“O gênio, o crime e a loucura, provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio.” Fernando Pessoa
São seis e meia da tarde, ou da noite, quando estaciono a moto em sua vaga quase cativa. Não deixo de pensar que hoje é domingo e eu gostaria muito de estar em meu sofá, fazendo nada e assistindo qualquer porcaria na televisão. Mas, enquanto os doentes não tiverem finais de semana nós teremos que vir trabalhar. Óbvio que existem loucos que gostam de trabalhar aos domingos.
Parada rápida para registrar o ponto e quando já me dirigia ao PS a surpresa boa: VC está voltando de um longo período de licença, um abraço de saudade e lá vamos nós. O Pronto Socorro está até calmo, considerando os últimos plantões, a escala de hoje está completa, o que é um bom indicativo para um domingo. Se não houver faltas o plantão vai ser sossegado. Passamos visita, observo que o rapaz queimado pela esposa ainda está no isolamento, aguardando vaga em um centro de referência para tratamento de queimados.
Assumimos o trabalho e as coisas parecem que vão caminhar com tranquilidade quando escuto gritos do lado de fora e logo em seguida a porta vai e vem do PS é aberta deixando passar um jovem em desabalada carreira derrubando tudo e todos que estavam pela frente, tendo no seu encalço o AL, um dos controladores de acesso.
Ao perceber que o jovem ia em direção à IV, soltei os papéis que trazia à mão e, não sei como, segurei-o por trás, prendendo seus braços e pescoço. O rapaz era forte e se não tivesse ajuda logo conseguiria se soltar. Segurei o máximo que pude até que chegaram os rapazes da psiquiatria, de onde o mesmo tinha fugido, e junto com as meninas do PS o colocamos em uma maca, medicamos e contivemos. Assim que foi colocado na maca, o paciente fez contato visual comigo e começou um diálogo:
- Moço, eles querem me matar. Não deixa não.
- Não vou deixar, mas você precisa me ajudar – respondi.
- Eu ajudo moço, pode me soltar. Não deixa eles me amarrarem.
- Não. Primeiro você se acalma. Depois nós te soltamos a sequencia será esta. Entendeu?
- Entendi.
-
Você quer água? – perguntei ao perceber que o mesmo suava em bicas pelo esforço e pelo calor insuportável que faz no Pronto Socorro
- Quero, mas não deixa me dar injeção não. Por favor.
- Você precisa da injeção. Eu garanto que é para o teu bem.
- Então está bem.
Tomou a água, recebeu a medicação e foi levado de volta à psiquiatria. Bom início de plantão.
O plantão segue seu ritmo, na emergência quatro pacientes sendo duas muito graves e dois com IAM recente. Na admissão o trabalho não para. Um homem que bateu o carro e agora tem outros problemas além do conserto. Está alcoolizado e sem habilitação. Recebeu tantas multas ainda na maca que não terá como retirar o carro levado para o pátio da polícia.
Um jovem que, de moto, chocou-se contra outro carro. Teve sorte. Nada quebrado, além de sua moto que segundo ele ficou destruída (que dó).
A família de uma das pacientes da emergência (a mais grave) está angustiada. Quer notícias de qualquer jeito. Converso om eles, dou as informações que pedem, mas não posso falar o que eles querem ouvir. Ela não vai ficar bem. Eles me explicam que ela “não tinha nada”. Ficou nervosa em uma agencia do INSS, começou a quebrar tudo e por isto havia sido internada na psiquiatria onde começou com febre e por isto veio para emergência. Explico que a febre e o surto podem estar relacionados, que pode ser uma doença orgânica e não psíquica, mas que agora o foco é mantê-la viva. A filha ainda estava junto a porta da emergência quando a paciente parou. Iniciamos a RCP e tentamos por quase uma hora. Ela não respondia. Seu coração não dava, sequer, um sinal de que voltaria a bater. Depois de 45 minutos deixei filha e marido se despedirem da mãe e esposa e o médico declarou o óbito. Foi triste, a paciente entrara no hospital devido a um surto psicótico e sairia em um caixão. Muito triste. Lembrei-me do rapaz que surtara no inicio do plantão.
Outro paciente dá sinais de que não está bem. Anda de um lado para outro. Mexe nas coisas de outros pacientes e deixa a equipe inquieta. Converso com ele e percebo que, apesar da evidente confusão mental, pode ser conduzido sem contenção. Percebi errado. Assim que o paciente não me viu no corredor saiu correndo pelo hospital dizendo que queriam mata-lo. Trazido de volta só sossegou quando me viu. “Hoje é dia dos surtos” penso enquanto o ajudo a subir na maca.
- Você saiu daqui. Eles queriam me pegar.
- Quem queria te pegar? – perguntei
- Todos eles. – Respondeu, apontando para pacientes e funcionários no corredor.
Coloquei-o na maca mediquei e ele só voltaria a tocar no assunto pela manhã.
A esta altura o PS está lotado. Não temos mais macas e um dos pacientes, internado há dias e sabedor do que acontece nestas ocasiões tem uma ideia original. Cada vez que precisa sair, pega seu envelope com exames de raios X e coloca sobre a maca. No envelope além de seu nome esta escrito: “Estou no hospital por favor não use minha maca” ou “ Fui buscar minhas coisas para tomar banho, não use minha maca”. Cômico se não fosse triste.
O plantão chega ao fim. Passamos os problemas para equipe do dia e quando já estou saindo percebo que eles terão problemas com o paciente em surto. Ele me chama pelo nome:
- J. Você vai ficar aqui né?
- Não, C. Eu preciso ir embora – respondi.
- Não pode. Eles vão me matar.
- Não vão, não. Olha esta aqui é a MH. Ela vai cuidar de você – disse indicando a enfermeira MH.
Até amanhã
“A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.” Michel Foucault
Há alguns anos perdi uma paciente bem jovem para o cancer. Ela não conseguia ingerir o contraste para colonoscopia, por três vezes seguidas. Resolveram que era por causa de algum transtorno psiquiátrico devido seu conflitos pessoais e familiares...A família convocou um visita domiciliar e encontrei-a cadavérica. Fiz exame físico e encontrei massa abdominal e BD positivo. Exigi q a família a internasse imediatamente. O hospital a encaminharam direto para a ala psq e só depois foram fazer uma colonoscopia, sendo que mesmo por SNE o contraste não infundia, porém o pouco que foi evidenciou CA de cólon em estágio avançadíssimo. Erros diagnósticos põe em questão a formação médica na atualidade. Ninguém quer mais por a mão no paciente e fazer exame físico. Ficam a espera de exames de última geração, que deveriam ser apenas complementares e não o inverso.
ResponderExcluir...não dá pra separar o orgânico do psiquíco, jamais. Qdo isto acontece ocorre as iatrogenias...
ResponderExcluirVERDADE. O ORGÂNICO E O PSIQUÍCO É UMA DIALÉTICA; UM INTERFERE NA HOMEOSTASE DO OUTRO. TANTO QUE A OMS JÁ PREVÊ QUE A PARTIR DE 2020 AS DEPRESSÕES OCUPARÃO O 2º LUGAR NO RANKING MUNDIAL DA DOENÇAS, PERDENDO APENAS PARA AS CRÔNICO-DEGENERATIVAS. AGORA IMAGINE UM MUNDO MOVIDO A ISRS. AS INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS VÃO DOMINAR CADA VEZ MAIS A ECONOMIA GLOBAL.
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