“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” Rui Barbosa
Sob um calor insuportável, intensificado pela jaqueta preta que uso como proteção, mas que nestas horas parece ser mais um instrumento de tortura chego ao hospital ainda cedo, por volta das 16h00. Terei alguns compromissos antes do plantão e durante eles vou colhendo informações sobre o caos que está o Pronto Socorro. Por volta das 18h45 vou ver com meus próprios olhos.
A vontade é virar as costas e não assumir. Não há a mínima condição de trabalho, lotado com pacientes em qualquer espaço que caiba uma maca ou cadeira, admissão e salas de emergências cheias. Realmente chega a dar medo. Está assim há vários dias, não conseguimos andar pelo saguão e junto com a lotação vem o descontentamento dos usuários que imputam aos funcionários a culpa que na verdade é das pessoas eleitas por estes mesmos usuários.
Ainda não temos dipirona e hoje acabou o voltarem, penso como um hospital pode sobreviver sem medicamentos tão banais, isto para citar só o escandaloso. As macas compradas recentemente quebram as rodas com a mesma facilidade com a recruta pega uma veia. Não temos papagaios e comadres para todos e pelo corredor proliferam-se jarros, bacias e garrafas utilizados como substitutos. Penso como deve ser desagradável evacuar com outra pessoa deitada a dez (eu disse dez) centímetros de você. Observo o constrangimento de uma mulher deitada na maca enquanto o vizinho ao lado se esforça para usar o papagaio, sob o lençol, que também esta faltando hoje. Os banheiros estão emporcalhados e mesmo que não estivessem não há como descer o paciente da maca para encaminhar ao local. Não há espaço. A situação está se aproximando do caos total.
Assumimos o plantão, as meninas do corredor tratam de separar homens de mulheres de forma a diminuir a insalubridade enquanto as da admissão tem cinco ou seis para acomodar e “encaixar” no corredor.
Nossos casos começas a chegar: SAMU com um senhor que caiu da própria altura e sente dores na perna. Raios x, medicação e nada. Não fraturou o ortopedista conversa comigo.
- J, não vejo fratura. Por mim eu libero.
- E esta dor?
- Então... É f...
- Ele já está aqui, deixa com analgesia e reavalia depois.
E com isto eu ganhei mais um paciente.
Um paciente, dependente químico e que estivera a dias no hospital me procura na admissão:
- Doutor, olha minha mão. Cortei pegando latinha.
A mão estava enorme, com sinais claros de abcesso. Encaminhei à cirurgia e mais tarde o paciente volta a falar comigo.
- Doutor, ela mandou eu tomar uma injeção e ir embora para voltar daqui a dois dias...
Não consegui deixar ele ir. Olhei em volta, e pedi:
- SD, por favor, coloque este paciente em uma maca e solicita uma dieta geral. Ele precisa comer e esperar o antibiótico fazer efeito.
- Obrigado, doutor, estou morrendo de fome. Não comi nada hoje.
Parece insano, em meio ao caos eu querer fazer o social mas a aprovação da SD e LCC foi suficiente para mim. Lá dentro ainda teria o apoio da MC e equipe. Ótimo. Pois mais tarde a cirurgiã iria questionar com a MC:
- Eu não internei este paciente.
- Ele não esta internado, doutora, só deitado. – Respondeu a docinho
- Por isto aqui está cheio – retrucou a médica.
- Não, doutora, não é uma maca que faz isto ficar pior- devolveu a enfermeira.
A noite avança devagar o relógio parece estacionado e aos poucos vamos dando conta da difícil missão escolhida. As admissões são tranquilas, porem muitas e o espaço vai se tornando ainda mais exíguo.
Quase onze da noite, ainda observava o corredor quando alguém avisa:
- J, está chegando um baleado...
- Vamos lá gente. Vai ser na admissão mesmo... - A emergência estava cheia então a sala de admissão era o lugar mais viável para o primeiro atendimento.
O rapaz de 20 anos recebeu quatro tiros sendo um no queixo que fraturou a mandíbula, um no ombro cujo projétil parou próximo a sua cervical e um no punho e outro na perna ambos causando fraturas. Está sangrando e o risco de bronco aspirar o sangue é alto. Preparamos o acesso venoso e a necessidade de entubar faz com que a AND comece a esvaziar a emergência para dar espaço para nós.
Chegando na emergência as coisas não saíram como desejado, a superlotação impede que as meninas confiram e reponham a sala e isto causa dificuldades na hora que precisamos. O cabo do laringo é infantil, a bandeja de sondagem não esta pronta e a catatau esta desesperada. Por azar entramos justo na sala da LCN enquanto ela jantava e a PT tem que assumir o BO.
Corre daqui, procura dali e de repente a catatau esta agachada junto ao carrinho de parada procurando uma sonda.
- Calma PT – deveria estar aqui. Não está? Procura em outro lugar
Ela ficou tão nervosa que nem pensou em procurar em sua própria sala a catatau é excelente e com um pouco mais de tempo vai dominar a emergência. Com certeza, vai.
Mais tarde iriamos ris da cena onde ela parecia um cachorrinho cavando o solo, enquanto procura algo enterrado.
Corre para realizar os exames, raios x e pronto. O rapaz esta estabilizado e o pai, que chorava do lado de fora, poderá vê-lo.
Nosso martírio continua, as pessoas vão sendo amontoadas no corredor e eu não deixo de pensar que presos em penitenciárias estão melhor acomodados que meus pacientes.
A madrugada chega, hoje a Glória conseguiu “arrancar” um dinheiro meu para pagar a Coca-Cola, e enquanto bebíamos falamos besteiras e rimos de nossa situação. Observo que as meninas estão cansadas. Não sei onde vamos parar.
Fim de plantão. Não há lugar para andar no PS, até para chegar ao vestiário dos funcionários está difícil. Passamos o plantão e nos retiramos. Ainda sinto que está faltando algo e não é somente maca, espaço, dipirona, voltaren e lençol. Está faltando RESPEITO pelo povo.
“Todo mundo quer comer na mesa do governo, mas ninguém quer lavar os pratos.” William Faulkner
Até amanhã
Gostaria que meus funcionários vissem isto. Assim eles deixariam de reclamar tanto. "Meu hospital" perto do "seu" é um paraíso...
ResponderExcluirComo já havia comentado com vc J, ainda bem que temos os profissionais que aceitam a missão ... com muita dedicação e amor ao que fazem... AM
ResponderExcluirEstá muito complicado trabalhar com essa situação... o que poderia ser eventual está se tornando comum. Falta tudo, do simples ao complexo. E não há jogo de cintura de contorne essa situação. Esse é o retrato da saúde pública: o caos.
ResponderExcluirEstá muito complicado trabalhar com essa situação... o que poderia ser eventual está se tornando comum. Falta tudo, do simples ao complexo. E não há jogo de cintura de contorne essa situação. Esse é o retrato da saúde pública: o caos.
ResponderExcluirJ, qto + leio suas publicações + t admiro como profissional!
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