quinta-feira, 30 de maio de 2013

Quarta-feira: O suicida, o cardíaco e o “bode expiatório”

“A única maneira de fazer um bom trabalho é amando o que você faz. Se você ainda não encontrou, continue procurando. Não se desespere. Assim como no amor, você saberá quando tiver encontrado”. Steve Jobs

friiioO frio das madrugadas tem tornado a viagem de ida ao trabalho uma verdadeira tortura sobre a moto. Está tão frio que até pinguim sairia de pantufas. Depois de uma rápida passada na padaria com a finalidade de garantir meu suplemento de carboidratos matinal chego à base onde encontro os colegas da noite encolhidos e amontoados no sofá de forma a aquecer uns aos outros.

paoApós tomar o café da manhã e receber o plantão fomos, DN e eu, conferir a viatura. Tudo pronto, equipe passada pelo rádio, era só esperar que precisassem de nós. Além de nós dois temos o TG, médico e o VT, condutor.

Manhã tranquila até que o radio chamou o suporte avançado

- Homem, 50 anos, tentativa de suicídio.

Pegamos o endereço e fomos para o local com a pressa que a situação exigia. As informações eram confusas, não tínhamos certeza se a vítima enforcou-se ou cortou o pescoço. De qualquer forma o VT não economizou e cruzamos a cidade e pouquíssimos minutos, que para nós pareciam horas.

ixi-esqueciEstavamos a dois ou três minutos da base quando a DN fica branca e me fala:

- Esqueci a maleta de psico...

- Tá brincando... – respondi.

- É sério, tirei para repor a receita e ficou em cima da mesa.

- Relaxa, estamos juntos. Volume, volume, volume.- completei

No caminho uma cena nos chama a atenção, um animal de grande porte trepado em um muro observava o movimento na estrada.

- Nossa! Como aquela vaca subiu lá? – perguntou a DN

bodeObservei a cena e corrigi minha parceira:

- Não é vaca não, parceira é um bode. Um bode enorme.

- Ah! O bode expiatório!

Não sei como se consegue observar vacas, bodes e ainda fazer piada dentro de uma ambulância em estrada de terra toda esburacada a 100 km por hora, mas nós conseguimos.

gordo-001Chegamos ao local, descemos TG e eu na frente e a cena era assustadora. O homem cortara a própria jugular com uma navalha e estava caído, de lado, no chão da lavanderia. À sua volta uma poça de sangue e vários panos encharcados com o liquido vital. O mais assustador era que ele devia pesar uns 200 kg e estava abaixo de uma escada estreita e com pelo menos 30 degraus.

Parecia estar morto, mas na avaliação primária alertei o TG.

- Tem movimentos respiratórios, tem pulso.

- Então vamos rolar.

Viramos o homem e pudemos avaliar melhor. Estava com vários cortes superficiais no pescoço e um mais profundo que atingiu a veia jugular.

- J, você consegue um acesso? – perguntou o TG

- Putz, não vai ser fácil. Ele já tem marcas de flebotomia. Mas o impossível a gente faz agora, milagres demoram um pouco mais.

barracoEnquanto tentavamos salvar a vida do homem sua familia começava um barraco com a finalidade de descobrir de quem era a culpa pelo acontecido. Irmã acusava a cunhada, que culpava a ex mulher e por aí afora.

Consegui o acesso com um 18 e já fiquei muito feliz. A DN tratou de providenciar a fixação, pois sabíamos que não teria outra chance. Acesso pronto, sangramento estancado era hora de transportar o paciente para a viatura. Quando tentamos erguer a prancha esta rangeu tão forte que achamos que tinha quebrado.

Escadaria_Pico_da_Tijuca_IMG_4498- Tenho uma ideia – disse o VT- vamos levar até a escada e lá colocarei uma meia dúzia de homens sentados que sustentarão a prancha sobre a beça até que chegamos ao topo.

A ideia parecia maluca, mas deu certo. Não antes de a DN soltar mais uma de suas frases sensacionais para pedir ajuda:

- Gente, eu preciso de mais homens.

Com o apelo de minha parceira apareceram mais dois ou três rapazes que nos ajudaram no transporte até a viatura . Agora é só rumar para o hospital.

No hospital durante a avaliação do paciente o enfermeiro da emergência perguntou à DN:

- Ele só tem este acesso?

- Sim, e não está fácil de conseguir outro não. Se meu parceiro não pegou é porque não tem – respondeu DN.

- Vamos ver...

Depois de muito tentar o enfermeiro me chamou e pediu.

- Será que você pode conseguir mais um acesso?

- Acho que não. Agora só central. Mas vou tentar.

Tentei e após puncionar uma artéria, desisti. Deixamos o paciente no hospital quando o VT perguntou:

ufa- E aí, vamos abastecer e trocar os psicotrópicos?

- Não! – respondemos em coro DN e eu – vamos para base

Sem entender nada o condutor voltou à base. Pegamos nossa bolsa e repusemos a viatura.

- Ufa! Que alívio – exclamou minha parceira.

- Nem me fale - concordei.

Saimos para comprar o almoço e ficamos na base

tsvApós o almoço, lembramos que ainda tínhamos que abastecer e trocar os psicotrópicos então saímos. Parece combinado, ainda não tínhamos chegado ao hospital para troca dos medicamentos quando o radio chamou. Um senhor de 60 anos com dores no peito. Sirene ligada chegamos em poucos minutos e encontramos um homem, diabético, hipertenso e com 185 batimentos por minuto, atendido no ambulatório de uma empresa. susAcesso venoso, adenosina e transporte rápido. No hospital a surpresa, estava tão lotado que não tinha por onde entrarmos, tampouco como monitorizar o paciente, decidimos levar para outro lugar.

No caminho com os efeitos da adenosina e balanço da viatura somados, o paciente começa a vomitar.

- Quem sabe agora com o reflexo vagal não reverta de vez?

- Pode ser – concordou o TG

Dito e feito, assim que recoloco os eletrodos, soltos durante a movimentação, constatamos a diminuição da frequência cardíaca. Ótimo.

- Ele reverteu!- comemorou o TG – Ele reverteu

Comemoramos todos. Agora o trabalho estava completo.

- Caramba, queria o eletro anterior para comparar. Mas joguei fora – disse o TG

- É você jogou no lixo, que agora está cheio de vômito.- provoquei.

- Eu sei, que droga.

trabalho-em-equipeSorrindo, enfiei a mão no bolso do macacão, retirei um dos eletros anteriores e entreguei ao TG.

- Craca, você é f***!

- É já me disseram isto.

risos

Chegamos ao segundo hospital, deixamos nosso paciente que não se cansava de agradecer nossos cuidados com ele.

Voltamos para a base, passamos o plantão e comemoramos mais um dia perfeito.

"Se há algum segredo de sucesso, ele consiste na habilidade de apreender o ponto de vista da outra pessoa e ver as coisas tão bem pleo ângulo dela como pelo seu." Henry Ford

4 comentários:

  1. Adoro ler suas crônicas, mas isso não é o suficiente para suprir a falta que faz no HMU

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  2. Você sempre trabalhando em equipe!!!!! Mostrando que a união faz a força!!!!

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  3. Amigo, dei mta risada... mto bom!!! DN

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  4. cade o dono do Blog? Me apaixonei por ele.

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