“As crianças têm a resiliência para sobreviver aos seus sofrimentos, se
tiverem a chance.” Ishmael Beah
O plantão começa com um chamado
para atender uma queda da própria altura. Hoje estamos SG, auxiliar de
enfermagem, RM, nosso condutor, e eu. Meus parceiros diários NT e CT estão de
folga.
Chegamos ao local da ocorrência e
fomos informados que o bêbado que estava caído no bar, levantou-se e foi para
casa. Informamos à central e voltávamos para a base quando nos passam outra ocorrência,
uma alteração de comportamento dentro da delegacia do bairro.
Na delegacia enquanto aguardamos alguém
para nos atender somos surpreendidos por uma mãe que, aos gritos, pedia que
ajudássemos seu filho. A princípio pensei que a criança fosse vítima de
atropelamento até que me aproximei.
O garoto de seis anos tinha uma
tesoura cravada no lado esquerdo da cabeça, a cena era assustadora pois junto
com a tesoura um monte de linha de nylon o que dificultava qualquer
procedimento. Principalmente aquele que era primordial no momento; estabilizar
a tesoura para que não se movesse. Enquanto tentava “limpar” a tesoura da linha
que a envolvia, ia conversando com o garoto, que me contou se chamar “J”, ter
seis anos e que estava brincando de “relinho”
com o primo quando a linha quebrou e a tesoura entrou na cabeça dele.
Estabilizamos a tesoura e rumamos
para o hospital onde o J se tornou o centro das atenções pois todos afirmavam
nunca ter visto nada parecido (eu me incluo no todos).
Missão cumprida, voltamos para
base.
Era madrugada quando a central
chamou para que atendêssemos um trabalho de parto partimos para o local e lá
chegando percebemos que tinha algo errado quando uma senhora ainda na calçada
gritou:
- Moço, corre
por favor, já nasceu. Mas não chora e está roxinho...
Subi os dois lances de escadas
escuras e ao chegar no quarto encontro uma moça de 19 anos com uma criança ao lado
ainda ligadas pelo cordão umbilical.
-
Ela não chora moço...
A criança estava completamente
gelada, não respirava e sua pele cianótica (roxa) denunciava a falta de
oxigenação.
Não houve tempo para hesitação. Coloquei
os “clamps” e cortei o cordão umbilical, coloquei o bebe na palma da mão e
comecei as manobras. Após expelir uma quantidade considerável de secreção pela
boca e nariz, senti seu minúsculo coração bater e a pequena começou a chorar.
- Olha aí mamãe. Sua super bebê já está chorando.
Pedimos apoio do suporte avançado
e com a chegada deles, passamos o caso e voltamos para base.
No caminho de voltava eu pensava: "Entre todas as PCRs revertidas,
nenhuma me deixou mais satisfeito e feliz com a escolha que fiz na vida."
Missão cumprida


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