sexta-feira, 30 de março de 2018

Brincadeira de criança.



“As crianças têm a resiliência para sobreviver aos seus sofrimentos, se tiverem a chance.”  Ishmael Beah

O plantão começa com um chamado para atender uma queda da própria altura. Hoje estamos SG, auxiliar de enfermagem, RM, nosso condutor, e eu. Meus parceiros diários NT e CT estão de folga.
Chegamos ao local da ocorrência e fomos informados que o bêbado que estava caído no bar, levantou-se e foi para casa. Informamos à central e voltávamos para a base quando nos passam outra ocorrência, uma alteração de comportamento dentro da delegacia do bairro.
Na delegacia enquanto aguardamos alguém para nos atender somos surpreendidos por uma mãe que, aos gritos, pedia que ajudássemos seu filho. A princípio pensei que a criança fosse vítima de atropelamento até que me aproximei.
O garoto de seis anos tinha uma tesoura cravada no lado esquerdo da cabeça, a cena era assustadora pois junto com a tesoura um monte de linha de nylon o que dificultava qualquer procedimento. Principalmente aquele que era primordial no momento; estabilizar a tesoura para que não se movesse. Enquanto tentava “limpar” a tesoura da linha que a envolvia, ia conversando com o garoto, que me contou se chamar “J”, ter seis anos e que estava brincando de “relinho” com o primo quando a linha quebrou e a tesoura entrou na cabeça dele.            
Estabilizamos a tesoura e rumamos para o hospital onde o J se tornou o centro das atenções pois todos afirmavam nunca ter visto nada parecido (eu me incluo no todos).
Missão cumprida, voltamos para base.
Era madrugada quando a central chamou para que atendêssemos um trabalho de parto partimos para o local e lá chegando percebemos que tinha algo errado quando uma senhora ainda na calçada gritou:
- Moço, corre por favor, já nasceu. Mas não chora e está roxinho...
Subi os dois lances de escadas escuras e ao chegar no quarto encontro uma moça de 19 anos com uma criança ao lado ainda ligadas pelo cordão umbilical.
                - Ela não chora moço...
A criança estava completamente gelada, não respirava e sua pele cianótica (roxa) denunciava a falta de oxigenação.
Não houve tempo para hesitação. Coloquei os “clamps” e cortei o cordão umbilical, coloquei o bebe na palma da mão e comecei as manobras. Após expelir uma quantidade considerável de secreção pela boca e nariz, senti seu minúsculo coração bater e a pequena começou a chorar.
             - Olha aí mamãe. Sua super bebê já está chorando.
Pedimos apoio do suporte avançado e com a chegada deles, passamos o caso e voltamos para base.
No caminho de voltava eu pensava: "Entre todas as PCRs revertidas, nenhuma me deixou mais satisfeito e feliz com a escolha que fiz na vida."
Missão cumprida

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Valeu a pena.


Sucesso é questão de ATITUDE.
"Quando você decidir fazer alguma coisa, faça o seu melhor e faça até o fim." Surama Jurdi



Ainda não tínhamos terminado a conferência da viatura quando o rádio chamou para atendermos um idoso de 78 anos com problemas respiratórios.
Peguei minha mochila e me dirigi para viatura onde SV, condutor, e NT  já me esperavam.
- É pra derreter? – perguntou o condutor, se referindo à gravidade.
- Manda ver, pois problema respiratório em idoso, normalmente é ruim... – respondi como que antevendo o que encontraríamos no local.
O SV não economizou. Em quatro minutos chegamos no endereço.
Lá a primeira coisa que lembro ter pensado foi: “ P*q*p* que escadaria”.
Vencida a escadaria encontramos um senhor que, deitado, aparentava um desconforto respiratório importante enquanto fazia uma inalação preparada pelos familiares. Logo no início da avaliação percebemos que a coisa não ia evoluir bem. Saturação de oxigênio em menos de 80%, coração a mais de 140 batimentos e uma cianose labial que denunciava a ineficiência do esforço respiratório.
Não demorou muito, a respiração foi piorando e em pouco tempo o paciente entrou em parada cardíaca. Nesta hora a primeira coisa que me veio à cabeça foi:
“Não é possível, não vamos começar o plantão com óbito”.
A NT rapidamente iniciou as compressões enquanto eu preparava e introduzia a máscara laríngea. Tudo sincronizado, tudo no tempo certo como se tivéssemos ensaiado (bem, na verdade, ensaiamos). Após alguns minutos na primeira checagem de pulso após a adrenalina sinto a carótida pulsar sob meus dedos.
-Ele tem pulso. – Comuniquei - NT, confirme com a regulação o que querem que a gente faça. Se vamos remover ou aguardar o suporte avançado.
A NT foi ao rádio e voltou com a ordem de que devíamos aguardar a chegada do suporte avançado, que não demorou.
Com a chegada da USA era hora de enfrentar a escadaria. Nosso paciente não era leve e a escada enorme. Na USA estavam a MR, enfermeira, CO, médico e o CT, nosso condutor que hoje nos “abandonara”. Pedi para NT “arrumar as coisas” com a finalidade de poupá-la da escadaria, já que da última vez ela sofreu bastante com nossas mochilas enquanto tirávamos um baleado de um “buraco”.
Com algum sacrifício, descemos o paciente e o embarcamos na viatura. Neste momento ele saturava 100% e tinha pressão de 80X60. Agora é com eles.
Chamei a NT com os dedos e quando ela se aproximou disse:
- Toque aqui. Parabéns menina, você foi top.
-  Obrigada, você também.
Missão cumprida. Enquanto voltávamos ia pensando no quanto fazemos diferença na vida das pessoas. Mesmo que elas não reconheçam, mesmo que muitas vezes não tenhamos nosso trabalho valorizado, a verdade é que definitivamente, fazemos a diferença.
Vamos pra base repor material e energias.
Só que não, ainda não tínhamos reposto o material quando chamara na porta base. Um acidente de moto perto dali precisava de atenção. Pedimos autorização e pelo rádio e fomos para lá.
Um entregador de pizzas estava caído ao chão depois de ter a moto atingida por um carro. Muita gente em volta e a vítima chorando de dor.
Aparentemente ele conseguira uma fratura exposta na perna e algumas escoriações. Enquanto o motorista tentava convencer a todos de que ele não estava errado.
Fizemos a nossa parte, colocamos o rapaz na viatura e rumamos para o hospital.
No caminho tentávamos distrair o rapaz que com medo pedia pra segurar a mão da NT, e olha que a esposa dele estava junto.
- Você é São paulino – perguntei.

- Tá doido? Sou “coríntia” – respondeu o rapaz.
- Vai falar mal do São Paulo? – perguntou a NT – Se for já avisa que o chefe esqueceu de passar esta fratura da mão.
- Não, imagina – respondeu o rapaz, entrando na brincadeira – o São Paulo é um bom time
Risos. Chegamos ao hospital.
Missão cumprida!

"Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague" Chico Buarque de Holanda




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Vão-se os anéis...


 Vão-se os anéis...

Não lembro o horário, mas quando o chamado chegou lembro-me de ter pensado: “Quem esta tentando se matar a esta hora?”
O CT, como sempre pisou fundo e ao chegarmos ao endereço somos recebidos por uma mulher que diz:
 - Fui eu que chamei moço, mas não é aqui não. É na outra rua.
E lá vamos nós para a outra rua “Porque já não chamou no endereço certo?” pensei enquanto entrava na casa humilde com sinais claros de que as coisas não estavam fáceis para aquela família.
No sofá, nossa vítima fazia uma inalação, pois estava com falta de ar.

- O que aconteceu amigo? – Perguntei.
- Eu tomei veneno de rato, to cansado de viver. Desempregado, só minha mulher trabalhando...
- Há quanto tempo você tomou?
- Faz umas duas horas...
Olhei para a NT, que verifica os sinais vitais.
- 12x08, Dextro 85 – me informou
Observei o envelope de veneno, não parecia ter sido mexido, mas nestas coisas o melhor é acreditar no pior. Embarcamos nossa vítima e fomos para a UPA. Lá chegando ainda descobri que o veneno estava vencido desde há quatro anos. Mas mesmo assim vai ganhar sondagem e lavagem gástrica, só para garantir. Missão cumprida.
Madrugada, o chamado é classificado como “outros”, detesto “outros” porque pode ser qualquer coisa.
Chegando no local, passo por um garoto de sentado no sofá e me dirijo a um senhor que está em pé:
-Bom dia, o que aconteceu.
- Ele fez besteira, agora vou ter que ir ao hospital de madrugada.
- Ele quem?
-Ele – me diz o homem, apontado para o garoto que a esta altura já me mostrava um dedo super edemaciado com uma aliança de aço encravada.
- Bem vamos lá. Por favor, me de um pouco de água com detergente.
- Vai tirar com a luva, chefe – perguntou NT.
- Vamos tentar...
Tentamos. Com luva, linha esparadrapo e nada.
Aí decidi pela paciência, lambuzei o dedo do garoto de detergente e mantive uma tração contínua na aliança enquanto “empurrava” o edema para trás foram vários minutos até que a aliança deslizou para fora do dedo e expressão de alívio do garoto só não era maior que a minha da NT e do CT, já estávamos achando que não iria dar.

Missão Cumprida.
Hoje tudo deu certo.

Paciência e perseverança tem o efeito mágico de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos sumirem. John Quincy Adams

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Que tiro foi esse?


“Não julgue e você nunca estará errado.”
Jean-Jacques Rousseau
Que tiro foi este?
Nosso primeiro chamado foi pra uma queda de moto.
Uma moto com dois jovens de 18 e 17 anos, fora atingida por um carro.
O mais jovem e garupa, tinha fraturas nas pernas e uma provavel luxação no quadril, era o mais grave. O condutor apenas escoriações.
Começou o plantão!
Estávamos TG o médico, DZ nosso condutor e eu.
Vítimas imobilizadas, a equipe de Suporte Básico veio para nos apoiar e lá fomo nós. Deixamos no hospital e avisei pelo rádio que não tínhamos condições de atendimento já que havíamos gasto todo nosso material.
Não adiantou muito. Por telefone o radio operador me informa que tem um baleado aguardando socorro e pergunta se podemos atender: 
- Claro, pode passar – respondi.
A Central passou a ocorrência para nós e mandou a equipe de Suporte Básico de nossa base como apoio. Nela CT, NT e WT.
Ao chegar já encontramos a vítima sendo atendida pela equipe de suporte básico. No local alguns policiais militares, mantinha uma tensa vigilância de toda a situação.
O homem havia levado um tiro no tórax, do lado esquerdo. Descorado, hipotenso e taquicárdico. Não era o pior que já vimos, mas precisávamos agir rápido. Pedi e a NT me ajudou a estabelecer os acessos venosos colocamos na prancha e iniciamos o transporte.
Foi aí que me dei conta do tamanho da rampa que teríamos que subir. A NT descreveu bem:
“Uma subida daquelas que pra descer precisa de apoio”, e pra subir precisa de pernas. Mão na prancha, agradecendo o fato do rapaz ser magro, quase caquético, e vamos em frente.
Ao chegar ao topo passei a prancha para alguém (realmente não lembro quem) e dei a volta na viatura, precisava me preparar para medicar foi aí que descobri que minhas pernas já não obedeciam, olhando para a ladeira eu conclui o motivo. Como diria NT “Ladeira do inferno.”
Entrei na VTR e comecei minha interação com a vítima, um homem de 40 anos, usuário de drogas e que já tinha cicatrizes de outros tiros no corpo. Não é fácil, neste momento, deixar de pensar no tipo de vida que ele leva. O vocabulário a aparência e a situação dão indícios que você deve ignorar para enxergar apenas o ser humano em suas mãos
- O que aconteceu – perguntei, sem esperança de uma resposta sincera.
- Me deixa morrer, eu não mereço viver. – foi a resposta
- Quem atirou em você? – insisti.
- Não sei.
Chegamos ao hospital, ele ganhou dois drenos de tórax e nós outro chamado. Uma PCR que, ainda bem, era apenas um idoso em hipoglicemia. Nada que um acesso venoso e algumas ampolas de glicose não resolvessem.
Fomos para este atendimento sem maca e quando voltamos ao hospital ninguém havia conseguido nenhuma informação a respeito da causa ou autor do disparo a queima roupa.
O jeito é voltar pra base, limpar a viatura e aguardar a liberação da maca.
No caminho ainda me perguntava: - Que tiro foi esse?
PS: Depois a NT me contaria que, segundo a irmã, o tiro foi dado pela própria vítima, numa fracassada tentativa de suicídio




quinta-feira, 10 de julho de 2014

Terça, depois da derrota...


Quando o trabalho é prazer, a vida é uma grande alegria. Quando o trabalho é dever, a vida é uma escravidão.”  ―  Máximo Gorki


São 17:30 quando chego à base. Este é o meu terceiro plantão pós férias. Cheguei cedo, o fato de ter jogo da seleção ajudou com que o trânsito ficasse completamente livre. 
Na base todos estavam em frente a TV, incrédulos com a surra que a seleção brasileira levava do adversário, e ainda estava 2x0...
Hoje estamos WD condutor, JL médico e eu. O plantão promete.
Como era de se esperar, com o final do jogo iniciaram os chamados e não demorou para que o suporte avançado fosse solicitado. 
O chamado dava conta de que uma de nossas auxiliares estava inconsciente. Nem preciso que o WD bateu seu record de tempo resposta. Em menos de 04 minutos estávamos no local. 
A menina havia abusado de seus analgésicos. Sinais vitais estáveis, maca e hospital para a famosa lavagem gástrica. Atendimento finalizado, retornamos a base para jantar.
Mal terminamos o jantar e ouvimos o rádio chamar pela 2027, desta feita uma colisão auto x moto, vamos nós. A ocorrência é distante e, apesar da sirene e da habilidade do condutor fico com a impressão que estamos demorando muito. Só impressão pois com pouco mais de oito minutos chegamos ao local onde um motociclista bêbado bateu de frente com um carro. Ele estava andando e confuso com o famoso olho de guaxinim  mas não dava para dizer se a confusão era pela bebida ou pelo trauma. Tivemos que protocolar em pé e ainda assim o rapaz de 40 anos deu trabalho. 
Na ambulância, acesso venoso, sinais vitais e monitorização, o JL chamou a regulação e passou o caso, trauma, Glasgow 14 está tranquilo. Vamos  para o hospital.
Já tínhamos uns tres minutos de deslocamento quando o monitor começou a disparar. O JL olhou para mim e disse:
- A frequência subiu para 170...
- C*****, o que será?
- Meu peito está doendo, estou sufocado - gritou o paciente.
Pedimos para o WD parar a viatura, verifiquei a pressão de novo:
-  240x140
- Deixa as drogas prontas - pediu o JL.
De repente o clima ficou tenso, nosso paciente começa a "afundar" na nossa frente, mnas já estamos prontos para o pior. O JL já com o material de entubação na mão e eu com as drogas prontas.
- WD, quanto tempo até o hospital - perguntou o JL.
- Quatro minutos - respondeu nosso condutor
- Dá pra fazer em dois? - insiste o médico.
- Vou tentar
- Você tem um minuto, WD - interfiro.
 No caminho o celular do paciente tocou. Atendi e informei ao irmão dele para onde o levaríamos.
O WD bateu o record de novo e logo chegamos ao hospital.
- Em um minuto J- disse o condutor com um sorriso de satisfação.
- Parabéns- respondi.
Chegamos a tempo. Se ele parar agora, já está no hospital, nossa missão está cumprida.
Passamos o caso e ainda nem havíamos embarcado quando o radio chamou novamente. Desta vez um capotamento, longe de onde estávamos.
Chegamos no local, uma senhora de 57 anos presa às ferragens. Nestas situações o que temos a fazer é esperar o bombeiros fazerem a parte deles.
Quase meia hora depois ela foi retirada do veículo e podemos fazer a nossa parte. Procolo, acesso venoso, sinais vitais e hospital. 
Estamos prontos para o próximo, que não demora. Bandidos em  fugindo da polícia bateram em um taxi. O passageiro, um estrangeiro de 32 anos foi arremessado pela janela e bateu com a cabeça na guia. Morte instantânea, seu cérebro ficou espalhado pelo chão. O motorista teve mais sorte, luxação no ombro e contusão na perna. Imobilizamos o rapaz e o colocamos na viatura dos bombeiros. Missão cumprida.
- Vamos sair daqui - pedi ao WD - está chegando a imprensa e não me preparei para a TV hoje.
Retornamos  à base. 
- Chega, viu JL. - disse eu - Você estava com tanta saudade que resolveu passar a noite toda acordado ao meu lado.
- Você está doido. Se for assim não quero mais plantão com você.
Nosso plantão acabou.
Já voltando para casa e lembrando de nossos atendimentos refleti o quanto é tênue a linha que separa a vida e a morte. Em um minuto estamos aqui, no outro...
Se todo o ano fosse de férias alegres, divertirmo-nos tornar-se-ia mais aborrecido do que trabalhar. William Shakespeare
Até o próximo

domingo, 9 de março de 2014

Sábado: Gostando do que fazemos…

 

"O segredo do sucesso não é fazer o que se gosta, mas sim gostar do que se faz. " Cecília Meireles

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Ainda não eram 18h00min quando cheguei à base. Estacionei a moto e me dirigi ao estar com meus livros e bolsa. A tarde está tranquila. Procurei pelo LC a fim de  liberá-lo e não o avistei então fiquei por ali. Foram pouco mais de dez minutos entre minha chegada e o chamado do radio operador. Anotei o chamado e o LC apareceu:

- Pode deixar J, eu vou.

- Negativo. Vai lavar a louças em casa. Deixa comigo.

Saímos. MC, MR e eu. Respectivamente: médico, condutor, e enfermeiro. Mas o MC não vai ficar, é seu último chamado do dia à noite virá outro médico, SG com quem gosto de trabalhar.

Chegamos ao local, uma comunidade carente e tivemos que deixar a viatura uns 500 metros da casa da vítima e seguir a pé por trilhas, pontes e becos até encontrar uma senhora de 45 anos já morta. Não havia o que fazer e os parentes já sabiam disto, mas a situação era tensa: O enteado estava revoltado:

- Eu liguei o dia todo e o médico do SAMU disse que não ia mandar a ambulância, se tivesse mandado ela estaria viva.

Senti o clima tenso e pedi para o MC acelerar o trabalho de constatação e ele, muito sabiamente, decidiu terminar seu relatório na viatura.

Voltamos para base tentando entender o ocorrido. Mas somente quem participou conseguiria dizer o porquê não mandou a ambulância. 

Na base o SG já nos espera e o LC ainda não foi embora, vai aguardar a esposa então aproveitamos para trocar umas ideias e colocar o papo em dia. 

tiroNovo chamado, jovem de 22 anos baleado na cabeça. Outra comunidade. Fomos para o local e encontramos um rapaz caído na calçada com um ferimento na nuca.

- Ele tem pulso, informou o SG.

- Então vamos tirar daqui – falei, já preocupado com a multidão que se formava.

Na viatura o SG entubou o rapaz e eu puncionei uma veia. Não tínhamos muitas esperanças no seu prognóstico mas precisávamos fazer nossa parte. No caminho para o hospital ele teve uma PCR, tentamos a reanimação, sem sucesso. Entramos no primeiro hospital que avistamos, o mesmo onde trabalhei por anos, mas não havia mais o que fazer. Apenas entregar o corpo.

madagascarRevi as meninas, Glória, SH, AL, MN e VC, quanto orgulho sinto ao vê-las trabalhando, se esforçando para fazer o impossível dentro de uma situação onde o que mais falta são condições de trabalho.

Não demorou e o chefe de plantão, que eu já conheço de outros carnavais, veio questionar o porquê levamos o paciente para lá.nervoso

- O hospital X é mais perto.

- Dr, para o senhor não tem mais perto. O Sr trabalha nos dois. Quando está lá diz que o mais perto é aqui e aqui diz que é lá. O problema é que não quer trabalhar. O paciente já está aqui. Nossa parte está feita. – respondi com minha habitual cortesia e sai para evitar estragar minha noite.

cafeTomei um café da AD, limpamos a viatura e voltamos para base. Mas mal deu tempo de descansar. Uma viatura de suporte básico pediu apoio e lá fomos nós. No local um motociclista foi atingido por um carro, está mal, Glasgow 03, sua perna esquerda muito comprometida e sem perfusão no pé. A FN, enfermeira, está na viatura e nos ajuda a estabilizar o rapaz. Intubação, acesso venoso, realinhamento do membro, muito trabalho e do tipo que gostamos. Em alguns minutos, estamos chegando ao hospital... Deixamos o rapaz, passo o caso para o enfermeiro e vamos limpar a viatura que está lavada de sangue. Destino: base.

Na base, me dedico a repor os materiais enquanto o MR limpa nossa prancha. Ainda não terminara a reposição quando ouvi o rádio chamar. Não acreditei mas ao olhar em volta e constatar que não tinha outra viatura na base, atendi.

- Viatura 2027, prossiga.

- Chamado para a equipe. Feminino, 30 anos…

Lá fomos nós. Em pouco tempo o MR chegou. Encontramos uma mulher deitada no sofá com sangue da cabeça aos pés. Colocamo-la no chão e ao examinar melhor percebemos o tamanho do estrago. Ela tinha perfurações por arma branca em todo o corpo. Umas mais outras menos profundas. Costas, tórax, braços, pernas e abdômen.

- O que aconteceu? Perguntei.

facada- Ela tomou umas facadas do marido – respondeu um morador com uma desconcertante calma.

O marido agressor ainda estava ali, calado, olhando tudo e nos tirando a concentração . Precisávamos sair dali.

facada2Um ferimento na região cervical e outro no dorso eram os que mais nos preocupavam. Levamos para a viatura, acesso venoso e quando ia fazer a medicação para dor, percebi que o sangramento aumentou. O soro que entrava pelo acesso venoso, saia mais a frente em um ferimento. Não pensei duas vezes, saquei um 14 e puncionei a jugular.

- Aí sim, elogiou o SG.

- Não tem outro. Os braços estão sem condições.

Saímos de lá e rumamos par o hospital onde deixamos o motoqueiro. Nosso plantão já era e o café que eu tinha marcado com a VC também, a ambulância para ser chamada de suja teria que melhorar muito. Mas uma sensação de dever cumprido tomava conta da equipe.

- Você está melhor? – perguntou o SG á vítima.

- Graças a vocês sim. Vocês são uns anjos.

- Nós somos F####, deixei escapar.

- São mesmo concordou a moça que pela primeira vez sorriu.

No hospital, passamos o caso e ficamos sabendo que o motociclista teve a perna amputada mas está vivo e sem outras sequelas. Dos males, o menor.

garfield cansadoAinda temos que limpar a ambulância e voltar para base, como diria DN  “Em status DEZ, Dezmaterializados, dezcabelados, dezmontados” mas motivados.

Chego à base, passo meu plantão para o RD que logo recebe outro chamado e sai.

Hora de ir embora, preparo a moto e fico por alguns instantes olhando para ela como a tomar coragem para montar… fui. A vida continua

"Fazer o que você gosta é liberdade. Gostar do que você faz é felicidade." Frank Tyger

sábado, 1 de março de 2014

Sexta feira: começou o carnaval...

A primeira parte do dia já tinha sido muito corrida, minha unidade cheia de intercorrências (nome bonito que damos para problemas, encrencas e outras coisas mais) e quando sai de lá com destino ao SAMU o fiz desejando uma noite tranquila, sem muitas saídas.
Passavam-se alguns minutos das 18h00m quando encostei a moto no pátio e fui liberar a DL para curtir sua sexta de carnaval. Mal assumi o plantão e o rádio operador lembrou-se da existência da USA na base e passou o primeiro chamado de minha noite. Hoje estamos MB, como condutor, SL médico e eu.
Anotei o chamado e ao ver o endereço o MB já alertou:
- Lá é boca quente...
- Será que a PM já está no local? – questionou o SL
- Confirma com a central – sugeri
O SL chamou a central e foi informado de que o policiamento já fora solicitado, mesmo assim não deixou de reforçar o pedido e a preocupação com a segurança no local, uma comunidade conhecida pela violência.
- MB, liga a Maria Louca e vamos nessa. - pedi.
-Pode deixar, conheço a rua. – respondeu
E lá fomos nós.
Enfrentar o trânsito das 18h30 em uma cidade grande não é fácil, mesmo com sirene ligada a sensação é que não chegaremos a tempo de ajudar a vítima. Mas depois de 10 minutos chegamos à comunidade e não demorou em identificarmos a vítima.
Um rapaz de 32 anos, aproximadamente 1,90 de altura e uns 120 kg estava caído na calçada, sentado como se estivesse bêbado, mas com hematomas pela face e sem responder a estímulos. No primeiro momento pensamos ser um cadáver, mas logo sentimos o pulso o que nos deu um alívio, pois se ele estivesse morto não poderíamos remover, mas vai explicar isto para as pessoas que se aglomeram a nossa volta.
- O que aconteceu com ele? – perguntei a um dos rapazes que estavam mais próximos.
- Ele tomou algumas, cheirou todas e estava lutando UFC com um camarada aí tomou um e caiu de cara no chão... Só isso!
-Entendi. Só isto…
- Você acha que consegue uma veia, J? – perguntou o SL em tom de gozação.
Limitei-me a olhar e discretamente mostrar o dedo do meio, de forma que só ele percebeu a ponto de responder com um sorriso.
Colocamos o colar cervical, passamos o rapaz para a prancha, instalei o acesso venoso e com uma ajuda, muito bem vinda, dos populares o levamos para a maca e para viatura.
O rapaz não estava bem e nós tínhamos pressa em sair dali. No trajeto para o hospital ele piorou, começou a vomitar o que nos deixou preocupados. Chegamos rápido e logo de cara nossa vítima foi pro tubo. Missão cumprida, agora é aguardar a liberação da maca e limpar a viatura. Prontos para a próxima.
Ainda no hospital uma equipe do suporte Básico chega com um rapaz que caira de uma estrutura de aço na avenida onde está sendo comemorado o carnaval da cidade. O primeiro de alguns…, pensei.
Não demorou a vir novo chamado. Uma senhora de 65 anos, inconsciente. Mais uma vez em lugar de difícil acesso e bem longe de nossa base. Depois de treze minutos de deslocamento, chegamos à comunidade onde nos deparamos com uma senhora muito debilitada, castigada por um câncer de pâncreas recém diagnosticado e uma família numerosa e ansiosa.
Desta vez o acesso venoso estava realmente difícil, mas não precisei de duas tentativas para instalar o soro e garantir uma via de acesso para fazer a morfina, já que a dor era o maior problema de nossa vítima. Usando a cadeira de rodas a transportamos escadaria acima até a viatura e de lá voltamos ao mesmo hospital da onde saímos horas antes. Desta vez vamos tomar um chá de cadeira. Não há macas e ficamos por quase três horas presos no hospital enquanto ouvíamos pelo rádio a necessidade em outros locais. Paciência...
Saímos do hospital e novo chamado, um jovem de 24 anos, morto a tiros. Motivo: drogas, não há o que fazer. Quer dizer, para ele não há. Mas não deixo de pensar até quando vamos perder nossos jovens assim.
Depois de muito tempo, voltamos à base, já é madrugada e novo chamado nos aguarda. Uma senhora de 84 anos com AVC. Fomos para lá e encontramos uma idosa hígida, e com dificuldade para urinar. Não é caso de hospital, orientamos e retornamos á base.
Mal deu tempo de limpar a viatura e o RD, enfermeiro do dia chegou.
- Pode deixar J, vai descansar que você está com cara de acabado.

- Vou mesmo parceiro. Até o próximo.