São cinco da tarde quando chego ao hospital após uma jornada infernal pelo trânsito da capital paulistana. Não consigo entender o ser humano. Esta transformação pela qual passamos ao tomarmos o controle de um veículo é algo, para mim, inexplicável. Após uma breve passada pela sala da RG me dirijo ao PS onde pretendo terminar a escala do próximo mês. De todas as atribuições da nova função esta é a mais difícil pois mexe com a vida das pessoas, seus projetos pessoais e também com o funcionamento do hospital. Não demora muito e está na hora de receber o plantão. Dois enfermeiros não vêm hoje o que simplesmente acaba com a escala. Mas não sou de reclamar. Recebo o plantão no PS e preparo-me para ficar só, já que precisei remanejar a colega VK para a ortopedia.
Refaço a escala de serviço, algumas mudanças e pronto! Vai começar a brincadeira. O plantão está relativamente tranqüilo. Temos alguns exames para encaminhar algumas avaliações. Priorizo as avaliações, pois podem resultar em altas e conseqüentemente, menos trabalho. Reúno a equipe de técnicos e auxiliares, distribuo as funções e mãos à obra. Não demora e temos um plantão tranqüilo.
O MC, enfermeiro, chega. Havia esquecido que ele entra mais tarde. Agora somos dois ficou mais fácil ainda. O MC é ágil e objetivo, gosto de enfermeiros assim, sem rodeios.
Sou chamado à sala de sutura, um dentista se acidentou com uma agulha contaminada.; Atendido, preenchidos os papéis da vigilância sanitária e orientado. Esta assustado, é jovem e este o seu primeiro acidente. Oriento quanto a baixa possibilidade de contaminação e dou os encaminhamentos para que faça o acompanhamento no Ambulatório.
- Poxa, não sabia que enfermeiro fazia tanta coisa. Parabéns.
- Nem, eu. Só descobri depois de formado. Senão tinha escolhido outra profissão. Dentista por exemplo. – brinquei.
Rimos e ele foi embora, acompanhado pela namorada preocupada.
Uma senhora me aborda no corredor.
- Moço, quem é o Enfermeiro J?
- Sou eu.
- Quero fazer uma reclamação, a menina da sala 06 é estúpida. Tem a mão muito pesada, a injeção está doendo até agora.
- Deixe-me ver o que a senhora tomou... Profenid. Senhora, a mão da menina não é pesada. Esta injeção dói tanto que a senhora até esquece das outras dores. Mas ela falou alguma coisa pra senhora?
- Não somente a dor mesmo.
- Então por que ela é estúpida?
-É modo de dizer...
Pensei em alguns modos de mandá-la catar coquinhos, mas calei-me. Não seria publicável o que pensei em dizer. Uma jovem de mais ou menos 14 anos me espera:
- Moço eu me descuidei e o posto não funciona amanhã, como eu faço?
Paro um cirurgião no corredor.
- Dr, faz uma receita de pílula do dia seguinte para mim.
- No teu nome mesmo? – perguntou rindo.
Ele fez a receita, orientei a jovem quanto aos risco de uma relação sem preservativos e a comprar as pílulas na farmácia. Do jeito que ela saiu correndo, parecia estar preocupada.
Resgate dos bombeiros, atropelamento. Raios x, medicação liberado. Deu sorte.
Outro resgate, tentativa de suicídio, o rapaz se jogou na frente dos carros. Ganhou uma fratura de fêmur. Raios x, curativos, gesso, consulta com psiquiatra... Liberado. Assim deveria ser um PS. Resolutivo não acumulativo.
A noite avança. Paro para jantar. Há dias não janto com calma.
Na volta ao PS, nada mudou. Duas pacientes na emergência, graves, mas estáveis.
O SAMU traz uma senhora de 79 anos, dispnéica com doença de Alzheimer, acamada há anos. Eu já ia passando-a para a maca quando aquela voz que a gente não sabe de onde vem, soprou no meu ouvido: Leva esta paciente para a emergência.
- Gente, tira um paciente da emergência e coloca esta senhora. É um EAP.
Chegamos na sala de emergência, acesso venoso, monitor, sinais vitais e a idosa parou assim que a médica chegou para avaliar. Massagens, medicamentos, mas não a trouxemos de volta.
O marido não quis receber a notícia, precisamos esperar a irmã e sobrinhas chegarem para comunicar o óbito.
A irmã foi quem mais sofreu. Deve ser difícil, com a idade chegando vamos assistindo as pessoas que amamos partirem e deve ficar aquela sensação de vazio, solidão. Os que ficam são de outras gerações não compartilharam tanto conosco é como se uma parte de nossa vida fosse levada (eu creio) e fica a interrogação: Quem será o próximo.
Depois disto o plantão entrou numa tranqüilidade ímpar. O PS foi lavado, as macas limpas e forradas, nem parecia o mesmo quando passamos o plantão pela manhã. Tivemos tempo de conversar e discutir algumas coisas além é claro de rir um pouco.
Fim de plantão, um plantão como todos deveriam ser: tranqüilo.
Espero ter outros assim.
Até amanhã.
Que moleza hein? Gosto quando você sofre, a leitura fica mais animada rsrsrs... Brincadeirinha... adoro o PE
ResponderExcluirPlanão tanquilo, o J não gosta.......
ResponderExcluirAdoro plantão tranquilo! E falo sem receio nenhum, que vcoê tenha um montão de plantão assim!
ResponderExcluirgostei muito do blog.muita informaçao de conteudo e com embasamento.para mim que sou tecinica de enfermagem cursando o primeiro semestre da faculdade é um achado sem preço poder contar com os conhecimetos de alguem com mais experiencia e conhecimento dessa profissão apaixonante.
ResponderExcluirobrigada!
Cade vc????
ResponderExcluirSOU AUXILIAR DE ENFERMAGEM,ADOREI ESTE BLOG,APESAR DE ESTAR ME APOSENTANDO,ADOREI O BLOG,MUITO ESCLARECEDOR EM VARIAS SITUAÇÕES.E ACHO QUE TANTO OS TÉC.DE ENF.COMO OS ENFERMEIROS DEVERIAM SER MAIS HUMILDE,QTO A Ñ SABEREM CERTOS PROCEDIMENTOS,E ACHAM HUMILHANTE PERGUNTAR P/ NÓS OS MAIS ANTIGOS.NINGUEM NASCEU SABENDO, O TEMPO E O INTERESSE PARA APRENDER,E O principal O DOM ,POIS SEMPRE DIGO QUE É ENFERMAGEM É DOM E Ñ QUERER!!!!!
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