“Não julgue e você nunca estará errado.”
Jean-Jacques
Rousseau
Que tiro foi
este?
Nosso primeiro
chamado foi pra uma queda de moto.
Uma moto com dois jovens de
18 e 17 anos, fora atingida por um carro.
O mais jovem e garupa,
tinha fraturas nas pernas e uma provavel luxação no quadril, era o mais grave.
O condutor apenas escoriações.
Começou o plantão!
Estávamos TG o
médico, DZ nosso condutor e eu.
Vítimas
imobilizadas, a equipe de Suporte Básico veio para nos apoiar e lá fomo nós. Deixamos no
hospital e avisei pelo rádio que não tínhamos condições de atendimento já que havíamos
gasto todo nosso material.
Não adiantou
muito. Por telefone o radio operador me informa que tem um baleado aguardando
socorro e pergunta se podemos atender:
- Claro, pode
passar – respondi.
A Central
passou a ocorrência para nós e mandou a equipe de Suporte Básico de nossa base
como apoio. Nela CT, NT e WT.
Ao chegar já encontramos
a vítima sendo atendida pela equipe de suporte básico. No local alguns
policiais militares, mantinha uma tensa vigilância de toda a situação.
O
homem havia levado um tiro no tórax, do lado esquerdo. Descorado, hipotenso e
taquicárdico. Não era o pior que já vimos, mas precisávamos agir rápido. Pedi e
a NT me ajudou a estabelecer os acessos venosos colocamos na prancha e
iniciamos o transporte.
Foi aí que me
dei conta do tamanho da rampa que teríamos que subir. A NT descreveu bem:
“Uma subida daquelas
que pra descer precisa de apoio”, e pra subir precisa de pernas. Mão na prancha,
agradecendo o fato do rapaz ser magro, quase caquético, e vamos em frente.
Ao chegar ao
topo passei a prancha para alguém (realmente não lembro quem) e dei a volta na
viatura, precisava me preparar para medicar foi aí que descobri que minhas
pernas já não obedeciam, olhando para a ladeira eu conclui o motivo. Como diria
NT “Ladeira do inferno.”
Entrei na VTR
e comecei minha interação com a vítima, um homem de 40 anos, usuário de drogas
e que já tinha cicatrizes de outros tiros no corpo. Não é fácil, neste momento,
deixar de pensar no tipo de vida que ele leva. O vocabulário a aparência e a situação
dão indícios que você deve ignorar para enxergar apenas o ser humano em suas
mãos
- O que
aconteceu – perguntei, sem esperança de uma resposta sincera.
- Me deixa morrer,
eu não mereço viver. – foi a resposta
- Quem atirou
em você? – insisti.
- Não sei.
Chegamos ao
hospital, ele ganhou dois drenos de tórax e nós outro chamado. Uma PCR que,
ainda bem, era apenas um idoso em hipoglicemia. Nada que um acesso venoso e
algumas ampolas de glicose não resolvessem.
Fomos para
este atendimento sem maca e quando voltamos ao hospital ninguém havia
conseguido nenhuma informação a respeito da causa ou autor do disparo a queima
roupa.
O jeito é
voltar pra base, limpar a viatura e aguardar a liberação da maca.
No caminho
ainda me perguntava: - Que tiro foi esse?
PS: Depois a
NT me contaria que, segundo a irmã, o tiro foi dado pela própria vítima, numa
fracassada tentativa de suicídio

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