Lute com determinação, abrace a vida com paixão, perca com classe e vença com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante. Charles Chaplin
Já era tarde, muito tarde, quando finalmente cheguei ao hospital Hoje foi um daqueles dias em que eu precisaria ser duas quiçá três pessoas para dar conta de todos os compromissos. Mas a vida é feita de escolha e não devemos reclamar daquilo que escolhemos.
No caminho enquanto serpenteava apressado entre os carros e caminhões na marginal, fazia uma breve reflexão sobre minhas últimas escolhas e cheguei a conclusão que não era hora de pensar nisto. Meu trabalho, meu vício, me aguarda.
Encosto a moto e a toque-de-caixa me dirijo ao PS onde encontro um corredor que podemos considerar vazio e uma emergência superlotada. VC, MC e ML já organizaram tudo e mal chego a VC vai “passando-me“ a emergência:
- Este é um diabético que chegou agora, 1200 de glicemia, duas vezes 20 unidades de regular e ainda não baixou nada. O dextro continua HI. Este é uma ICC, do lado de lá temos três IAM... Um já tem vaga na UTI. Só falta decidir qual. Você vai ficar na assistência?
- Você já me passou o plantão. – respondi, resignado (risos).
Com o turbilhão que está a vida o melhor mesmo é muita assistência para não ter que pensar em outra coisa. Começo o trabalho dando palpites na prescrição do paciente diabético um jovem de 34 anos que teve a doença diagnosticada semana passada e esta é sua primeira de compensação. Está mal, confuso, desidratado, dispneico. Vou até o clínico de plantão:
- O que você acha de hidratarmos um pouco este cara? Está parecendo uma ameixa seca. – perguntei ao clinico de plantão.
- Vamos hidratar então.
Foi tudo o que consegui, pois ele já estava de saída e não deu mais o ar da graça na emergência.
Ficamos um tempo sem clínico e parece que é só não ter clínico que a pressão de todo mundo sobe, o peito dói e, no fundo, acham que nós estamos escondendo o médico em algum cantinho.
Começam a chegar crises hipertensivas e vamos com o apoio do ortopedista, medicando e colocando do lado, de forma que em pouco tempo temos quatro ou cinco pacientes que precisam de um clínico para reavaliação.
Pedi ao ortopedista para assinar uns pedidos de exame e fui adiantando o que dava.
Finalmente chega o clínico, agora é o JA (aquele com o qual não tive um bom começo há alguns plantões). Passada a estranheza inicial ele está mais acessível e conseguimos discutir os casos de forma tranquila. Hoje ele não deu sorte, seu colega de plantão deu o cano e ele é obrigado a cobrir o horário vago. Ossos do ofício ou como se dizia nos meus tempos de exército, “azar militar”.
Logo de cara, preencheu as receitas faltantes e reavaliou as crises hipertensivas que aguardavam restando os pacientes internados e que ainda necessitavam de atenção.
- Reavalie este paciente para nós, por favor – pedi, já lhe entregando o prontuário.
- Mas você não pediu nem uma gasometria, enfermeiro. Como quer avaliar um diabético sem gasometria – provocou, sabendo que não é função/obrigação do enfermeiro fazer este pedido.
- A “gaso” já está aí. Está com uma acidose discreta, o potássio está baixo a glicemia alta e tem uma infecção de urina. Ah e tem mais: ele depila o peito.
Ele riu e começou a prescrição: mais insulina, reposição de potássio, mais hidratação e nosso paciente começa a ter uma atenção melhor. Deixo-o para a LC cuidar e vou me dedicar aos IAMs da outra sala. A MC já transferiu um para a UTI, escolhemos o mais grave e quando me dei conta ele já estala lá embaixo.
A família de um está a porta, apreensiva, quer saber o que acontece com o pai. Converso com a filha e o genro, logo chega a esposa e repito as informações. Chamo o JA e passo mais um prontuário:
- IAM, troponina alta, hemograma inocente, urina limpa e falta prescrição.
Ele sorri e, sem se levantar da cadeira, inicia a prescrição faltante.
Enquanto ele preenche a prescrição a VC observa:
- Ele é igual ao SM, não é?
- Sim, mais doido. - respondi. (risos)
O JA limpou as pendencias. Avaliou todos os pacientes que precisávamos, deu altas, prescreveu a emergência e foi para a porta. Plantão arrumado. Vai permanecer assim até o final.
Na madrugada, aproveitamos para colocar as evoluções de enfermagem em dia, enquanto trocamos ideias. A filha da PT teve uma reação alérgica e ela passou raiva em um pronto socorro próximo, cobro da LC a leitura de gasometria e AD esta mais rápida e pró ativa, se encaixou perfeitamente na equipe.
A AD providenciou uma Coca Cola, Falamos, rimos, atendemos um ou outro que chega ao balcão e quando damos conta o plantão está acabando.
O ultimo resultado de glicemia de nosso paciente da emergência chega: 590, o que era para ser preocupação em qualquer paciente, nos leva a comemorar. O aparelho de glicemia capilar já consegue ler: 400. Missão cumprida
Fim de plantão, a equipe do dia chega e fica contente com o PS ainda vazio, passamos o serviço para eles e vamos embora.
Ah se todos os plantões fossem assim...
Melhor não.
Até amanhã
"Um lider deve saber que se expuser demasiada fragilidade à sua equipe trocará admiração por piedade. O preço da autoridade é a solidão emocional" Mônica Moura Cardoso
Liderança tem mais haver com propriedade de suas atitudes, respeito e admiração, do que com autoridade e solidão. AM
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