sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Quarta feira: Um dia tranquilo, para nós.

 

“Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.” Carlos Drummond de Andrade

Como todos os dias, chego ao hospital faltando mais de uma hora para o inicio do plantão. Encosto a moto, subo até a diretoria, pego minhas pastas e faço uma parada pra terminar de ler um exemplar das coletâneas de Drumond que me foi presenteado, já próximo das 19h00m desço para o Pronto Socorro que hoje está relativamente calmo.

O corredor apesar de cheio está tranquilo, na emergência um paciente, entubado após uma PCR e nos quartos nenhuma novidade. Recebemos o plantão MC e eu e começamos a brincadeira. A MC (docinho) pergunta:

- Chefe, somos só nós dois hoje?

- E não damos conta? – respondi, perguntando

-Claro, só queria confirmar (risos).

Primeiro SAMU da noite, homem de 67 anos que caiu da escada no dia anterior. Observo a posição de sua perna esquerda e aproveito para testar a FB, já que havia explicado no plantão anterior o que significava rotação externa com encurtamento do membro.

- E ai, recruta. O que você me diz desta perna?

- Está caída, quer dizer com rotação externa...

- Então...

- Fratura de fêmur – respondeu a baixinha com o rosto iluminado. A FB tem um jeito moleca que cativa e quando ela deixa isto transparecer ilumina todo o ambiente. Mas também quando está para encrenca... Sai de baixo.

Veia, raios x e a confirmação da fratura de fêmur. O paciente vai ficar internado para aguardar cirurgia. Não gostou, reclamou, mas a filha, com pulso firme, fez com que ele se conformasse.

Outro SAMU e com ele uma senhora de 60 anos com histórico de cinco AVCs prévios. Hoje não está respondendo e diminui a atividade. Raios X, exames. A amilase está alterada. A paciente ficará internada, aguardando ultrassom e tomografia para o dia seguinte.

Uma mulher de 30 anos entra com bronco espasmo. Medicada ela não aguentou e defecou-se toda. O cheiro tomou conta da sala de admissão. Pedi para a SD dar um banho e mais tarde a moça iria colocar a roupa toda suja, pois não quis ficar com o pijama do hospital. E com isto o cheiro tomaria conta de todo o corredor da medicação.

Um rapaz de 22 me chama na porta da admissão.

- O senhor que é o enfermeiro J?

- Sim. Posso te ajudar? – respondi esperando alguma reclamação com relação à demora no atendimento.

- É que eu estou com muita dor. Só queria um remédio pra dor. Mas não queria passar no médico.

- Não posso fazer isto. Funciona assim: você passa com o médico. Ele te examina, passa o remédio e nós aplicamos.

- Mas este é o problema. Não quero ser examinado. Estou com vergonha.

- Venha aqui – pedi, já levando o menino para o consultório da ortopedia, que estava vazio. – onde dói.

- Lá... – respondeu.

- As bolas? – perguntei tentando quebrar o gelo.

- Não. Lá atrás. Meu ânus.

- Você está com hemorroidas?

- Não.

- Introduziu alguma coisa lá? Cenoura, garrafa, desodorante?

- Não... Não pus coisa nenhuma... Foi... Foi sexo anal mesmo. È que foi a segunda vez e desta vez está doendo muito. Ele é muito grande.

- Mas foi forçado?

- Foi com força, sem lubrificante...

- Mas foi contra tua vontade? – insisti.

- Não. Eu quis. Mas está doendo demais. Acho que ele me arrebentou.

- Mas um motivo para o médico ver. Não se preocupe ninguém vai te julgar.

- Não é isto. É que a minha mãe está aqui com o meu amigo. E ela vai perguntar ao médico... Então eu vou pra casa e volto mais tarde sem ela.

Ao sairmos do consultório e ver o tamanho do amigo, achei que o menino tinha todo o direito de estar com dor. O rapaz era um guarda roupa de quase dois metros de altura, negro e com uns 100 quilos, pelo menos. Coitado... Bem, ele foi e não voltou, até o fim do plantão.

O plantão continuou tranquilo. Ainda tentei passar um PICC no paciente da emergência, mas não tive sucesso. O resto foi coisas corriqueiras, uma dor aqui outra ali e na madrugada conseguimos ficar no balcão. Conversando, conhecendo mais uns dos outros. A LC ainda está se recuperando do plantão anterior, chegou mais uma LC, remanejada da clínica médica, e que deve ajudar muito no PS. Falamos sobre tudo, brincamos, fazemos piadas uns com os outros e eu observo o quanto estes momentos são importantes.

A AD demonstra que tem um senso de humor acima da média e toda vez que alguém tenta deixá-la de “saia justa” ela devolve a piada colocando o interlocutor em situação difícil. O RD, faz piada com sua própria deficiência física e não perde a chance de atormentar os outros, JB é tão cínico quanto alto. Quanto é chamado a atenção por algo vem com a frase “Vamos trabalhar para melhorar isto“. A PT chegou tímida, observando e agora sai de baixo. Perde o amigo, mas não perde a piada, mexeu levou até a serenidade nipônica da LC cai por terra quando provocada. Com seu sorriso tímido, mas franco responde às brincadeiras e provocações de todos a SD já se enturmou e leva tudo com bom humor, a AD com sei jeito sério está sempre de olho em tudo que acontece a sua volta e, apesar da diferença de idade com as “molecas”, não fica de fora de nada. A IV até tenta ser mais séria, mas não escapa do clima… Estas são algumas das figurinhas do plantão. Brincalhonas mas de uma competência a toda prova. Sou feliz por minha equipe.

Fim de plantão a MC me passa as intercorrências para que eu passe o plantão e provoca:

- Parabéns, chefinho. Fez todas as evoluções e os históricos.

- Você foi conferir?

- Claro. Tenho que deixar tudo certinho para passar o plantão (risos)

Passamos o plantão. Estou cansado. Faço uma parada no sofá. Converso com a FB e PT.

- Plantãozinho bom...

- A gente estava precisando...

- Com certeza. Estávamos mesmo. - conclui.

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.” Carlos Drummond de Andrade

Até amanhã

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