O que você fizer hoje é muito importante: porque você está trocando um dia de sua vida por isso. (Autor desconhecido)
Ainda não eram 17h00m quando cheguei ao hospital. Estacionei a moto no lugar de costume e sentei-me por um momento no sofá da fofoca. Somente o tempo de retirar a roupa que coloco por cima do uniforme de forma a protegê-lo da sujeira durante o trajeto. Subi para a sala da chefa onde me atualizei dos problemas imediatos e fiquei aguardando o horário de registrar o ponto. Durante este tempo, converso com as meninas que, como eu, chegam muito cedo para e tem que ficar aguardando o horário. Banalidades, brincadeiras e vamos preparando nosso espírito para o plantão.
Não deixamos de lembrar o nosso final de plantão de domingo. Ia tudo muito bem. Calmo até demais e na passagem de plantão chega um garoto de 18 anos, esfaqueado várias vezes. Não resistiu e, ao colher a história da violência, a surpresa: o autor da agressão fora seu irmão mais velho. O motivo: drogas.
São 18h45min, registro o ponto e vou tranquilamente para o PS. Hoje Edna e Docinho já pegaram o plantão (elas entram às 18h00min) e o Pronto Socorro esta relativamente calmo nos últimos dias, motivo pelo qual fiquei pouco na assistência e consequentemente, não tivemos assuntos para o Plantão de Enfermagem.
Enquanto caminho vou pensando nas dificuldades VC e AND de licença, TM de férias, meu amigo CL sobrecarregado… Definitivamente não estar fácil para a equipe de enfermeiros… não mesmo. Mas chorar não ganha jogo então vamos a luta.
A porta vai e vem me revela um pronto socorro tranquilo, algum tumulto ainda na admissão onde a LC já assumiu e vai adiantando o plantão. Minhas colegas enfermeiras estão recebendo o corredor e eu, após guardar minha “pequena” mochila vou para admissão.
Nossa primeira tarefa é conseguir macas, o PS está tranquilo, mas as macas sumiram. Foram levadas para psiquiatria onde a coisa para ficar feia ainda tem que melhorar muito. Está lotada com 30 pacientes onde deveriam caber 15. Como candidatos às macas temos: um rapaz com possível luxação do ombro, um garoto de oito anos com fratura do cotovelo e uma jovem com dor nas costas.
Mexe aqui e ali mediquei o rapaz da luxação, encaminhei para os raios-X e liberei uma maca onde a LC mais que depressa colocou o garoto que iria para cirurgia mais tarde. Gostei, elas estão cada dia mais independentes e proativas. Isto facilita meu trabalho.
A docinho (MC), esta as voltas com uma paciente especial. Tem que arrumar uma maca, acomodar, sondar e medicar isto ao mesmo tempo em que suporta heroicamente as provocações dos acompanhantes. Observo e penso com meus botões “Se fosse comigo já teria estourado”.
As coisas vão fluindo, no corredor EL, Glória e SH vão dando conta do recado, as enfermarias e semi sob controle aí a MC me chama:
- J, vou precisar de ajuda com a sonda. Só para segurar as pernas serão duas pessoas.
- Ah Tá. Pode deixar comigo.
Fui para o local do procedimento disposto a resolver o assunto em 10 minutos. Ledo engano, a paciente não abria as pernas, sua higiene íntima obrigava ao uso de máscaras e para ajudar sua atrofia dificultava a visualização da uretra. Tenta de um jeito, de outro. Contaminei uma, duas e na terceira tentativa resolvemos leva-la para admissão onde poderíamos usar um foco. Ficou quase bom, mas ainda era difícil alcançar o objetivo.
- Se pelo menos fosse uma maca ginecológica... – lamentei.
- Isto mesmo – disse como se houvesse descoberto a roda – vamos descê-la o máximo na maca.
Descemos a paciente de forma que suas pernas ficaram para fora da maca e eu me posicionei de frente. Mas uma tentativa e pronto. O cateterismo vesical feminino mais difícil de minha carreira estava executado. Arrumamos a paciente e pronto nosso plantão voltava à calmaria.
Conversa com a MC sobre as condições de nossa paciente quando a DL, auxiliar da medicação, entra no saguão com uma ficha na mão.
- Enfermeiro, você pode conversar com o acompanhante desta paciente. Ele esta questionando a medicação...
Fui até a sala e encontro um rapaz sentado ao lado da mãe.
- Pois não. Qual a sua dúvida?
- O médico passou 40 mg de furosemida para minha mãe. Eu acho muito. São quatro ampolas.
- Bem, na verdade são duas ampolas e a mamãe está bem edemaciada e com a pressão alta.
- Não sei, não entendo nada disto.
- Então a solução é o senhor acreditar em quem entende. Não é?
- Você tem razão. Obrigado.
Volto para o PS, meus tornozelos estão em brasa. Passo pela sutura e ajudo a AD a fazer um enfaixamento abdominal. No PS outro acompanhante me espera/;
- O senhor que é o enfermeiro J?
- Sim.
- Eu queria fazer uma reclamação. Estou procurando minha mãe que foi trazida para cá agora à noite. Ninguém sabe me dizer nada.
- Quem trouxe sua mãe?
- Já ligou para ela?
- Sim. Ela disse que estava aqui no Hospital X.
- Então é no fim da rua. Aqui é o Hospital Y.
- Desculpe...
Não respondi, apenas observei ele se dirigir à porta.
- Ainda bem que este plantão está calmo – disse a mim mesmo.
As coisas ficaram calmas até as 05h00min quando dois pacientes da emergência resolveram ter parada cardíaca ao mesmo tempo. O mais jovem, de 48 anos, já tinha sua morte cerebral diagnosticada, então não há muito que fazer, devemos investir na outra, que apesar de mais idosa tinha maior perspectiva. Perdemos os dois.
Saio da emergência e encontro a Edna (DS) verificando a pressão de uma paciente na admissão.
- DS, estou com dois óbitos, preciso de ajuda.
- Nossa! Nem percebi – respondeu ela, com sinceridade – Nem sabia que tinham parado.
Sorri para doce ingenuidade de minha colega mais jovem e fomos preencher a papelada.
Neste momento a equipe já estava toda dedicada a arrumar a casa. Uns ajudando aos outros e ao final passamos o plantão.
Fim de plantão a SD está rebolando na admissão, preocupada com uma paciente com epigastralgia e sudorese. ECG e emergência, pode ser um IAM.
Saio do PS e encontro os familiares do homem de 48 anos falecido há pouco. A tristeza e desespero são enormes. Passo despercebido por eles enquanto penso na minha própria saúde. “Preciso me cuidar os AVCs estão cada vez mais frequentes em pacientes mais jovens”
O relógio de ponto decreta o fim de mais um Plantão de Enfermagem e o início de mais um ano do Blog.
"Um caminho de 1000 quilômetros começa com o primeiro passo." Lao-Tse
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