Sexta feira é um dia atípico, começa pelo infernal trânsito em qualquer hora do dia em direção as rodovias, será que todo mundo sai mais cedo do trabalho na sexta?
Chegando ao hospital outra constatação: tem vaga no estacionamento, coisa rara de segunda a quinta. Mas, como não tenho opção de viajar hoje vou para o PS deposito minha enorme mochila na sala da supervisão e retorno ao lado de fora onde observo a chegada dos profissionais da noite e saída daqueles que passaram o dia aqui.
Auxiliares, Enfermeiros, Médicos e outros profissionais chegam e saem a todo instante. Observo as relações humanas, pessoas que passam pelas outra e sequer trocam olhares, outros que se abraça efusivamente para em seguida demonstrarem indiferença.
Uma situação me chama a atenção: um funcionário com deficiência visual esta sentado a poucos metros de mim e eu observo que as pessoas passam por ele e não o cumprimentam o que não acontece comigo. Concluo que é pelo fato de eu estar vendo quem chega e isto obriga as pessoas a uma reação, mas o cego não tem como saber quem passa, apesar de claramente perceber a presença das pessoas...
Observo o mundo mais um pouco, penso nas coisas que tenho que fazer converso com algumas pessoas que chegam ou saem e lá vou eu.
O Pronto Socorro está lotado (novidade?), não sei de onde tiram tantas macas, e o problema maior agora é espaço físico. Quando iniciava minha vida pelo mundo das letras aprendi algo que me vem à mente neste momento: “Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço”, mas parece que aqui queremos subverter esta lei.
Coloco a escala no lugar de costume, dou a última olhada, pensando se algo pode ser modificado em razão das faltas anunciadas, mas esta tudo bem. Vamos sobreviver. Converso com um auxiliar que retorna de licença médica e vou para a primeira ronda da noite. Receber plantão na UTI e verificar a quantidade de auxiliares nos outros setores. Tudo feito volto para o PS.
A babel está formada, além do número de pacientes, um batalhão de estagiários invade o local, é um falatório que atordoa e atrapalha a organização inicial do plantão. Chegam os Enfermeiros, hoje somos quatro. Distribuímos a equipe e começamos a resolver os problemas da noite. Não há nenhum paciente muito grave. O que está pior já tem vaga na UTI e não demoramos e mandá-lo para lá. A partir daí é manutenção. Atende um familiar, resolve uma prescrição. Observo uma paciente em frente a emergência, está vermelha, olhos inchados...
- O que ela tomou? – pergunto à auxiliar que a assiste.
- Dipirona, está com febre.
- Legal e agora está com uma reação alérgica, prepare 500 de flebo e um fernegan, vamos chamar o clínico.
Clínico chamado, medicação feita (não necessariamente nesta ordem) e nossa paciente volta ao normal. Não receberá mais dipirona, por enquanto.
SAMU, paciente amarrado, violento, segundo os familiares. Recebe a medicação e tem que ser encaminhado à psiquiatria. Observo suas reações enquanto é assistido e tomo uma decisão:
- Solte-o.
- Tem certeza, enfermeiro- pergunta a FB, auxiliar de enfermagem, estudante de farmácia e que sempre quer aprender algo.
- Sim, pode soltar.
Depois de solto o paciente desce da maca e é conduzido por mim até a psiquiatria, de braços dados. Lá recebe mais medições sem precisar ser contido. Ufa, deu certo.
Estamos no corredor, plantão monótono, quando um jovem entra gritando.
- Onde é a sala do médico.
O controlador o aborda e leva para fora. Vou atrás.
- O que aconteceu – pergunto.
- Moço, eu estava mexendo com produto químico e na hora do banho pus a mão no meu pinto e ele tá dormente...
- Calma...
- Calma, não olha aqui – e tirou o pênis para fora em meio à sala de espera- está sem sensibilidade nenhuma, vai cair.
- Tive que me afastar, pois a vontade de rir era imensa. Ele foi encaminhado ao cirurgião e depois de um soro para casa. Não sem antes tentar mostrar que seu “amigo” estava morrendo para mais umas dez pessoas.
Bombeiro, um bêbado foi atropelado. Escoriações e nada além Começo a acreditar que eles são protegidos.
Sou chamado na clínica médica:
- Enfermeiro, o paciente desceu da cama e não consegue subir – diz o auxiliar.
A chegar ao quarto, o susto: o paciente, enorme com 140 quilos mal distribuídos, nu, evacuado, com o tórax na parte inferior cama, os pé na escadinha e as nádegas para cima. O que fazer?
Lembrei-me de outra lei da física: “Corpo, é uma porção limitada da matéria”. Limitada?
Mantendo na posição o empurramos para cima de forma que ele ficou com os pés para a cabeceira. E como virar? Pensei rápido e decidi.
- Pegue o colchão. Agora vamos girar. Pronto – Nem foi tão difícil, pensei.
- Inteligente chefe. Gostei – disse o auxiliar
- Arquimedes: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo”. – rimos- e volto para o PS.
Na sutura o auxiliar me chama. Um rapaz se envolveu em uma briga como o cunhado, ganhou um corte na dobra do braço, sua artéria jorra.
Coloco o manguito de pressão acima do ferimento, insuflo e pressiono o local. A cirurgiã chega logo e o problema é resolvido. Na coleta de dados descubro que ele deu um empurrão no cunhado e lei da física: “A toda ação, corresponde uma reação...” Problemas de família.
O resto foi mamão com açúcar, problemas administrativos uma ou outra solicitação e fim de plantão...
Voltando para casa, chuva. Vejo os faróis do outro carro, ele não conseguirá fazer a curva, vem na minha direção e me deparo com outra lei da física: “Todo corpo tende a continuar o estado de movimento ou repouso em que se encontra a não ser que alguma força atue sobre ele” e o outro carro só parou após bater violentamente contra o meu...
Lembrei-me da lei de Murphy
Ninguém se machucou.
Até amanhã, de moto.
Pq o Enfer J não se candidatou para as eleições do COREN? já teria três votos, o meu do meu marido (enfermeiros) e o dele é lógico.; Adoro o Blog, leitura obrigatória todos os plantões rsrs
ResponderExcluirSou auxiliar do PS e não sei parece que ele á ligado no 220, meu a pilha do cara não acaba. Atormenta a gente a noite toda kkkkkkkkkk Mas é o melhor chefe que já tive em 4 anos de profissão
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