sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Quarta feira: visitas


As pessoas costumam dizer que a motivação não dura sempre. Bem, nem o efeito do banho, por isso recomenda-se diariamente. Zig Ziglar
Já era tarde, muito tarde, quando a moto entrou pelo portão do estacionamento. Coloquei-a no lugar de sempre e ali mesmo me livre da capa de chuva, usada somente como proteção à roupa branca, já que não há sinal algum de chuva. Estou oficialmente atrasado. É dia de treinamento no emprego numero dois e, desta forma, não há como chegar às sete. Mal me livro da capa de chuva e já estou a caminho do PS onde encontro a MC em meio ao caos e revoltada comigo pelo fato de eu não ter avisado de meu atraso:
- E agora já melhorou... - disse a docinho – isto estava um inferno, um monte de SAMU junto, fratura exposta...
Fui direto para admissão onde LC (loira) e FB estavam as voltas com dois pacientes, um jovem de 20 anos, caiu com a moto. Ainda não foi avaliado. Bem humorado o menino tornava nosso trabalho mais fácil. Acesso venoso, medicação, raios x e a confirmação da fratura exposta em tornozelo. Limpeza cirúrgica e internação. Vai precisar de cirurgia e o corredor já está repleto de pacientes na mesma condição.
O outro paciente, um senhor de 55 anos, foi atropelado por uma moto. Dá até medo de olhar para o seu pé. Fratura exposta e visível e muito feia. (não que alguma seja bonita). Vai para o centro cirúrgico.
A LC comenta:
- Ainda bem que você chegou, faz falta.
- Papai chegou – provoca a FB
- Parece que vocês estavam sentindo minha falta... – brinquei enquanto aplicava um profenid no rapaz.
- Muita mesmo. Chefe – disse a FB.
Outro SAMU, mulher 30 anos, caiu na escada. Imobilizada da forma que foi encontrada, esta com o joelho fletido.
- Vamos retirar estas talas. O pé está cianótico.
- Ela sente muita dor – disse o técnico de enfermagem do SAMU.
- Mas ainda vai querer sentir o pé.
Retiramos as imobilizações e a perfusão do membro melhorou. Medicação para dor, raios x e o diagnóstico: fratura em espiral dos ossos da perna. Mais uma para o corredor a aguardar cirurgia. A paciente esta chorosa, marido viajando, filho pequeno em casa. Dramas do cotidiano que eu, como enfermeiro não posso resolver.
O paciente da queda de moto observa nossa correria e pergunta:
- Meu! Como você consegue?
- O que?
- Manter o bom humor. O mundo caindo em volta e você ri.
- É mais ou menos assim: ainda bem que não sou eu que estou na maca. (risos)
Estava me preparando para relaxar quando entra o SP, médico cirurgião:
- Professor, me ajuda aqui.
- O que foi? – pergunto esperando o pior.
- Vê o que você pode fazer por esta moça.
Uma garota de 13 anos prendera o dedo na porta. Edemaciou tanto que o anel de “compromisso” que usa esta garroteando seu dedo.
- LC, me traga dersani e um fio de sutura.
Antes que começasse o procedimento, observei uma comitiva adentrar pelo PS.
- Quem é? – perguntei para a PT que estava no balcão.
- Diz que é da secretaria de saúde.
Reconheci a secretária de saúde do município encabeçando a fila.
- Boa noite. Pois não, doutora.
- Boa noite. Sou a Dra. T, secretária de saúde.
- Enfermeiro J. Supervisor de Enfermagem. Posso ajuda-la?
- Somente uma visita. Vocês estão com a lotação esgotada...
- Como todos os dias, doutora. Nem sei o que é lotação mais.
- Mesmo assim, parabéns. Estão fazendo um belo trabalho. Está organizado, separado por sexo...
- Com a chegada das macas melhorou um pouco. Fazemos o melhor com o que temos.
- Parabéns. Vou Continuar vendo o hospital.
- Fique a vontade. Vou tirar um anel do dedo de uma garota.
Pronto, o dedo da infante está livre. Enquanto ela se afasta, de volta à ortopedia, na companhia do pai, eu penso qual o compromisso amoroso que pode ter uma menina de 13 anos.
Depois de ouvir as reclamações da FB e LC por não terem acompanhado a retirada do anel, o plantão ficou calmo. A paz reinou até que chegasse nossa rendição. Docinho sai mais cedo o que deixa para mim a passagem do plantão.
Passo o plantão e saio do PS pensando se ficou algo para trás.
Acho que não
Até amanha



Motivação é a arte de fazer as pessoas fazerem o que você quer que elas façam porque elas o querem fazer. Dwight Eisenhower

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