sexta-feira, 30 de março de 2018

Brincadeira de criança.



“As crianças têm a resiliência para sobreviver aos seus sofrimentos, se tiverem a chance.”  Ishmael Beah

O plantão começa com um chamado para atender uma queda da própria altura. Hoje estamos SG, auxiliar de enfermagem, RM, nosso condutor, e eu. Meus parceiros diários NT e CT estão de folga.
Chegamos ao local da ocorrência e fomos informados que o bêbado que estava caído no bar, levantou-se e foi para casa. Informamos à central e voltávamos para a base quando nos passam outra ocorrência, uma alteração de comportamento dentro da delegacia do bairro.
Na delegacia enquanto aguardamos alguém para nos atender somos surpreendidos por uma mãe que, aos gritos, pedia que ajudássemos seu filho. A princípio pensei que a criança fosse vítima de atropelamento até que me aproximei.
O garoto de seis anos tinha uma tesoura cravada no lado esquerdo da cabeça, a cena era assustadora pois junto com a tesoura um monte de linha de nylon o que dificultava qualquer procedimento. Principalmente aquele que era primordial no momento; estabilizar a tesoura para que não se movesse. Enquanto tentava “limpar” a tesoura da linha que a envolvia, ia conversando com o garoto, que me contou se chamar “J”, ter seis anos e que estava brincando de “relinho” com o primo quando a linha quebrou e a tesoura entrou na cabeça dele.            
Estabilizamos a tesoura e rumamos para o hospital onde o J se tornou o centro das atenções pois todos afirmavam nunca ter visto nada parecido (eu me incluo no todos).
Missão cumprida, voltamos para base.
Era madrugada quando a central chamou para que atendêssemos um trabalho de parto partimos para o local e lá chegando percebemos que tinha algo errado quando uma senhora ainda na calçada gritou:
- Moço, corre por favor, já nasceu. Mas não chora e está roxinho...
Subi os dois lances de escadas escuras e ao chegar no quarto encontro uma moça de 19 anos com uma criança ao lado ainda ligadas pelo cordão umbilical.
                - Ela não chora moço...
A criança estava completamente gelada, não respirava e sua pele cianótica (roxa) denunciava a falta de oxigenação.
Não houve tempo para hesitação. Coloquei os “clamps” e cortei o cordão umbilical, coloquei o bebe na palma da mão e comecei as manobras. Após expelir uma quantidade considerável de secreção pela boca e nariz, senti seu minúsculo coração bater e a pequena começou a chorar.
             - Olha aí mamãe. Sua super bebê já está chorando.
Pedimos apoio do suporte avançado e com a chegada deles, passamos o caso e voltamos para base.
No caminho de voltava eu pensava: "Entre todas as PCRs revertidas, nenhuma me deixou mais satisfeito e feliz com a escolha que fiz na vida."
Missão cumprida

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