Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida. Confúcio
Já passava das onze da noite quando pude descer para o PS. Hoje foi dia de treinamento, então fiquei a primeira parte do plantão no anfiteatro enquanto a VC, com metade da equipe, dava conta do trabalho assistencial. Na verdade não fui para o PS e sim corri para lá.
Após o treinamento, estávamos jantando MN, VC e eu, já bem atrasados para o nosso horário comum que é por volta das 21:30 quando o telefone celular da VC tocou:
- Alô. Ah tá, já vou. – respondeu a loira que ainda estava na metade de sua refeição, que já não é grande coisa.
- O que foi? – perguntei.
- Parada no PS.
- Deixa que eu vá, acabe de comer.
Corri para a emergência e encontro uma equipe do SAMU com um paciente ligado ao DEA e o RN fazendo as compressões torácicas.
- Vamos lá gente, já chamaram o médico?
- Já - respondeu alguém.
A equipe já estava organizada e pronta para atuar, isto me deu orgulho.
- Vamos monitorizar. Já tem acesso?
- Sim, respondeu a PT.
- Ótimo, me passa a laríngea...
Antes que a mascara chegasse o HB, médico do plantão chegou na sala. Ele entubou e trabalhamos por meia hora no paciente que já tinha igual tempo de parada. Não conseguimos. E restou dar a notícia aos familiares que aguardavam do lado de fora.
Após o pranto e desespero já esperado preparamos o corpo e deixamos que a viúva e os filhos e despedissem-se do parente. É estranho como nos acostumamos com isto. Já disse isto outras vezes, mas, não raro, me pego pensando até onde podemos nos acostumar com a morte. Dia após dia lutamos contra ela e quando perdemos procuramos formas de não nos envolver.
Após a emergência, começo a me dedicar aos pacientes internados, dois com IAM e uma com BCP. Revejo as prescrições peço uma alteração aqui outra ali. Está tudo calmo, corredor praticamente vazio. Conversamos, brincamos e conseguimos dar assistência a todos. A LC passa por mim no corredor e eu falo:
- Que tranquilidade né Japa? Seria bom se fosse sempre assim...
- Não seria não. – discordou.
Sorri, esta já se contaminou. Se não se cuidar vai viciar em adrenalina, como eu.
Plantão tranquilo. Cobro a Coca-Cola da AD e ela fala:
- Já estava indo buscar, chefe.
- Deixa que eu pago hoje – falei e fui buscar o dinheiro.
Enquanto tomávamos a coca comentamos a disposição do RN em manter o regime. Para quem tomava dois litros, sozinho, agora só toma agua...
Falamos de tudo um pouco. Família, amores, trabalho. E o plantão flui sem mais novidades. Estamos precisando de uma trégua. A escala esta cada dia mais apertada e o trabalho aqui não é fácil. Não raro me sinto até constrangido em pedir um pouco mais para a equipe; Eles já dão muito. Mas o constrangimento passa e eu peço, sempre.
Fim de plantão. Nenhuma novidade. Considerando que o único óbito já chegou em PCR podemos dizer que não perdemos ninguém hoje.
As meninas das seis já estão indo e logo estaremos passando a bola para a equipe diurna, observo as meninas dando os retoques e mais uma vez sinto orgulho delas, da forma com que se preocupam com detalhes e valorizam a qualidade. São diferentes.
Converso com a VC.
- Acabou – afirmo – Agora só amanhã.
- Estou de folga – sentencia a loira – não via a hora de descansar.
-Então, até o próximo.
"Não é a liderança, nem o valor, nem o companheirismo onde se resumem os relacionamentos, o elemento mais essencial para isto chama-se confiança." (John C. Maxwell)
ahh li e amei como sempre me imaginando nesta equipe maravilhosa...ai como seria bom se um dia alcançar esse sonho.
ResponderExcluirenfermeiro Jose mais uma vez parabens.
bjinhos