“Viver é enfrentar um problema atrás do outro. O modo como você o encara é que faz a diferença.” Benjamin Franklin
- Por favor, o senhor que é o enfermeiro J?
- Sim. Pois não? – falei interrompendo minha marcha para dar atenção a um rapaz vestido de bombeiro civil. (Não sei por que insistem em usar uniforme quando não estão trabalhando).
- Prazer, eu sou bombeiro.
- Bombeiro civil – disse ja desconcertando o rapaz que tentava dar uma carteirada.
- Estou com minha esposa aqui desde as duas da tarde e até agora não sabem o que ela tem me falaram para conversar com você para ver o que pode ser feito.
- Bem como você pode ver estou chegando agora. Ainda não recebi o plantão então, neste momento, não poderei te ajudar.
- PQP, C... Nesta P ninguém faz nada mesmo. - respondeu o rapaz, demonstrando sua impaciência.
- Não disse que não vou fazer, disse que ainda não estou trabalhando. Me de a ficha dela, assim que guardar minhas coisas vou ver o que acontece.
Ele me estendeu a ficha, a esposa havia sido medicada e aguardava resultados dos exames, os sintomas descritos (Formigamentos no corpo e hipertonia após briga familiar) me adiantam o diagnóstico e já ia recomeçando meu caminho quando vi um detalhe na ficha: o horário 17h45m.
- Pela ficha, posso três coisas; sua esposa já foi medicada, ela está esperando resultados de exames e teu relógio está atrasado, pois ela chegou as 17h45 e não as 14h00.
- Mas o caso dela é grave.
- Não lhe dá o direito de mentir. E muito menos nos ofender. É só aguardar.
Continuei meu caminho enquanto ouvia o rapaz me mandar para um lugar impublicável. Cheguei à porta vai-e-vem e ao abrir a surpresa. O corredor estava vazio. Haviam apenas 20 pacientes em observação. Passei direto, guardei minhas coisas e fui para emergência. Para compensar o corredor na emergência havia seis pacientes.
- Boa noite. Por quer estes pacientes estão aqui? Perguntei á colega que saia do plantão.
- A gente chama para reavaliar, mas ninguém vem.
- Ah! Está bem.
Na admissão a situação era parecida, quatro aguardando resolução.
Deixei MC e DS resolvendo o corredor e me dediquei à emergência e admissão recolhi os prontuários da emergência e procurei a PT, clínica do dia que ainda estava por ali.
- Reavalie para mim, senão não temos como trabalhar.
- Nossa! Não sabia que estava assim, cheio. - disse a médica.
- Imagino. Todos têm condições de sair.
- Também acho.
Resolvida a emergência, minha cabeça fica mais tranquila para cuidar da admissão onde uma jovem com o pé torcido aguarda reavaliação. Pego os raios x e observo que ela tem uma luxação no tornozelo. Levo os exames até o ortopedista.
- Você vai querer reduzir onde?
- Caramba, você é pé frio. Já começa assim...
- Já estava lá, eu só vou terminar o serviço.
A redução fui incruenta e na sala de admissão mesmo, após segundos o tornozelo voltava ao normal. Novos raios x e aparece uma fratura. Vai ficar internada.
A SD esta cuidando de uma jovem que aguarda internação e temos um senhor com dor aguardando analgesia.
- SD, por favor, priorize o idoso. Ela pode aguardar.
- Você que manda. – respondeu
A esta altura a LC está com outro na radiologia e o trabalho é tanto que peço para SH ajudar na admissão.
SAMU, morador de rua, queda da própria altura. Cortou o supercílio. Suturado ele ainda reclama de fome, peço para que espere um pouco eté que o cirurrgião avalie e ele so quer ser liberado.
- Posso ir embora? - pergunta.
- Não. Ainda tem dois médicos para vê-lo. Fazer exames e depois pode.
- MC, por favor, peça dieta para ele. Até pediria um banho, mas nestes casos é melhor não.
O rapaz se alimentou e ficou aguardando o cirurgião.
Resgate da concessionária de rodovia. Atropelamento. Ainda recebia o caso quando entra um SAMU, senhora de 66 anos queda da escada bateu as costas e esta com muita dor. No mesmo instante um senhor de 70 anos que também caiu da escada e está com muita dor chega trazido por familiares.
Adiantei o caso do senhor que caiu da escada, sentia dor no tórax e dificuldade para respirar, raios x, medicação, reavaliação e alta. A da rodovia não teve a mesma sorte, fratura exposta vai precisar de cirurgia, a senhora trazida pelo SAMU vai aguardar uma tomografia, mas após a medicação está bem melhor.
Emergência, uma jovem na cadeira de rodas empurrada pela irmã:
- Moço ela estava fazendo progressiva com formol, está com falta de ar.
Olhei para a paciente e a vermelhidão em sua face denunciava a intoxicação.
- Gente, me ajuda aqui.
Acesso venoso, inalação, hidrocortisona e prometazina deixariam a paciente melhor em minutos.
- Moça, você já sabe que não vai poder usar isto de novo. Não sabe?
- Sei. Sim. – respondeu a paciente.
- Seu marido está aqui. Ele prefere a esposa com cabelo duro à morta. Não é? – perguntei me dirigindo ao marido.
- Oh, claro.
- Além do mais, olha o estado da sua irmã – disse mostrando a irmã que saíra com o cabelo cheio de tintura para socorrê-la – se ela andar assim por aí nunca vai te dar um cunhado.
(risos)
A paciente recebeu alta. Acho que vai de contentar com o cabelo que tem por umas duas semanas, se tanto.
Uma jovem de 18 anos que terminou o namoro e estava toda torta chega acompanhada pela família inteira. Consultório, diazepan e alta.
Outra de 24 que está em crise com o marido. Não aceita que ele vá embora. Consultório, diazepan e alta.
Lembrei-me do bombeiro civil. Já esqueci.
Ainda tinha que resolver o problema do isolamento, uma garota de 15 anos, irmão de uma auxiliar aguardava reavaliação. Sei que se eu não for atrás ficará para outro dia e a menina passará a noite aqui. Peguei os exames, fui ao consultório e falei com o LCH, clínico.
- Acho que esta garota pode ir embora, o que você acha?
- Não sei por que ela está internada. – respondeu o médico sorrindo.
- Mais um motivo para alta.
- Pedi que MS, irmã da paciente, a levasse ao consultório onde recebeu alta. Vai dormir em casa.
Enquanto isto no corredor, MC, DS e SM iam colocando ordem, transferindo, fazendo os históricos que eu não fiz e remanejando pacientes e funcionários.
Estamos no balcão resolvendo algo e a SM pergunta:
- Está estressado hoje, chefe?
- Este é o normal dele – respondeu a MC – é acelerado, já pedi para a MN dar comida para ele, senão ninguém aguenta (risos)
Fui jantar e quando voltei percebi que tínhamos esvaziado a emergência e admissão, mas o corredor não cabia mais ninguém.
A madrugada foi calma e agradabilíssima, no final do plantão uma transferência de um PA. Idosa de 84 anos entubada. Admitimos, o SMT passou um cateter central e foi só.
O Plantão terminou, contamos os pacientes e passamos para o dia. Nossa parte foi feita da melhor maneira possível.
Ao sair, a senhora que aguardava a tomografia segura minha mão:
- Você já vai embora?
-Sim.
-Obrigada. Amanhã você volta?
- Sim. Amanhã à noite.
- Então vá om Deus e até amanhã.
- Amém. Até amanhã.
“Talvez não tenhamos conseguido fazer o melhor, mas lutamos para que o melhor fosse feito. Não somos o que deveríamos ser, não somos o que iremos ser.. mas Graças a Deus, não somos o que éramos.” Martin Luther King
Nossa, já estava com saudade. Este blog é minha inspiração diária, ou quase. Por favor não pare de escrever.
ResponderExcluirSueli
Ai ai ai, e o J continua solteiro... Será que ele é ... ou vcs, meninas são muito devagar? Hum...
ResponderExcluirObservadora
Pode parar. A fila é grande...
Excluirnão ele não esta .......
ExcluirComo pode, tá cheio de gente assim. Dando carteirada tentando intimidar que está trabalhando. Este pais não tem jeito mesmo
ResponderExcluirAdorei esta parte
ResponderExcluir- Não disse que não vou fazer, disse que ainda não estou trabalhando. Me de a ficha dela, assim que guardar minhas coisas vou ver o que acontece.
Ele me estendeu a ficha, a esposa havia sido medicada e aguardava resultados dos exames, os sintomas descritos (Formigamentos no corto e hipertonia após briga familiar) me adiantam o9 diagnóstico e já ia recomeçando meu caminho quando vi um detalhe na ficha: o horário 17h45m.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirCada dia me encanto mais com a sua rotina, Graças a Deus existem pessoas como vc!!!!!!!!
ResponderExcluirja to com saudade.
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