sábado, 9 de fevereiro de 2013

Quinta-feira: Inspirado.

 

“No que diz respeito ao empenho, ao compromisso, ao esforço, à dedicação, não existe meio termo. Ou você faz uma coisa bem feita ou não faz.” Ayrton Senna

 

Eram pouco mais de 18:00 quando, após vencer um transito horrível, estacionei a moto no hospital e me livrei da capa de chuva que a esta altura estava seca e fazendo o papel de estufa individual. Passei pela sala da chefa e ela me expõe a preocupação com a falta de enfermeiros.

- Meu filho, tá difícil né. Suas pernas estão quebradas. Você não tem enfermeiro.

- Fazer o que chefa. É o que tem pra hoje. Fique tranquila, a gente dá um jeito.

Pequei minhas pastas e fui para o sofá da fofoca. Ainda no sofá começo a receber mensagens, catatau (PT) e Rico (AL) avisam que não virão. Preocupado pego a escala e surpresa; estamos SM e eu como enfermeiros já que a VC está de licença. Para amenizar SD que estaria de folga vem e poderá cobrir a catatau.

Não adianta ficar lamentando, registro o ponto e vou para o Pronto Socorro. Não está muito cheio. Afinal vinte pacientes no corredor não bota mais medo em ninguém. As meninas vão chegando e assumindo seus lugares e deixando o plantão com a nossa cara.

Na admissão uma jovem senhora de 94 anos, diabética e com uma das pernas já amputada aguarda para ser levada ao para os exames de raios x o que LC e SD fazem rapidamente. Quando voltam os exames trazem a confirmação da suspeita inicial: a vovó fraturou o fêmur. De novo já que na imagem dá para ver uma prótese anterior. Vai ficar com a gente e não será por pouco tempo.

O plantão vai seguindo como de rotina, uma queda de moto sem grandes consequências.

Os Bombeiros trazem o primeiro da noite. Homem, bêbado que atropelou um carro. O rapaz já tem uma colostomia, está imundo e não é pelo acidente e sim pela falta de higiene de vários dias. Atendido o cidadão se recusa a receber a injeção de analgésico a não ser que seja feita no braço. Pedido negado. Foi encaminhado para ortopedia de onde foi liberado. Não sem antes termos que leva-lo outra vez para realizar exames de imagem.

SAMU, jovem embriagado caiu da moto já está na cadeira de rodasse por isto encaminho para a sutura. Mas tarde ele volta.

- Moço você pode me fazer um favor?

- Sim.

- Acaba de cortar minha calça que esta feio assim. Faz uma bermuda da hora pra mim...

A vontade foi soltar um palavrão enorme, mas me limitei a rir e pedir para que ele fosse embora.

SD e LC estão admitindo um rapaz com dor na pernas enquanto eu vou atender um que me chama no corredor:

- Ô Doutor, por favor, você pode me dizer porque minha barriga dói?

- Claro, meu amigo. – respondi sorrindo – Por que você tem barriga, se você não a tivesse não iria doer.

Tanto o paciente quanto os outro que estavam no corredor ( incluindo a SM, minha parceira hoje) começaram a rir. Expliquei-lhe que estava com cirrose hepática e por isto sentia dores. Ao lado outro cm dor abdominal este não é cirrose é apendicite mesmo.

- Menino, o senhor vai ter que ser operado.

- Sério, não posso jantar antes? – perguntou o paciente

- Não.

Chamei o cirurgião de plantão e meia hora depois o rapaz estava no centro cirúrgico.

A SD me chama. Está preocupada com o paciente com dor nas pernas.

- Fala SD.

- Ele caiu em um bueiro, tem dores nas panturrilhas, febre e está descamando... – respondeu

- E em que você está pensando? – perguntei para que ela se encorajasse.

- Que pode ser Leptospirose.

- Parabéns. É só chamar o clínico para avaliar e pedir exames.

Saí da admissão cheio de orgulho. Minha equipe é ótima.

No corredor a equipe sofre para pegar a veia de um paciente. Este já tinha dado trabalho no plantão anterior, Estava confuso e agitado. Teve que ser contido. Hoje está calmo e colaborativo. Depois de tentar uma vez pedi o material e puncionei a jugular. Assunto resolvido.

- Doutor eu queria te pedir desculpas pelo trabalho que dei aquele dia. – disse o jovem

- Não tem problema – respondi.

- Mas eu sei que eu xinguei o senhor, me perdoe.

- Se você me amarrasse eu também te xingaria. Então está tudo bem.

- É que eu sou cristão. Então tenho que pedir perdão pro senhor.

- Está tudo bem. Esquece – respondi fazendo um rápido afago na cabeça do rapaz.

Outro SAMU, paciente esquizofrênico, agressivo e devidamente contido na maca. O RD, clínico, já está na sala com a intimidade, concedida mutuamente, eu provoco:

- Por que você não acaba logo com isto?

- Você que está mole. Eu já mandei fazer Haldol e fernegan...

- Ah ta. E acha que vaio resolver?

- Não. Faz um diazepan também.

Rimos e fui puncionar a veia. Medicado o paciente dormiu e pedi para que a própria equipe do SAMU o levasse para psiquiatria.

Mal tinha saído da admissão e a LN, a japa, me avisa:

- Enfermeiro, PCR.

Virei-me e vi a equipe do SAMU, gelei. Pensei: “Putz, o cara parou. Mas Já estão ambuzando?”. Era outra equipe, o paciente parou em casa, foi atendido e trazido para nós. Por um instante pensei que fosse o paciente anterior. Durante quase uma hora trabalhamos neles. Mas o homem de 54 anos e com uma cirurgia cardíaca prévia não suportou mais um infarto. Restava dar a notícia à família e continuar nosso plantão. Fizemos isto.

Outra admissão, jovem de 36 anos, anêmico. Vai receber sua primeira transfusão. Preparo material e ele pergunta:

- Você vai me espetar de novo?

- Sim.

- Nossa. Já levei tanta picada que não aguento mais.

- Mas depois da minha picada você nunca mais vai querer outra. - brinquei.

- Sai fora.

- Assim que você me sentir enfiando com carinho, você vai gostar – provoquei.

- (rindo) Prefiro morrer.

- Posso providenciar isto também.

O rapaz riu. Parecia confortado e conformado com sua situação. Passara durante o dia no hospital, foi liberado e voltou a passar mal. Agora ficará internado.

O resto do plantão foi tranquilo. Uma jovem que manipula a atenção da mãe simulando convulsões, uma pressão alta, um e outro bêbado e nós vamos chegando ao fim do plantão.

Fim de plantão. Estamos passando bem mais lotado que recebemos. Olho em volta e percebo que mais uma vez fizemos o melhor.

Já estou com a mochila nas costas quando a acompanhante de um paciente me chama:

- J. Parabéns, você trabalha muito inspirado…

- Não é sempre, hoje eu estou engraçadinho. – respondi retribuindo o sorriso

- Parabéns mesmo. Até amanhã

Olhei em volta e encontro a SM terminando de passar o plantão:

- SM, vamos fugir deste lugar.

- Vamos sim, chefe.

Até amanhã.

“Antes de mais nada fica estabelecido que ninguém vai tirar meu bom humor” Fernando Sabino

Um comentário:

  1. Alcool e drogas. Os homens acabam se f...ops...morrendo com a droga ou pela droga ou acabam com o fígado fu..pelo álcool. Qual será o problema? o que falta?

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