Trabalho com consciência e aplicação. Se me cortarem as asas, irei a pé; se me amputarem as pernas caminharei com as mãos; se por sua vez mas tirarem rastejarei sobre o ventre: desde que possa ser útil. Istvan Széchényi
Depois de enfrentar o infernal transito paulistano de véspera de feriado prolongado, chego ao hospital e estaciono a moto faltando poucos minutos para seis. Na chegada encontro a AL no sofá e a EL, nossa secretaria de ala, fazendo sua tradicional inalação com nicotina e alcatrão. Esta me dá a boa notícia:
- Chefe, aquilo está uma benção, muito tranquilo.
- Que bom, estamos precisando – respondi.
Voltava para registrar meu cartão e encontro a DS, enfermeira nova em todos os sentidos que hoje terá seu segundo plantão com a equipe, nos cumprimentamos e valos juntos ao Pronto Socorro que está realmente vazio para os padrões costumeiros.
Estamos nos reajustando, chegaram pessoas novas LC, LCN, MC, SD e a DS, temos que nos ajustar a elas e elas a nos, vai ser uma fase de aprendizado mas a equipe ficará melhor.
Assumimos o plantão e o primeiro da noite chega. Um jovem, agredido na rua por estar com uma jaqueta da torcida do seu time, caiu e com a queda teve um corte feio na perna, raios x, medicação, sutura e alta. Não fraturou nada, ficará bem.
Uma jovem de 16 anos não esta sentindo os braços, não fala e as mãos em garra de lagosta. Reconheço a mãe por atendimento semelhante.
- Oi, você lembra-se de mim? – pergunta a mãe.
- Não, desculpe é muita gente – minto para não prolongar o assunto.
- Mas foi você que me ajudou. Estava como ela, você chamou meu marido lá fora, conversou com ele e hoje estou fazendo tratamento com psiquiatra e estou bem melhor. Nunca mais tive crise.
- Então fico feliz. Bem ela está bem, vamos leva-la ao consultório e depois, se você quiser a encaminhamos também ao psiquiatra. Se bem que eu não vejo necessidade agora.
Ao ouvir a palavra psiquiatra a garota destravou tudo, começou a falar e por encanto ficou boa. Mas foi para o consultório.
SAMU, idoso com hipoglicemia. Já estivera aqui no plantão passado e desta vez a família vai conseguir a internação. Não há nenhuma alteração hemodinâmica, mas a família insiste que ele esta com “aquela” diarreia. Feriadão chegando, idoso em casa atrapalha. Ficará internado.
De repente, começam a pipocar internações. Na admissão catatau e recruta (PT e FB) se desdobram para dar conta. Raios x, exames, veias, soros e elas vão tocando. O corredor vai ficando cheio e a benção que a EL me disse na chegada já foi. Agora esta o conhecido inferno.
Bombeiros, um bêbado que atropelou um carro, medicação, raios x, sutura e observação.
SAMU de novo e desta vez um jovem de 18 anos com história de agressividade sem motivo. Está contido na maca e muito agressivo. Peço para que soltem as amarras para que ele possa ser transferido para nossa maca e ele fica mais violento, abraço-lhe por trás dando uma gravata, ele se acalma. Muda de maca e é contido novamente. Deixo-o com as meninas e vou ver o corredor, quando volto está agitado novamente, verifico seu pulso 160.
- Meninas levem este rapaz para emergência. Se continuar assim ele vai complicar. Chamem o clínico.
Em segundos ele estava na sala de emergência. Quando o clínico chegou estava mais calmo e este me disse.
- Ele está bem J. Falaram-me que estava parado.
- Não parou, mas pode parar. Este menino está estranho. Olha o nariz, ainda tem pó de coca.
Segundos depois ele fibrilou e teve uma parada. Começamos as manobras.
- Chamem o clínico de novo – gritei.
- Ele foi na clínica médica, ver um paciente- respondeu alguém.
- Não me interessa, tenho um garoto de 18 anos parado aqui. Tragam ele.
Não conseguia deixar de imaginar meu filho na mesma situação. Meu próprio coração já estava a mais de 100 por minuto, e as compressões eram a única forma de exteriorizar isto. Cinco minutos e o coração do rapaz voltou a bater sozinho. Foi entubado e meia hora depois, nova parada. Nova correria, desfibrilado. Voltou de novo. Preciso sair, preciso chorar. Não é certo perder um menino de 18 anos para as drogas...
Do outro lado a VC se virava com o paciente que subiu da clínica, edema agudo de pulmão. Senti orgulho da loira, não se desesperou (ou não demonstrou) e quando precisou veio pedir ajuda para a AND, eu não iria sair dali e ela sabe.
As duas deram conta do recado. Minha vida seria muito mais difícil sem esta equipe. É realmente diferente.
Observo o rapaz, seu corpo com tatuagens nada artísticas denunciam as escolhas erradas que ele fez. Sua mãe chega e aos prantos nega que o filho use drogas. Não me compete discutir com ela e nem é a hora disto. Preciso chorar...
Saio do PS e vou para fora do prédio, quero ficar um pouco só. Não tem onde. Em todos os lugares tem gente. Respiro fundo, limpo os olhos e volto para dentro. Vamos trabalhar.
Algum tempo depois o garoto para de novo. Voltamos às manobras AND e eu, novamente ele reage. Seu coração jovem ajuda a reagir. Sua mãe assiste nossos esforços e não esconde a angustia. Para mim o plantão é só ele agora.
Mais tarde a AL, médica, passou e modificou a prescrição melhorando as condições hemodinâmicas dele. Vais ficar estável, mas muito grave ainda.
Neste meio tempo treinamos a DS na passagem de sondas vesicais, todas que apareceram foram para ela.
- DS, você nunca viu tanto bilau como hoje, né amiga?
- É mesmo – respondeu encabulada, mas rindo.
Tentamos explicar o apelido de todos para ela, como todos ela pensava que o nome da Glória fosse este e não AD. Agora estou pensando em como chamar a DS acho que vai ser Edna (a costureira dos incríveis) é a cara dela
Amanhece e os colegas do dia chegam, assumem o plantão.
Na saída não consigo deixar de checar o monitor da emergência. Esta vivo. Meu coração aperta a vontade é não ir embora. Mas é trabalho e o trabalho por hoje acabou.
Combinamos um café da manha e vamos a ele VC, AND, DS e eu. Tomamos café rimos, falamos besteiras e por alguns instantes esquecemos o plantão pesado.
Fim de café, vamos para casa. Subo na moto, meu peito dói estou angustiado. Preciso realmente chorar e farei isto até chegar em casa.
Até amanhã
Temos de fazer o melhor que podemos. Esta é a nossa sagrada responsabilidade humana. Albert Einstein
Que a vida lhe dê sempre forças pra continuar...
ResponderExcluirSua mãe chega e aos prantos nega que o filho use drogas,.... por mais que alguns fatos não sejam aceitos, a vida trata de mostrar que são reais, e precisam ser resolvidos, o quanto antes .... AM
ResponderExcluir"... as lágrimas podem durar um noite, mas a alegria vem pela manhã..."
ResponderExcluirE como diz o Enfer J, no nosso caso as sete da manha. Rsrsrs adoro fazer parte desta equipe
ExcluirTalK Cure...Ana O. batizou o tratamento realizado por Freud: "...a garota destravou tudo, começou a falar e por encanto ficou boa."
ResponderExcluirFALSO ENLACE. Fez bem em não sustentar o "desejo histérico" da mãe histérica, da menina histérica. Dois Classic Case de 'Histeria Conversiva'. Provavelmente o sintoma da menina não seja nada mais do que projeções dos desejos inconsciente da mãe... Fique atento! Se ambas passarem a "marcar ponto" no seu plantão delegue o atendimento delas à uma Enfermeira ou Auxiliar do sexo feminino. Histerias Conversivas são entidades nosológicas carregadas de afetos eróticos e a presença de um jovem bonito, agradável, sem aliança no dedo e ainda,literalmente, um Doutor são motivos suficientes para fantasias e 'amores transferenciais'. Não se deixe 'Seduzir'... Se um dia se interessar pela "locologia" (rsrsrs) serás um grande analista. Um abraço!
ResponderExcluirNão se trata disto. E também não tenho interesse pela área. O mal da super especialização é deixar de ver o todo para ver o mínimo. Faz é um mal necessário
ExcluirSem aliança e sem namorada. Fala sério, ninguém pega kkkkk
ResponderExcluirPodem parar de graça. Tem que passar pela triagem do PS pra gente saber se vai fazer o chefe feliz. Pq a felicidade dele é a nossa kkkkk. Se não passar não pega.
ResponderExcluirIsto me cheira a Glória...
ExcluirTbm acho chefe...
ResponderExcluirFato lamentável o que ocorreu com o jovem de 18 anos. Infelizmente a queda das funções bi-parentais (função materna e paterna) tem levado muitos jovens a buscar caminhos alternativos para suas angústias existenciais. É o efeito de uma sociedade esquizofrênica e
ResponderExcluiresquizofrenizante que ao longo do desenvolvimento técnico-cientifico tem esquartejado o Humano em diferentes saberes e práticas...