sábado, 23 de julho de 2011

Sexta feira. Se todos os dias fossem assim…

São cinco da tarde quando chego ao hospital após uma jornada infernal pelo trânsito da capital paulistana. Não consigo entender o ser humano. Esta transformação pela qual passamos ao tomarmos o controle de um veículo é algo, para mim, inexplicável. Após uma breve passada pela sala da RG me dirijo ao PS onde pretendo terminar a escala do próximo mês. De todas as atribuições da nova função esta é a mais difícil pois mexe com a vida das pessoas, seus projetos pessoais e também com o funcionamento do hospital. Não demora muito e está na hora de receber o plantão. Dois enfermeiros não vêm hoje o que simplesmente acaba com a escala. Mas não sou de reclamar. Recebo o plantão no PS e preparo-me para ficar só, já que precisei remanejar a colega VK para a ortopedia.

Refaço a escala de serviço, algumas mudanças e pronto! Vai começar a brincadeira. O plantão está relativamente tranqüilo. Temos alguns exames para encaminhar algumas avaliações. Priorizo as avaliações, pois podem resultar em altas e conseqüentemente, menos trabalho. Reúno a equipe de técnicos e auxiliares, distribuo as funções e mãos à obra. Não demora e temos um plantão tranqüilo.

O MC, enfermeiro, chega. Havia esquecido que ele entra mais tarde. Agora somos dois ficou mais fácil ainda. O MC é ágil e objetivo, gosto de enfermeiros assim, sem rodeios.

Sou chamado à sala de sutura, um dentista se acidentou com uma agulha contaminada.; Atendido, preenchidos os papéis da vigilância sanitária e orientado. Esta assustado, é jovem e este o seu primeiro acidente. Oriento quanto a baixa possibilidade de contaminação e dou os encaminhamentos para que faça o acompanhamento no Ambulatório.

- Poxa, não sabia que enfermeiro fazia tanta coisa. Parabéns.

- Nem, eu. Só descobri depois de formado. Senão tinha escolhido outra profissão. Dentista por exemplo. – brinquei.

Rimos e ele foi embora, acompanhado pela namorada preocupada.

Uma senhora me aborda no corredor.

- Moço, quem é o Enfermeiro J?

- Sou eu.

- Quero fazer uma reclamação, a menina da sala 06 é estúpida. Tem a mão muito pesada, a injeção está doendo até agora.

- Deixe-me ver o que a senhora tomou... Profenid. Senhora, a mão da menina não é pesada. Esta injeção dói tanto que a senhora até esquece das outras dores. Mas ela falou alguma coisa pra senhora?

- Não somente a dor mesmo.

- Então por que ela é estúpida?

-É modo de dizer...

Pensei em alguns modos de mandá-la catar coquinhos, mas calei-me. Não seria publicável o que pensei em dizer. Uma jovem de mais ou menos 14 anos me espera:

- Moço eu me descuidei e o posto não funciona amanhã, como eu faço?

Paro um cirurgião no corredor.

- Dr, faz uma receita de pílula do dia seguinte para mim.

- No teu nome mesmo? – perguntou rindo.

Ele fez a receita, orientei a jovem quanto aos risco de uma relação sem preservativos e a comprar as pílulas na farmácia. Do jeito que ela saiu correndo, parecia estar preocupada.

Resgate dos bombeiros, atropelamento. Raios x, medicação liberado. Deu sorte.

Outro resgate, tentativa de suicídio, o rapaz se jogou na frente dos carros. Ganhou uma fratura de fêmur. Raios x, curativos, gesso, consulta com psiquiatra... Liberado. Assim deveria ser um PS. Resolutivo não acumulativo.

A noite avança. Paro para jantar. Há dias não janto com calma.

Na volta ao PS, nada mudou. Duas pacientes na emergência, graves, mas estáveis.

O SAMU traz uma senhora de 79 anos, dispnéica com doença de Alzheimer, acamada há anos. Eu já ia passando-a para a maca quando aquela voz que a gente não sabe de onde vem, soprou no meu ouvido: Leva esta paciente para a emergência.

- Gente, tira um paciente da emergência e coloca esta senhora. É um EAP.

Chegamos na sala de emergência, acesso venoso, monitor, sinais vitais e a idosa parou assim que a médica chegou para avaliar. Massagens, medicamentos, mas não a trouxemos de volta.

O marido não quis receber a notícia, precisamos esperar a irmã e sobrinhas chegarem para comunicar o óbito.

A irmã foi quem mais sofreu. Deve ser difícil, com a idade chegando vamos assistindo as pessoas que amamos partirem e deve ficar aquela sensação de vazio, solidão. Os que ficam são de outras gerações não compartilharam tanto conosco é como se uma parte de nossa vida fosse levada (eu creio) e fica a interrogação: Quem será o próximo.

Depois disto o plantão entrou numa tranqüilidade ímpar. O PS foi lavado, as macas limpas e forradas, nem parecia o mesmo quando passamos o plantão pela manhã. Tivemos tempo de conversar e discutir algumas coisas além é claro de rir um pouco.

Fim de plantão, um plantão como todos deveriam ser: tranqüilo.

Espero ter outros assim.

Até amanhã.

6 comentários:

  1. Que moleza hein? Gosto quando você sofre, a leitura fica mais animada rsrsrs... Brincadeirinha... adoro o PE

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  2. Planão tanquilo, o J não gosta.......

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  3. Adoro plantão tranquilo! E falo sem receio nenhum, que vcoê tenha um montão de plantão assim!

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  4. gostei muito do blog.muita informaçao de conteudo e com embasamento.para mim que sou tecinica de enfermagem cursando o primeiro semestre da faculdade é um achado sem preço poder contar com os conhecimetos de alguem com mais experiencia e conhecimento dessa profissão apaixonante.
    obrigada!

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  5. SOU AUXILIAR DE ENFERMAGEM,ADOREI ESTE BLOG,APESAR DE ESTAR ME APOSENTANDO,ADOREI O BLOG,MUITO ESCLARECEDOR EM VARIAS SITUAÇÕES.E ACHO QUE TANTO OS TÉC.DE ENF.COMO OS ENFERMEIROS DEVERIAM SER MAIS HUMILDE,QTO A Ñ SABEREM CERTOS PROCEDIMENTOS,E ACHAM HUMILHANTE PERGUNTAR P/ NÓS OS MAIS ANTIGOS.NINGUEM NASCEU SABENDO, O TEMPO E O INTERESSE PARA APRENDER,E O principal O DOM ,POIS SEMPRE DIGO QUE É ENFERMAGEM É DOM E Ñ QUERER!!!!!

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