São seis da tarde, há muito não tenho vontade de sair correndo do PS. Esta nova função me mantém afastado da assistência e, em dias como hoje, a vontade é ficar bem longe dela. A passar a já conhecida porta vai e vem a cena é desoladora. Não há uma maca sequer vazia. Observo atentamente e a pequena esperança de altas para melhorar a situação logo de desfaz. Teremos um plantão daquele.
Hoje recebo seis auxiliares de enfermagem recém contratadas. Tenho que distribuí-las pelo hospital e observar seu desempenho. Como? Não dá para largar o PS e simplesmente ficar na supervisão. A coisa está muito complicada hoje.
Para adiantar confiro e afixo a escala dos auxiliares no local de costume. O fato de afixar a escala me parece simbólico. É como se disséssemos a todos: “A partir de agora é com a gente.”
Chegam PT, enfermeira de outro plantão que vem nos ajudar fazendo horas extras e a VR, enfermeira que tem o privilégio de ter seu primeiro emprego aqui. Deixo-as recebendo o plantão e vou fazer a primeira “ronda” da noite. È um trajeto rotineiro onde recebo os plantões e observo a necessidade de remanejamentos. Com a chegada das meninas novas não terei problemas na escala hoje. Pelo menos posso ficar no PS despreocupadamente. Após o tour retorno ao PS a tempo de ajudar a VR com a distribuição dos auxiliares. Peço que ela fique no corredor e escuto:
- Você me ama, né?
- Demais. Quero você mais solta.
- Já estou bem soltinha. Sábado fiquei aqui. (risos)
O MC chega. Ficaremos em quatro. Pra hoje é pouco.
O plantão está um caos e vai ficar pior. Já recebemos com duas nas cadeiras e após a visita descobriremos que ninguém sairá esta noite. Mas alguns entrarão...
Vai transcorrendo sem novidades, com o novo dimensionamento de pessoal privilegiei o PS e tenho cobrado mais da equipe. Em troca tento atender suas necessidades de folgas e outras reivindicações. Tem dado certo, até agora. A impressão que tenho é que, após um mês, o plantão começa a ter a minha “cara”.
Eles se dividem e não perdem tempo. Admitem quem chega, medicam quem já está. Homens de um lado, mulheres de outro e cobram os enfermeiros.
“Enfermeiro esta paciente está sem prescrição”
“Enfermeiro, este esta com febre”
“Este não tem esquema de insulina”
A máquina praticamente funciona sozinha. Sou chamado à frente da recepção.
“- Enfermeiro J, o ortopedista não esta atendendo – diz um controlador de acesso.
- Meu caro, isto eu não posso resolver – meu mundo é o da enfermagem.
- Mas os pacientes estão reclamando...
- E eu vou reclamar também. (Ele ri, percebe que não posso fazer nada a respeito).
De passagem, observo o corredor dos consultórios. É uma torre de babel e cada vez que aparece um funcionário do hospital as reclamações e insultos aumentam:
- Isto aqui é uma m...
- É pra isso que a gente paga imposto...
- Estão todos coçando lá dentro...
Um problema desta nova função: Não posso pensar em responder a provocações. Mas a vontade é lembrar os tempos de futebol e disparar um palavrão daqueles de corar a Dercy Gonçalves.
Uma senhora com luxação de ombro. Dói muito. Sua pressão subiu e o ortopedista pediu avaliação do clínico após a redução. Não quero parecer chato. Mas qualquer um com o ombro fora sentirá dores e terá a pressão elevada. O que me deixa “P” é que o clínico ao avaliar me diz a mesma coisa como se eu tivesse solicitado a avaliação. Imediatamente volto ao parágrafo anterior.
A senhora do ombro foi medicada e eu convenço ficar até o dia seguinte, caso tenha dores poderá ser medicada, já que não há a mínima possibilidade do ortopedista a ver de novo hoje.
A Gerente administrativa me chama.
- Enfermeiro, tem um paciente lá na frente que não consegue andar e precisa ir ao raio x.
Peço para a ED, acompanhar. Ela o faz e meia hora depois descobriu que o rapaz consegue andar, correr e tudo mais. Ele ficará em observação, dormindo durante toda a noite. Seu rosto encontrou a mão de alguém muito brabo e a pessoa não teve dó fez um estrago daqueles. Mas ele sobreviverá e da forma que se comporta, voltará mais vezes.
Emergência! Uma senhora de 42 anos tomou um belo gole de água sanitária. Estava em uma garrafa PET e ela pensou que fosse água. Tomou com vontade.
Sonda e lavagem. Ela pergunta:
- Eu vou morrer, enfermeiro?
- De jeito nenhum. A senhora viu como está isto aqui hoje? Se morrer alguém não teremos tempo para preparar o corpo. Hoje é proibido morrer.
Após a lavagem, o clínico a libera, mas intervenho:
-OW, deixa ela aí. Será mais uma e amanhã ela faz EDA.
- Você acha mesmo? Então vou fazer o pedido.
Um senhor com diagnóstico de suboclusão intestinal. Outra sonda para passar.
O material já está preparado e eu oriento.
O paciente, um idoso de 70 e poucos anos, é extremamente colaborativo e de bom humor. Dá risadas de nossas brincadeiras e entra nelas com naturalidade. Um exemplo de sabedoria.
Madrugada, não temos mais espaço físico. O próximo a chegar não terá onde ficar. Não adianta mais macas. Não há espaço. A esta altura passamos entre as macas com dificuldade o espaço entre uma e outra não é maior que a largura do suporte de soro.
Observo as meninas se esforçando para manter a qualidade. Preparam o material e começam a trocar os pacientes que estão molhados. Há muito não me sentia tão orgulhoso.
Penso na opção de nossos pacientes; nenhuma. Ou fazemos o melhor que podemos ou eles deixam de ter até isto. O mínimo. É triste. Mas é verdade. Antes em um PS lotado, sem espaço e com colchões de 05 cm que sem assistência alguma.
Emergência! Edema agudo de pulmão.
- MC, você segura?
- Pode deixar, J.
O manejo do EAP foi difícil, queríamos uma coisa e a clínica pedia outra. Fizemos os dois até a chegada de um clínico mais experiente, bom para o paciente. O MC é um bom enfermeiro. Impulsivo, resolutivo, briguento. Parece alguém que conheço. Só que bem mais novo.
Fim de plantão, observo que apesar da lotação o PS est arrumado. As macas alinhadas e os pacientes trocados. Muito bom.
Converso com o MC:
- Caramba chefe. Que plantão? – ele diz.
- Foi f***. Mas sobrevivemos.
- Mas do jeito que você fez fica fácil trabalhar. Tem auxiliar e gente pode ser Enfermeiro. Estou até menos estressado.
- Eu também. (risos)
- Está aí amanhã?
- Estou de folga.
- Vida boa. Boa folga. Você merece. Até amanhã, família
- Até amanhã, respondem as auxiliares que se preparam para passar o plantão.
-Até amanhã.
Na saída passo pelo RD, colega do dia:
- E aí J? Lotado o PS?
- Lotado? Que é isto? Está tranqüilo...
E vou. Rindo da própria desgraça. Por que também sem uma piada ninguém segura este rojão.
Ao entrar no PS para iniciar mais um dia de trabalho me deparo com uma superlotação...situação essa que já estou acostumada..e logo penso nas reavaliações e altas que poderam surgir...
ResponderExcluirE coisas boas acontecem..lembra a senhora do ombro...foi de alta..feliz da vida...o PS continua lotado..sai 3 entra 10..e muitas admissões ao final da tarde.
Passamos o plantão com 31 pacientes no corredor..mas dever comprido..sondas passadas, exames feitos, pacientes banhados...e uma dose d bom humor...
Boa sorte p vcs! E muito animo para cada plantão!
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