terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Que tiro foi esse?


“Não julgue e você nunca estará errado.”
Jean-Jacques Rousseau
Que tiro foi este?
Nosso primeiro chamado foi pra uma queda de moto.
Uma moto com dois jovens de 18 e 17 anos, fora atingida por um carro.
O mais jovem e garupa, tinha fraturas nas pernas e uma provavel luxação no quadril, era o mais grave. O condutor apenas escoriações.
Começou o plantão!
Estávamos TG o médico, DZ nosso condutor e eu.
Vítimas imobilizadas, a equipe de Suporte Básico veio para nos apoiar e lá fomo nós. Deixamos no hospital e avisei pelo rádio que não tínhamos condições de atendimento já que havíamos gasto todo nosso material.
Não adiantou muito. Por telefone o radio operador me informa que tem um baleado aguardando socorro e pergunta se podemos atender: 
- Claro, pode passar – respondi.
A Central passou a ocorrência para nós e mandou a equipe de Suporte Básico de nossa base como apoio. Nela CT, NT e WT.
Ao chegar já encontramos a vítima sendo atendida pela equipe de suporte básico. No local alguns policiais militares, mantinha uma tensa vigilância de toda a situação.
O homem havia levado um tiro no tórax, do lado esquerdo. Descorado, hipotenso e taquicárdico. Não era o pior que já vimos, mas precisávamos agir rápido. Pedi e a NT me ajudou a estabelecer os acessos venosos colocamos na prancha e iniciamos o transporte.
Foi aí que me dei conta do tamanho da rampa que teríamos que subir. A NT descreveu bem:
“Uma subida daquelas que pra descer precisa de apoio”, e pra subir precisa de pernas. Mão na prancha, agradecendo o fato do rapaz ser magro, quase caquético, e vamos em frente.
Ao chegar ao topo passei a prancha para alguém (realmente não lembro quem) e dei a volta na viatura, precisava me preparar para medicar foi aí que descobri que minhas pernas já não obedeciam, olhando para a ladeira eu conclui o motivo. Como diria NT “Ladeira do inferno.”
Entrei na VTR e comecei minha interação com a vítima, um homem de 40 anos, usuário de drogas e que já tinha cicatrizes de outros tiros no corpo. Não é fácil, neste momento, deixar de pensar no tipo de vida que ele leva. O vocabulário a aparência e a situação dão indícios que você deve ignorar para enxergar apenas o ser humano em suas mãos
- O que aconteceu – perguntei, sem esperança de uma resposta sincera.
- Me deixa morrer, eu não mereço viver. – foi a resposta
- Quem atirou em você? – insisti.
- Não sei.
Chegamos ao hospital, ele ganhou dois drenos de tórax e nós outro chamado. Uma PCR que, ainda bem, era apenas um idoso em hipoglicemia. Nada que um acesso venoso e algumas ampolas de glicose não resolvessem.
Fomos para este atendimento sem maca e quando voltamos ao hospital ninguém havia conseguido nenhuma informação a respeito da causa ou autor do disparo a queima roupa.
O jeito é voltar pra base, limpar a viatura e aguardar a liberação da maca.
No caminho ainda me perguntava: - Que tiro foi esse?
PS: Depois a NT me contaria que, segundo a irmã, o tiro foi dado pela própria vítima, numa fracassada tentativa de suicídio




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