"Um homem é um sucesso se pula da cama de manhã, vai dormir à noite e, nesse meio tempo, faz o que gosta" Bob Dylan
Seis e meia da tarde, ou da noite? Nunca sei como me referir ao lusco fusco do fim de tarde, mas é esta a hora que marcam os ponteiros do relógio de ponto quanto registro a minha entrada. Sem perder tempo vou direto ao PS que apesar de cheio está tranquilo. Recebemos o plantão, distribuímos e os funcionários e vamos à luta.
A equipe está completa o que torna nosso trabalho menos difícil, já que não há a necessidade de remanejar ninguém. No corredor FB, CL, MZ e AD formam a tropa de elite apoiadas pela LC (loira) e PT na admissão. A emergência tem hoje um trio JB, LC e SD e asa enfermarias contam com SL, NV, AND e ADL.
- Realmente não posso reclamar, tenho um time e tanto - penso enquanto confiro as escalas.
De enfermeiros também estamos bem servidos hoje MC, VC e TM, que está cobrindo o PS durante as férias da AND e eu.
O plantão começa com a chegada de uma guarnição dos bombeiros, primeira da noite, trazendo consigo um senhor de 54 anos vítima de atropelamento enquanto voltava para casa do trabalho de bicicleta. Fala baixo, mal responde às perguntas que fazemos. Avaliação, raios x e constatamos uma fratura exposta no tornozelo. Nossa preocupação agora é encontrar alguém de sua família. O telefone que ele passou não existe e não conseguimos muitas informações com o paciente. A EL, nossa secretária de ala, tentou tudo e mais alguma coisa para achar a família e nada. Vai ficar internado.
Equipe do SAMU e com ela um senhor de 64 anos que surtou em casa devido a brigas com os netos. Foi sedado no local e veio para nós. Vai continuar dormindo até que o efeito dos medicamentos acabe.
Na emergência recebemos um jovem com intoxicação alcoólica e uma jovem com ascite por abuso crônico de álcool. Ele ainda desacordado e ela realizando uma paracentese de alívio para que consiga respirar, pois sua barriga está maior que a de uma grávida de gêmeos ao fim da gestação.
No horário da visita a namorada me pede que não conte ao pai do garoto que ele bebeu, faço justamente o contrário. Dou as informações e oriento o pai a observar melhor o comportamento do filho.
O plantão vai correndo tranquilamente, vamos jantar e, na volta, encontro um novo paciente na emergência. Idoso, 84 anos com queixa de dor em baixo ventre e desconforto respiratório. Medicação, ECG e internação. A MC passou a sonda vesical e apenas 10 ml de urina na sonda nos deixaram preocupados, já que acabávamos de administrar três ampolas de furosemida, ele vai dar trabalho durante muito tempo...
Na feminina a SL me chama para avaliar uma paciente que está “desconfortável” ao chegar a filha com um doce sotaque nordestino me fala:
- Moço, a mãe não está bem... Olhe pra ela
Observo a senhora de 7ª anos com cianose de face, lábio e extremidade. A ausculta me deixa mais preocupado ainda está cheia de sibilos que podem ser ouvidos mesmo sem estetoscópio.
- Vamos leva-la para emergência – decido, já pedindo para as auxiliares – chamem o clínico lá na frente.
Ela foi para emergência. Lá com a saturação chegando a 60% não houve alternativa que não fosse a intubação. Depois de entubada a saturação melhorou e podemos respirar por dez ou vinte minutos.
Depois de algum tempo encontro a filha triste pelo corredor:
- O que foi moça?
- Queria ver mãe….
- Então vá. – sentenciei, liberando a entrada dela na sala de emergência.
Tem plantão que a desgraça não vem a cavalo, vem de lotação mesmo. O paciente que chegara na emergência, começa a complicar. Queixa-se de dor nos testículos, na barriga, não consegue arrumar uma posição confortável, até que em determinado momento, evolui para PCR, começamos as manobras e tivemos êxito em um primeiro momento para depois de 15 minutos ele parar de novo e, desta vez, não voltar.
Desgraça pouca é bobagem, na feminina outra paciente descompensa. 94 anos cesta com dificuldade para respirar levamos para emergência e não havia muito que fazer a idoso também nos deixou e a sala ficou com aquele clima mórbido. Duas macas, dois corpos, duas famílias enlutadas e uma equipe se sentindo impotente diante do inevitável. Até a AL, clínica de plantão, não se conformava com a perda do paciente de 84 anos.
- Enfermeiro J, eu achei sinceramente que ele fosse voltar.
- Eu também doutora, eu também.
Ela preenche os papeis e vai conversar com os familiares, eu a acompanho.
- Infelizmente o senhor O faleceu. A equipe fez tudo que estava ao nosso alcance, mas não conseguimos salvá-lo. – disse a médica, que tinha em sua voz um verdadeiro sentimento de tristeza.
O filho ao ouvir olhou para nós e disse:
- Estou aqui na porta, observando tudo e vi como vocês trabalharam desde que ele chegou. Só temos a agradecer. Mesmo ele tendo morrido, obrigado pela forma que vocês atenderam e por tudo que fizeram.
Não estou mais em idade profissional para chorar então voltei rapidamente para a sala a fim de preparar a papelada pós-morte dos dois pacientes.
Após as intercorrências, o plantão vai tranquilo até sua passagem o paciente atropelado ainda me preocupa e começo a atormentar o cirurgião e ortopedista para reavaliarem o mesmo. A família apareceu e informou que ele não está normal.
- Ele não é assim – diz a esposa – é comunicativo, fala forte. Este não é meu marido.
Reavaliado, será transferido para um hospital com neurocirurgia. Ótimo. Nossa parte está bem feita.
Quase seis e meia da manhã e mais um na emergência, com rebaixamento do nível de consciência. Rapaz jovem, forte r bonito suspeito do uso de drogas. A VC assume o caso, passado pela MC e eu fico só observando. Há necessidade de passagem de sonda vesical e quando a enfermeira pede para a AD trocar o tamanho da sonda reservada de 16 para 12 vou verificar o motivo e saio da sala de emergência com um orgulho danado.
- VC, tem certeza que a doze vai servir. Ainda acho grande – provoquei.
- É a menor que temos – respondeu a loira.
- Isto tem que ir para o blog – cobrou a PT – aliás, cadê o blog. Não pode perder plantão.
Os funcionários do dia começam a chegar, um após outro vão substituindo-nos. A MH, enfermeira que já foi de nossa equipe, me cobra um livro comas frases e dizeres do enfermeiro J.
- Você tem cada uma que tem que escrever um livro – disse ela.
- É mesmo – concordou a PT
- Acho que vou colocar no blog. Cada dia uma. A de hoje será:
“QUEM PARTE E REPARTE E NÃO PEGA A MELHOR PARETE OU É BOBO OU NÃO CONHECE A ARTE”
O controlador de acesso me chama. Um senhor que falar comigo
- Pois não? – pergunto me dirigindo ao usuário.
- Sou o Doutor B, gostaria de ver a paciente “fulana de tal”, a pedido da família.
- Sim, o senhor está com seu CRM?
- Por que?
- Porque eu quero confirmar se o senhor é médico.
- E quem é o você para me pedir o CRM?
- Sou o enfermeiro desta unidade e estou com o meu COREN. Portanto, sem o CRM o senhor não entra.
- Vou fazer um relatório seu para a doutor E, diretor do hospital.
- Mande uma cópia para o secretário de saúde.
Virei as costas e entrei para a emergência pensando:
-“isto vai dar m#####”
Já estamos saindo quando o filho do paciente atropelado me aborda.
- Enfermeiro, muito obrigado pelo que vocês fizeram pelo meu pai. De coração.
- Por nada. Só fizemos o nosso trabalho – respondi com a frase pronta.
- Não, enfermeiro. Vocês fazem muito mais que simplesmente o trabalho de vocês. Parabéns.
Enquanto saia do hospital em direção ao sofá, pensei o quanto aqueles dois filhos, um com o pai morto e outro com o pai em estado grave estavam agradecidos pelo fato de nós termos feito aquilo para o qual estudamos e ganhamos a vida: nosso trabalho.
“Não basta saber, é preciso também aplicar; não basta querer, é preciso também fazer.” Johann Goethe
Até amanhã
Essa do CRM foi demais! Adorei!
ResponderExcluirSabe o que eu não entendo? Porque enfermeiros como o J, sao vitimas de perseguição e inveja por parte de seu pares. É incrivel como vivem a tentar derrubar. E o mais incrivel é a capacidade dele de ignorar esta gentalha. Parabens J. Tenho orgulho de fazer parte de tua equipe.
ResponderExcluirBeijão painho
O J. tem orgulho de ser enfermeiro e só quer ser enfermeiro. Amo o jeito como ele resolve as coisas
ResponderExcluirE o doctor? mostrou ou não o CRM?
ResponderExcluirRealmente o trabalho da enfermagem, exige dedicação e amor, muito maior que simplesmente um trabalho ... AM
ResponderExcluir... pois o que é tratar da tela morta ou do frio mármore comparado ao tratar do corpo vivo,... muito mais que um trabalho, é uma arte; poder-se-ia dizer, a mais bela das artes! Florence
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