"Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido. " Hermann Hesse
Passam das 18h45m quando finalmente consigo chegar à base. O trânsito está horrível e o trajeto entre o emprego numero 01 e a base pareceu mais longo do que realmente é. Junte-se ao trânsito a impaciência e imprudência e temos o cenário propício ao caos com acidentes pelo caminho e um número enorme de pessoas atrasadas para ir a algum lugar.
Cheguei, assumi o plantão e ainda fazia a escala dos auxiliares quando o rádio chamou. Uma pessoa inconsciente.
Saímos. Na viatura o AN, nosso condutor, o YR, médico e eu. O endereço, conhecido pelo condutor, não ficava longe e em 4 minutos estávamos no local. Um Hotel de alta rotatividade, destes onde ninguém em sã consciência levaria a namorada para passar uma noite, em uma movimentada avenida.
- Boa noite – cumprimentei o porteiro, que nos esperava,
- Boa noite é por aqui. No primeiro andar. – respondeu.
“Porque nunca é no térreo?”, pensei enquanto começava a subir as escadas já avaliando o possível caminho de volta com a vítima na prancha.
O porteiro abriu a porta do quarto, que ainda estava trancada.
- Ele está do mesmo jeito que estava quando chamei vocês. Na mesma posição.
Na cama, um rapaz com a pele fria e deitado de lado me fez pensar no pior. Mas ao fazer a avaliação primária informei ao médico:
- YR, tem pulso e respiração. Saurando 99, PA 120x80.
O YR, médico jovem e muito dedicado, tenta de toda forma que o rapaz responda às nossas solicitações sem sucesso. Ele não reage aos estímulos.
- J, vamos pegar um acesso e dar volume.
- É pra já. Respondi enquanto preparava o soro.
- Posso tentar? – perguntou o médico.
- Fique a vontade.
- Me ajuda aqui. Nunca peguei uma veia.
O acesso não estava fácil. Tentamos umas três vezes e então decidi puncionar. Pequei uma veia pequena, fina, mas que era suficiente para fornecer volume.
- Coloca 500, aberto – pediu o YR.
- Onde está a mulher que entrou com ele? – perguntei ao porteiro.
- Ele entrou sozinho – respondeu a camareira – não é a primeira vez que ele vem.
- Sozinho? E estas camisinhas usadas? – perguntei enquanto observa o chão com pelo menos quatro preservativos jogados.
O AN, após ajudar com a fixação do acesso foi pesquisar os pertences da vítima na esperança de que encontrássemos alguma resposta para a estranha cena. E achou. Dentro da mochila alguns pinos de cocaína denunciavam o uso da droga. O banheiro do quarto em estado deplorável com o rolo de papel higiênico jogado dentro da pia, todo molhado e as roupas jogadas pelo chão.
- Estas camisinhas... Isto está estranho. Ou ele estava acompanhado ou esta é a primeira masturbação segura que tenho conhecimento.
- Eu nunca ouvi falar disto – completou o YR, sorrindo.
- Acho melhor chamar a polícia – sugeri – senão o que faremos com os pertences dele? Já pensou eu chegando ao hospital e passando para a enfermeira; “Esta aqui é a cocaína dele” ?
Decidimos chamar a polícia, após o soro o rapaz “acordou”, nos forneceu nome e telefones de contatos. Ligamos para esposa e solicitamos sua presença no local.
Mas as camisinhas...
- Cara, com quem você estava?
- Sozinho.
- Mas e estas camisinhas usadas?
- Estava batendo pun####
- Ah não! Pronto, descobri mais uma.
Com a chegada da polícia o YR resolveu liberar o rapaz, que já estava melhor. 23 anos, casado, com uma filha de 1 ano. Vai ter problemas para explicar a situação para a esposa. Para nós o caso está encerrado.
Voltamos a base. O YR está acabado, trabalhando há 48h direto ele não aguentou. Ficamos sem o médico. O jeito será transformar a viatura em básica e rodar. Escalei a JS para rodar comigo e fui jantar.
São 22h15 quando o rádio nos chama para atender a uma vítima de crise convulsiva. Ao chegar no local a irmã muito nervosa me dá as primeiras informações:
- É meu irmão. Ele está com um lado do corpo paralisado e com a boca torta.
- Qual a idade dele – pergunto
- 26.
- Bem vamos lá. Onde ele está?
- No quarto andar.
“Por que nunca é no térreo?”
No local o rapaz com um DNV gigante, tinha a boca torta e o lado esquerdo do corpo todo tenso. Me confidencia que está triste com a viagem da namorada para Miami e com alguns problemas financeiros. Pensando nos quatro andares de volta, decidi perder mais algum tempo com ele para que o mesmo decidisse caminhar. Depois de alguns minutos de conversa ele “melhorou” e já íamos para a viatura quando na sala, ao ver a platéia familiar, ele informa:
- J, minha vista escureceu. Vou desmaiar.
Não teve jeito, tivemos que colocar o menino de 1,83m na prancha e descer os quatro andares. No hospital, ao ser informada de que a “doença” de seu irmão não era tão grave quanto parecia, a irmã desabafa:
- Minha vontade é espancar até ele ficar doente de verdade.
Para nós, missão cumprida. De volta à base, o resto da noite foi tranquilo.
“Se observarmos uma pessoa com suficiente atenção, acabaremos por saber mais a seu respeito do que a própria pessoa.” Hermann Hesse
Até o próximo
saudade do blog.cade vc enfermeiro.
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