primeira “ronda” da noite. È um trajeto rotineiro onde recebo os plantões e observo a necessidade de remanejamentos. Com a chegada das meninas novas não terei problemas na escala hoje. Pelo menos posso ficar no PS despreocupadamente. Após o tour retorno ao PS a tempo de ajudar a VR com a distribuição dos auxiliares. Peço que ela fique no corredor e escuto:

- Você me ama, né?

- Demais. Quero você mais solta.

- Já estou bem soltinha. Sábado fiquei aqui. (risos)

O MC chega. Ficaremos em quatro. Pra hoje é pouco.

O plantão está um caos e vai ficar pior. Já recebemos com duas nas cadeiras e após a visita descobriremos que ninguém sairá esta noite. Mas alguns entrarão...

Vai transcorrendo sem novidades, com o novo dimensionamento de pessoal privilegiei o PS e tenho cobrado mais da equipe. Em troca tento atender suas necessidades de folgas e outras reivindicações. Tem dado certo, até agora. A impressão que tenho é que, após um mês, o plantão começa a ter a minha “cara”.

Eles se dividem e não perdem tempo. Admitem quem chega, medicam quem já está. Homens de um lado, mulheres de outro e cobram os enfermeiros.

“Enfermeiro esta paciente está sem prescrição”

“Enfermeiro, este esta com febre”

“Este não tem esquema de insulina”

A máquina praticamente funciona sozinha. Sou chamado à frente da recepção.

“- Enfermeiro J, o ortopedista não esta atendendo – diz um controlador de acesso.

- Meu caro, isto eu não posso resolver – meu mundo é o da enfermagem.

- Mas os pacientes estão reclamando...

- E eu vou reclamar também. (Ele ri, percebe que não posso fazer nada a respeito).

De passagem, observo o corredor dos consultórios. É uma torre de babel e cada vez que aparece um funcionário do hospital as reclamações e insultos aumentam:

- Isto aqui é uma m...

- É pra isso que a gente paga imposto...

- Estão todos coçando lá dentro...

Um problema desta nova função: Não posso pensar em responder a provocações. Mas a vontade é lembrar os tempos de futebol e disparar um palavrão daqueles de corar a Dercy Gonçalves.

Uma senhora com luxação de ombro. Dói muito. Sua pressão subiu e o ortopedista pediu avaliação do clínico após a redução. Não quero parecer chato. Mas qualquer um com o ombro fora sentirá dores e terá a pressão elevada. O que me deixa “P” é que o clínico ao avaliar me diz a mesma coisa como se eu tivesse solicitado a avaliação. Imediatamente volto ao parágrafo anterior.

A senhora do ombro foi medicada e eu convenço ficar até o dia seguinte, caso tenha dores poderá ser medicada, já que não há a mínima possibilidade do ortopedista a ver de novo hoje.

A Gerente administrativa me chama.

- Enfermeiro, tem um paciente lá na frente que não consegue andar e precisa ir ao raio x.

Peço para a ED, acompanhar. Ela o faz e meia hora depois descobriu que o rapaz consegue andar, correr e tudo mais. Ele ficará em observação, dormindo durante toda a noite. Seu rosto encontrou a mão de alguém muito brabo e a pessoa não teve dó fez um estrago daqueles. Mas ele sobreviverá e da forma que se comporta, voltará mais vezes.

Emergência! Uma senhora de 42 anos tomou um belo gole de água sanitária. Estava em uma garrafa PET e ela pensou que fosse água. Tomou com vontade.

Sonda e lavagem. Ela pergunta:

- Eu vou morrer, enfermeiro?

- De jeito nenhum. A senhora viu como está isto aqui hoje? Se morrer alguém não teremos tempo para preparar o corpo. Hoje é proibido morrer.

Após a lavagem, o clínico a libera, mas intervenho:

-OW, deixa ela aí. Será mais uma e amanhã ela faz EDA.

- Você acha mesmo? Então vou fazer o pedido.

Um senhor com diagnóstico de suboclusão intestinal. Outra sonda para passar.

O material já está preparado e eu oriento.

O paciente, um idoso de 70 e poucos anos, é extremamente colaborativo e de bom humor. Dá risadas de nossas brincadeiras e entra nelas com naturalidade. Um exemplo de sabedoria.

Madrugada, não temos mais espaço físico. O próximo a chegar não terá onde ficar. Não adianta mais macas. Não há espaço. A esta altura passamos entre as macas com dificuldade o espaço entre uma e outra não é maior que a largura do suporte de soro.

Observo as meninas se esforçando para manter a qualidade. Preparam o material e começam a trocar os pacientes que estão molhados. Há muito não me sentia tão orgulhoso.

Penso na opção de nossos pacientes; nenhuma. Ou fazemos o melhor que podemos ou eles deixam de ter até isto. O mínimo. É triste. Mas é verdade. Antes em um PS lotado, sem espaço e com colchões de 05 cm que sem assistência alguma.

Emergência! Edema agudo de pulmão.

- MC, você segura?

- Pode deixar, J.

O manejo do EAP foi difícil, queríamos uma coisa e a clínica pedia outra. Fizemos os dois até a chegada de um clínico mais experiente, bom para o paciente. O MC é um bom enfermeiro. Impulsivo, resolutivo, briguento. Parece alguém que conheço. Só que bem mais novo.

Fim de plantão, observo que apesar da lotação o PS est arrumado. As macas alinhadas e os pacientes trocados. Muito bom.

Converso com o MC:

- Caramba chefe. Que plantão? – ele diz.

- Foi f***. Mas sobrevivemos.

- Mas do jeito que você fez fica fácil trabalhar. Tem auxiliar e gente pode ser Enfermeiro. Estou até menos estressado.

- Eu também. (risos)

- Está aí amanhã?

- Estou de folga.

- Vida boa. Boa folga. Você merece. Até amanhã, família

- Até amanhã, respondem as auxiliares que se preparam para passar o plantão.

-Até amanhã.

Na saída passo pelo RD, colega do dia:

- E aí J? Lotado o PS?

- Lotado? Que é isto? Está tranqüilo...

E vou. Rindo da própria desgraça. Por que também sem uma piada ninguém segura este rojão.

2 comentários:

  1. Ao entrar no PS para iniciar mais um dia de trabalho me deparo com uma superlotação...situação essa que já estou acostumada..e logo penso nas reavaliações e altas que poderam surgir...
    E coisas boas acontecem..lembra a senhora do ombro...foi de alta..feliz da vida...o PS continua lotado..sai 3 entra 10..e muitas admissões ao final da tarde.
    Passamos o plantão com 31 pacientes no corredor..mas dever comprido..sondas passadas, exames feitos, pacientes banhados...e uma dose d bom humor...

    ResponderExcluir
  2. Boa sorte p vcs! E muito animo para cada plantão!

    ResponderExcluir

Faça um ENFERMEIRO feliz. Comente