“A única maneira de fazer um bom trabalho é amando o que você faz. Se você ainda não encontrou, continue procurando. Não se desespere. Assim como no amor, você saberá quando tiver encontrado”. Steve Jobs
O frio das madrugadas tem tornado a viagem de ida ao trabalho uma verdadeira tortura sobre a moto. Está tão frio que até pinguim sairia de pantufas. Depois de uma rápida passada na padaria com a finalidade de garantir meu suplemento de carboidratos matinal chego à base onde encontro os colegas da noite encolhidos e amontoados no sofá de forma a aquecer uns aos outros.
Após tomar o café da manhã e receber o plantão fomos, DN e eu, conferir a viatura. Tudo pronto, equipe passada pelo rádio, era só esperar que precisassem de nós. Além de nós dois temos o TG, médico e o VT, condutor.
Manhã tranquila até que o radio chamou o suporte avançado
- Homem, 50 anos, tentativa de suicídio.
Pegamos o endereço e fomos para o local com a pressa que a situação exigia. As informações eram confusas, não tínhamos certeza se a vítima enforcou-se ou cortou o pescoço. De qualquer forma o VT não economizou e cruzamos a cidade e pouquíssimos minutos, que para nós pareciam horas.
Estavamos a dois ou três minutos da base quando a DN fica branca e me fala:
- Esqueci a maleta de psico...
- Tá brincando... – respondi.
- É sério, tirei para repor a receita e ficou em cima da mesa.
- Relaxa, estamos juntos. Volume, volume, volume.- completei
No caminho uma cena nos chama a atenção, um animal de grande porte trepado em um muro observava o movimento na estrada.
- Nossa! Como aquela vaca subiu lá? – perguntou a DN
Observei a cena e corrigi minha parceira:
- Não é vaca não, parceira é um bode. Um bode enorme.
- Ah! O bode expiatório!
Não sei como se consegue observar vacas, bodes e ainda fazer piada dentro de uma ambulância em estrada de terra toda esburacada a 100 km por hora, mas nós conseguimos.
Chegamos ao local, descemos TG e eu na frente e a cena era assustadora. O homem cortara a própria jugular com uma navalha e estava caído, de lado, no chão da lavanderia. À sua volta uma poça de sangue e vários panos encharcados com o liquido vital. O mais assustador era que ele devia pesar uns 200 kg e estava abaixo de uma escada estreita e com pelo menos 30 degraus.
Parecia estar morto, mas na avaliação primária alertei o TG.
- Tem movimentos respiratórios, tem pulso.
- Então vamos rolar.
Viramos o homem e pudemos avaliar melhor. Estava com vários cortes superficiais no pescoço e um mais profundo que atingiu a veia jugular.
- J, você consegue um acesso? – perguntou o TG
- Putz, não vai ser fácil. Ele já tem marcas de flebotomia. Mas o impossível a gente faz agora, milagres demoram um pouco mais.
Enquanto tentavamos salvar a vida do homem sua familia começava um barraco com a finalidade de descobrir de quem era a culpa pelo acontecido. Irmã acusava a cunhada, que culpava a ex mulher e por aí afora.
Consegui o acesso com um 18 e já fiquei muito feliz. A DN tratou de providenciar a fixação, pois sabíamos que não teria outra chance. Acesso pronto, sangramento estancado era hora de transportar o paciente para a viatura. Quando tentamos erguer a prancha esta rangeu tão forte que achamos que tinha quebrado.
- Tenho uma ideia – disse o VT- vamos levar até a escada e lá colocarei uma meia dúzia de homens sentados que sustentarão a prancha sobre a beça até que chegamos ao topo.
A ideia parecia maluca, mas deu certo. Não antes de a DN soltar mais uma de suas frases sensacionais para pedir ajuda:
- Gente, eu preciso de mais homens.
Com o apelo de minha parceira apareceram mais dois ou três rapazes que nos ajudaram no transporte até a viatura . Agora é só rumar para o hospital.
No hospital durante a avaliação do paciente o enfermeiro da emergência perguntou à DN:
- Ele só tem este acesso?
- Sim, e não está fácil de conseguir outro não. Se meu parceiro não pegou é porque não tem – respondeu DN.
- Vamos ver...
Depois de muito tentar o enfermeiro me chamou e pediu.
- Será que você pode conseguir mais um acesso?
- Acho que não. Agora só central. Mas vou tentar.
Tentei e após puncionar uma artéria, desisti. Deixamos o paciente no hospital quando o VT perguntou:
- E aí, vamos abastecer e trocar os psicotrópicos?
- Não! – respondemos em coro DN e eu – vamos para base
Sem entender nada o condutor voltou à base. Pegamos nossa bolsa e repusemos a viatura.
- Ufa! Que alívio – exclamou minha parceira.
- Nem me fale - concordei.
Saimos para comprar o almoço e ficamos na base
Após o almoço, lembramos que ainda tínhamos que abastecer e trocar os psicotrópicos então saímos. Parece combinado, ainda não tínhamos chegado ao hospital para troca dos medicamentos quando o radio chamou. Um senhor de 60 anos com dores no peito. Sirene ligada chegamos em poucos minutos e encontramos um homem, diabético, hipertenso e com 185 batimentos por minuto, atendido no ambulatório de uma empresa.
Acesso venoso, adenosina e transporte rápido. No hospital a surpresa, estava tão lotado que não tinha por onde entrarmos, tampouco como monitorizar o paciente, decidimos levar para outro lugar.
No caminho com os efeitos da adenosina e balanço da viatura somados, o paciente começa a vomitar.
- Quem sabe agora com o reflexo vagal não reverta de vez?
- Pode ser – concordou o TG
Dito e feito, assim que recoloco os eletrodos, soltos durante a movimentação, constatamos a diminuição da frequência cardíaca. Ótimo.
- Ele reverteu!- comemorou o TG – Ele reverteu
Comemoramos todos. Agora o trabalho estava completo.
- Caramba, queria o eletro anterior para comparar. Mas joguei fora – disse o TG
- É você jogou no lixo, que agora está cheio de vômito.- provoquei.
- Eu sei, que droga.
Sorrindo, enfiei a mão no bolso do macacão, retirei um dos eletros anteriores e entreguei ao TG.
- Craca, você é f***!
- É já me disseram isto.
risos
Chegamos ao segundo hospital, deixamos nosso paciente que não se cansava de agradecer nossos cuidados com ele.
Voltamos para a base, passamos o plantão e comemoramos mais um dia perfeito.
"Se há algum segredo de sucesso, ele consiste na habilidade de apreender o ponto de vista da outra pessoa e ver as coisas tão bem pleo ângulo dela como pelo seu." Henry Ford
Adoro ler suas crônicas, mas isso não é o suficiente para suprir a falta que faz no HMU
ResponderExcluirVocê sempre trabalhando em equipe!!!!! Mostrando que a união faz a força!!!!
ResponderExcluirAmigo, dei mta risada... mto bom!!! DN
ResponderExcluircade o dono do Blog? Me apaixonei por ele.
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