“Motivação é a arte de fazer as pessoas fazerem o que você quer que elas façam porque elas o querem fazer.” Dwight Eisenhower
Já passavam das 18h00, estacionei a moto e joguei-me no sofá da fofoca, vou ficar ali até que a hora de enfrentar o plantão chegue. Aproveito para pensar em meus problemas pessoais e observar pessoas e uma coisa me chama atenção: o estacionamento sempre tem vagas na sexta feira a tarde. Nos outros dias da semana quem chega fica aguardando vaga até que os funcionários do dia comecem a retirar seus carros mas na sexta... N
a sexta as vagas surgem como por encanto, o estacionamento parece maior. Pergunto-me qual o milagre já que, teoricamente, o hospital está funcionando normalmente. Mas isto é complicado demais para minha inteligência, envolve física quântica, escalas de serviço, e cargos públicos. Não é para qualquer um entender. Então voltemos ao trabalho. Mas não sem antes pensar em como a sexta feira motiva as pessoas a sairem mais cedo do trabalho…
Faltam dez minutos para sete da noite, e ainda pensando em nos problemas de meu filho vou para o Pronto Socorro. Estou impaciente, hoje, tenho que cuidar para não misturar as coisas e fazer o plantão desandar.
Recebemos o plantão e começamos nossa luta. Não está difícil, é só organizar e conseguimos ter uma ideia da real situação. O PS está cheio, mas ainda temos umas cinco ou seis macas disponíveis. A escala está apertada, vamos ficar com três no corredor e uma delas em seu primeiro plantão. Mas as meninas são ágeis, Glória e Recruta dariam conta mesmo sozinhas, na verdade uma pessoa nova nestes momentos atrapalha mais que ajuda. Mas todos fomos “uma pessoa nova” um dia. Faz parte e temos que integrá-la e motivá-la.
O plantão vai tranquilo, admissões de rotina. Pressão alta, AVE, quedas de moto. Nada fora do normal ou que necessitasse de minha intervenção, as meninas SDN e LCN, estão tirando a admissão de letra. Aproveito para conversar com DS sobre seus primeiros 45 dias na equipe e com a AND, enfermeira que me cobra:
- Enfermeiro J, não tem mais blog?
- Não fiz o último, sem tempo. E hoje está sem graça. Nada para escrever.
- Tem que escrever, mesmo sem graça.
- Falta motivação, quando é muito calmo assim.
Não sei porque fui falar isto. Quase que imediatamente, chega uma equipe de remoção de um Pronto Atendimento. Eles trazem um paciente com história de bradicardia, a médica que o acompanha me da as informações.
- Ele esta estável agora, fizemos atropina.
- Desculpe doutora, ele não esta estável. Vinte de pulso, diaforético e agitado. Vamos para emergência.
Na emergência tive mais uma vez a prova de que nunca vimos tudo. O paciente com 15 bpm, conversava, dava o nome e idade e referia estar se sentindo mal.
- Gente, vamos correr com isto. MOV e exames, alguém chama o HB lá na frente...
HB, o clínico de plantão, chega recebe o caso de sua colega e me fala:
- E aí J, o único jeito é o marca passo.
- E? – perguntei, já sabendo qual seria a resposta.
- Eu nunca passei, mas não é coisa de outro mundo. Tem aí?
- Vamos buscar na UTI.
Começou nosso drama, buscamos o marca passo e eu chamei o intensivista para dar um “apoio” ao jovem e corajoso HB. Não precisaria ele se virou bem. O problema é nossas condições de trabalho. Temos o marca-passo mas não temos introdutor. Tem agulha mas é fina demais… Os calibres dos marca passos também são um capítulo a parte: ou muito fino ou grande demais. Optamos por ajudar o coração com compressões externas, o HB estava disposto a investir e em certo momento estava fazendo as compressões sem luvas.
Enquanto ele calçava as luvas observei e pensei até quando ele ficará assim: motivado, apesar das dificuldades.
- Compressão para mim é igual cor no paciente, se não corar não é efetiva – disse enquanto comprimia o tórax do doente.
- Procedimento para mim é igual a luvas nas mãos. Se não por luvas não faz procedimento – cutuquei.
- Não precisa – respondeu o médico.
- Doutor, eu não estou pedindo para você por luvas, estou mandando. – disse sorrindo ao mesmo tempo em que a LCN assumia as compressões para que o HB calçasse as luvas.
Por horas tentamos manter o coração do paciente funcionando, marca passo, massagem, drogas. Não adiantou. O músculo cardíaco não respondia mais. Sua vida era mantida apenas com a compressão torácica. Chamei a família e deixei que eles se despedissem do pai, avô e marido. Não havia mais o que fazer. Este é o momento mais difícil, em minha opinião, mas é um momento que tem quer ser vivido. O paciente ainda iria resistir por algum tempo em virtude da ação das drogas, mas foi declarado morto na madrugada e uma filha ainda me procurou.
- Enfermeiro, obrigada por ter deixado eu me despedir do meu pai. Eu sei que ele me ouviu. Deus te abençoe.
Voltei para admissão onde a SDN estava as voltas com uma vítima de acidente de moto. Pensei como podiam duas motos baterem uma contra outra na madrugada. Na espera um pós comicial aguardando medicamento.
- Vou levar este para fazer raios X. – disse a SDN, já puxando a maca em direção à porta.
Peguei a bandeja e fui preparar a medicação do outro quando comecei a ouvir gritos de dor e palavrões. Vi a SH correndo com frascos de soro na mão.
- SH, o que acontece?
- Queimado chefe...
Deixei o paciente do pós comicial com a MN e fui para sutura. Lá um rapaz de 22 anos com o tronco e face todo queimado em segundo e terceiro graus. Sua esposa teria jogado álcool e colocado fogo. A cena na sala de sutura era assustadora. Na tentativa de resfriar o corpo do rapaz jogavam litros e litros de soro sobre ele, inundando a sala. Enquanto isto o rapaz gritava palavrões e ofensas a esposa que, obviamente, não estava ali. Sua agitação dificultava ainda mais o trabalho.
- O que aconteceu? – perguntei.
- Minha mulher “botou” fogo em mim.
- Por quê? Qual o motivo?
- Porque cheguei tarde do trabalho...
- Você bateu nela?
- Já bati outras vezes, hoje não. Ela nem deu tempo de eu conversar, aquela f######, ######.
- Desta vez ela não quis apanhar…
- Esperem aí, calma . O queimado é o paciente. Nós temos que agir com calma – intervi – Vamos arrumar a sala, preparar os curativos, medicar para dor e pronto. Se ficarmos jogando soro vai acabar o estoque do PS e não vamos resolver o problema.
- Mas temos que resfriar- disse o FG, cirurgião de plantão.
- Não assim. Vai por mim.
- OK, J.
- AD, pegue o material para curativo e peça para a enfermeira AND liberar o isolamento. Vamos puncionar outra veia, colocar volume e medicar.
Feita a sedação o paciente dormiu, deixando com nós fizéssemos nosso trabalho. Curativos prontos, depois de muito esforço por parte da equipe, já que não temos local adequado, tampouco material, sempre insuficiente. Deixo o rapaz dormindo e saio pensando que devemos pensar muito antes de dizer sim. Tem gente doida neste mundo.
A noite avança e o plantão caminha para o fim. Estou exausto, o PS está completamente lotado, nem tem como andar entre as macas. Mas não é o suficiente, tem a cereja do bolo...
Pela manhã, chega o irmão do paciente queimado e a forma violenta com que ele se comunica me dá a certeza da dinâmica familiar. Sua esposa ouviu uns tres “cala a boca, p***” em menos de dez minutos de conversa.
Seis e quinze da manhã o JB me chama:
- J, o paciente do 12 não está bem.
Fui avaliar o paciente.
- JB não estar bem é o apelido para está mal pra C******? Cade o acesso venoso dele, está gaspeando, com febre.
- Acho que ele não está com febre não J.
Colocou o termômetro e mudou de ideia
- 38,7.
Olhei em volta, a cama não passaria pelas macas até a emergência e ali não havia muito que fazer. Chamei a Gloria e pedi que abrisse caminho ate a emergência.
- Pronto chefe. – avisou a ADR
Com ajuda do JB peguei o paciente nos braços e o levei pelos dez ou quinze metros que nos separavam da emergência. Lá seria entubado e receberá os cuidados necessários. Nem parece mais um hospital e sim um campo de batalha.
- Pronto JB. Gostou?
- Foi lindo, chefe. Você me motiva.
Passo o plantão. Na saída encontro um colega que me pergunta:
- E aí J. Noite tranquila?
- Uma pasmaceira – respondi ingnado.
Até amanhã.
“O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.” Friedrich Nietzsche
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