terça-feira, 13 de novembro de 2012

Domingo: dor sem nome

“Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar
Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Prá lhe dar”
Chico Buarque

O relógio indica que ainda faltam alguns minutos para as seis da tarde, quando encosto a moto no local de sempre e fico feliz por ter vencido a corrida contra a chuva que ameaça despencar de e assim o faz tão logo retiro o capacete.

Faço um “pit stop” na diretoria a fim de me dedicar, em silêncio, à famigerada escala de final de ano. Nesta época, trabalhamos com numero reduzido para que todos possam passar uma das datas com suas famílias e nem sempre é possível atender a todo mundo..

Com os ponteiros se aproximando das 19:00 vou para o PS, recebo o plantão da emergência, que está lotada. Na admissão um homem alcoolizado, aguarda o andamento de seu caso e o corredor está relativamente tranquilo. Começamos a organizar o plantão. Dividimos algumas tarefas e vamos arrumando o que é mais simples, reposição de material, montagem de salas, preparo de bandejas, etc.

Dedico os meus primeiros atos de assistência ao embriagado com curativo na cabeça. Retiro a bandagem e chego a me assustar: seus cabelos brancos denunciam uma idade que deveria ter trazido um juízo ausente.

A SD que, junto com a LCC, está na admissão comenta ao perceber minha surpresa:

- A gente nunca espera, né?

- Cabelo branquinho e nada de juízo – completo enquanto começo a fazer a tricotomia para expor um ferimento de uns quatro centímetros no couro cabeludo. Encaminhado para o cirurgião, foi suturado e liberado.

Primeiro SAMU da noite, idosa com 77 anos, caiu na casa de repouso onde mora. Chamo o ortopedista que me provoca:

- E aí J, pé frio. O que você acha?

- Encurtamento do membro, com rotação externa. Pode fazer a internação e o pedido de transferência para cirurgia. Fratura de fêmur, só resta saber a altura.

- Caramba, toma meu carimbo – disse o jovem médico, brincando.

- Não, obrigado. O meu está ali na mesa (risos). Peço para a LCC adiantar os exames, pois é certeza de que ela vai ficar internada.

A paciente, completamente surda, mas totalmente consciente, era um amor. Mas era só mexer com ela que gritava de dor. Medicada, levada para os exames de raios x que comprovariam a fratura de fêmur e depois para o corredor onde vai aguardar leito e cirurgia.

Enquanto resolvo a internação da idosa a AND atende uma paciente que levara um tiro próximo ao seio direito. Não sabe dizer o que aconteceu. Estava entrando em casa, ouviu os disparos e quando percebeu estava sangrando. Já temos outro paciente vítima de FAF na emergência e agora, outra na admissão. A violência que atinge a região tem reflexos diretos no nosso trabalho. Esta está tranquila, vai para o corredor em observação.

No corredor, encontro puma paciente sendo levada para emergência.

- Está parada – diz o médico que acompanha o transporte na cadeira de rodas.

Observo a paciente, assumo a cadeira de rodas e levo-a para a emergência. Colocamos na maca e a paciente desperta. Esta hipotensa, mas não parada.

-Ponto emergência com cinco pacientes. - pensei em voz alta para ser ouvido.

Na admissão outra paciente, desta vez com intoxicação exógena. Trazida de outra unidade, também vai para emergência, agora com seis pacientes. Não é possível sequer andar pela sala.

Arrumávamos a sala quando um dos guardas municipais que ficam no posto do hospital me avisa:

- J, peguei no rádio agora. A PM está trazendo um baleado.

- Vamos lá gente, tirem esta paciente para o corredor – pedi indicando a paciente da intoxicação exógena – que ela já está estável. Mantenham no oxigênio. Tirem a ultima da outra sala também.

Começou o inferno:

A viatura encostou e na “caçamba” estava um rapaz de 18 anos, cinco tiros no tórax e respiração agonizante. Com muita dificuldade, pois seu corpo inerte escorregava de nossas mãos devido a grande quantidade de sangue, colocamos sobre a maca e fomos para a emergência onde mal entrou e foi considerado morto. A tristeza invade meu coração, a mãe aflita aguarda notícias que eu não posso dar nem eu nem ninguém. Atrás da primeira viatura encostou outra que trazia mais um jovem 22 anos alvejado no peito. Pálido, respirando com dificuldade. Na emergência deixamos o corpo do primeiro jovem e vamos nos dedicar a este. Acesso venoso, volume, dreno de tórax... Vai precisar de cirurgia. Enquanto isto na observação outro paciente entra em PCR, levantou para ir ao banheiro e lá parou. Não posso sair, a VC assume lá fora aqui AND, LC, PT, AND (técnica) e eu tentamos fazer o melhor. Está um caos, outra viatura, outro baleado. Vamos atender na admissão, acesso venoso, volume o rapaz está com 180 de frequência, imagino que esteja perdendo volume, mas não tem sangramento ativo externo. Mantemos o volume, volto para o outro, muito mais grave agora. A mãe quer vê-lo e eu nego. Precisamos de espaço para trabalhar. Olho para a AND que com o olhar me pede para mudar de ideia. Penso que pode ser a ultima chance dela ver o filho vivo. Penso no meu filho...

- Vai lá, só um minuto. Por favor.

pistolaOutra viatura, rapaz baleado no braço. Transfixou e não tem sangramento. Pego um pacote de gazes e coloco sobre o orifício. Vai aguardar. Olho em volta e parece uma guerra. O cheiro de sangue domina o ambiente. Lá dentro a equipe se divide entre assustados, nervosos e aqueles que, pelo celular, ligam para os parentes pedindo para que não saiam de casa.

Entre um procedimento e outro vamos colhendo a história, os rapazes estavam reunidos em um local conhecido pelo consumo de drogas, chegaram algumas pessoas e começaram a atirar, quem estava lá foi alvo.

O rapaz com tiro no peito precisa ser operado, dou as informações para a mãe quase ao mesmo tempo em que a outra recebe a informação de não verá mais o filho com vida. Choro, desespero. Não é fácil ver o sofrimento de uma mãe que perde um filho jovem e saudável que há poucas horas estava em casa...

Estamos todos nervosos, muita correia, não há estrutura para tanto. Um policial me aborda:

- Enfermeiro, dá pra atender mais um?

- De jeito nenhum, não tenho local nem pessoal para isto. Levem para outro hospital.

- Mas é tiro na cabeça...

- Piorou cara. Não temos neurocirurgião.

- Positivo. – e pelo rádio passou as informações para outra viatura.

Levamos o garoto de 22 para o centro cirúrgico o semblante da mãe é de angustia. A missão da emergência esta cumprida. O rapaz da admissão melhorou, não teve sangramento e foi para o corredor. Mais tarde com medo de que viessem mata-lo a mães o levou embora. O outro com tiro no braço, nem esperou. Com medo foi embora após pedir uma faixa em volta do curativo.

Com a calmaria pós-estresse vamos colocando as salas e papelada em ordem. As informações dão conta de que os rapazes não eram santos, mas suas mães não querem saber disto, para os outros podiam ter vários nomes. Para elas um só: Filho. A mãe do primeiro rapaz ainda chora. Não sei o que dizer a ela. Mais tarde o que foi para cirurgia iria complicar e também faleceu. As mães choram um choro sem nome para um dor nome.

Um filho que perde a mãe é órfão. Mas uma mãe que perde um filho não tem adjetivo. É uma mãe que não tem mais o objeto de seu amor e dedicação incondicional...

Uma amiga descreveu na rede social: Plantão do mal.

Com o amanhecer e a passagem do plantão a ficha começa a cair, encontro a mãe do segundo jovem na porta do centro cirúrgico esperando a saída do corpo do filho.

- J, não vou levar meu filho para casa, não é justo...

Realmente, não é justo…

Até amanhã.

“Eu não entendo essa gente
Seu moço!
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo eu não disse
Seu moço!
Ele disse que chegava lá
Olha aí! Olha aí!”
   Chico Buarque

3 comentários:

  1. Um filho que perde a mãe é órfão. Mas uma mãe que perde um(A) filho(A) não tem adjetivo. É uma mãe que não tem mais o objeto de seu amor e dedicação incondicional... EU PASSEI POR ISTO. É DOLOROSO...

    ResponderExcluir
  2. Noss k triste..plantão do mal....sinto saudades desse lugar....

    ResponderExcluir
  3. Penso que pode ser a ultima chance dela ver o filho vivo. Penso no meu ... Quando nos colocamos no lugar da pessoa, nosso ponto de vista muda e nosso coração ajuda na tomada de decisões! AM

    ResponderExcluir

Faça um ENFERMEIRO feliz. Comente