sábado, 29 de junho de 2013

Sexta-feira: O bêbado equilibrista

Para o trabalho que gostamos levantamo-nos cedo e fazemo-lo com alegria. William Shakespeare

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Faltam 20 minutos para as sete da manhã, quando encosto a moto na base e agradeço por não ter virado picolé no trajeto casa-trabalho. Meus plantões tem sido calmos o que contribuiu para que tenha colocado minha leitura e cursos de capacitação em dia.

Confiro a viatura e em companhia da DN vou tomar o café da manhã e enfrentar o penúltimo plantão diurno, já que na semana que vem volto para a noite e assumo outro pronto socorro no emprego número dois.

Durante o café minha parceira conta de sua diversão com o Plantão de Enfermagem, que ela leu durante sua folga e lamentamos o fato de termos que nos separar.

O dia vai tranquilo, atendo o rádio, converso com colegas, auxiliares, condutores e internos de medicina.

explicantA SV, auxiliar de enfermagem, vem tirar uma dúvida sobre pressão arterial e eu explico detalhadamente os valores, graus de hipertensão e formas de medir. Percebo que além dela, minha parceira e os alunos internos de medicina estão prestando atenção. Estes, os internos, fazem um pedido.

- A gente queria um enfermeiro J dentro de uma lâmpada, para tirar nossas dúvidas. – pediu uma

- Não pensei que enfermeiro fosse assim – completou a outra

- Definitivamente, vocês não me aguentariam. - completei.

A manhã foi embora e a tarde avançou sem que tivéssemos saído da base para outra coisa que não fosse buscar o almoço.

Já passavam das 15h00m quando o WC, nosso condutor, chamou e informou a necessidade de abastecer a viatura. Chamei o SL, médico da equipe, e lá fomos nós.

pro_3100No caminho, conversávamos descontraidamente, falávamos de família, filhos e banalidades quando o rádio nos interrompeu:

- SAV, é a central.

- Prossiga central.

- Ocorrência, necessitamos dos senhores em apoio a uma equipe dos bombeiros.

cvosturandoPassados os dados o WC mostrou porque é o condutor preferido de 07 em cada dez membros do SAMU, chegamos muito rápido e encontramos um homem caído no rio, que ficava a pelo menos dois metros abaixo do nível da rua.

Ao descer um policial militar me alerta:

- Cuidado aí J, este pedaço aí é fundo.

- E eu é que não estou com a mínima intenção de testar.

IMG-20130628-WA0002O SL tambem desceu e fomos avaliar a vítima que completamente alcoolizada, fora encontrada com o rosto dentro da agua imunda do rio, cujos afluentes nada são além de esgotos domésticos e comerciais da região. Provavelmente tentava se equilibrar na mureta de proteção. Mas equilíbrio e bêbado só deram certo na canção da Elis. Retiramo-lo da água e após prendê-lo à prancha o elevamos para que a equipe que se localizava acima terminasse o transporte até a viatura.

Na viatura começamos a dar os primeiros socorros, acesso venoso e glicose na veia foram suficientes para que nossa vítima subisse dois pontos na escala de coma e começasse a dar trabalho.

- Acho melhor você restringir ele, disse o SL.

- Eu também. – concordei enquanto prendia as mãos do homem na grade da maca.

A vítima, um homem de 45 anos, que aparentava ser bem cuidado, com barba feita, bigode aparado e unhas limpas, agora dava sinais de que só estava muito bêbado e começava a vomitar.

- Caramba, vai lambuzar a viatura – reclamei.

- Faz um dramin – disse o SL

- Ok.

eu_diario_1_2- Caramba, WC. Já estamos chegando ao Miguel Couto no Rio de Janeiro? – perguntou rindo o SL para nosso condutor.

- Tá difícil aqui doutor. Tem bloqueio pra todo lado. Se fosse para lá, já teríamos chegado.

Feito o dramin nosso bêbado ficou mais tranquilo e ainda assim tive que lateralizá-lo duas ou três vezes durante o transporte que demorou muito em virtude do transito caótico que se formou na cidade em virtude das manifestações populares.

Deixamos nossa vítima no Pronto Socorro e já estava saindo quando a auxiliar de enfermagem de um suporte básico que trazia um dependente químico visivelmente alterado, pediu ajuda.

doidoO rapaz surtou e passou a distribuir sopapos para todo lado. Deixei o que estava fazendo e voltei a meus tempos de PS. Segurei o rapaz pelo braço e carinhosamente o coloquei na maca do PS onde ele, após me ouvir atentamente resolveu colaborar e se deixou restringir.

Missão cumprida. Vamos voltar à base.

Na volta encontramos mais manifestação e tudo parado. A sirene de nada adiantava, os carros não tinham para onde ir. O WC tentava de um e de outro jeito e nós pouco andávamos. Desci da viatura e achei um caminho pelo canteiro de forma que fugimos da rodovia, o WC como verdadeiro piloto de raly conduziu a viatura para fora do tumulto e conseguimos chegar à base.

Fim de mais um dia onde senti orgulho da profissão que escolhi.

“Sua tarefa é descobrir o seu trabalho e, então, com todo o coração, dedicar-se a ele.” Buda.

5 comentários:

  1. Leio releio e não me canso...parabéns.

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  2. Descobri seu blog sem querer pesquisando sobre plantões de enfermagem, fui aprovado em enfermagem na UFRN e estava na duvida se era essa a profissão que deveria seguir, mas depois de ler algumas cronicas do seu blog vi que não tem outra coisa pra mim além disso.
    Parabéns pelo blog.

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  3. Quando eu crescer, quer ser igual a você chefe!!! Bjos.

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  4. ja q nao posso ter o enfermeiro...pelo menos posso ler o blog.????quero mais postagem.

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