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"As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do carácter." Carlos Drumond de Andrade
Já passam pouco mais de dez minutos das seis quando estaciono a moto e olho para o céu como a agradecer por ter chegado seco no hospital. Os dias tem sido chuvosos a ponto de eu ter usado o carro dois plantões seguidos. Isto é quase um recorde se consideramos o meu gosto carro x moto. Acomodo-me com toda a minha bagagem no sofá e me dedico a ler “A rosa do povo” do Poeta da Pedra enquanto espero a hora de encarar o plantão, que está a prometer desde a véspera. Hoje estaremos MC e eu, será nosso primeiro plantão juntos. Apenas nós já que AND e VC estão de folga.
Quinze para as sete. O celular avisa que está na hora de registrar o ponto. Bato meu cartão e me dirijo ao PS onde devo passar as próximas doze horas. Ao chegar encontro o Pronto Socorro tranquilo. Várias macas disponíveis e apenas dois pacientes na emergência. A equipe completa, sem faltas ou atestados, faz com que minha esperança de um plantão tranquilo se reafirme. A MC já recebeu o plantão, esta é uma das vantagens dela entrar e sair uma hora antes.
O plantão começa e a emergência mostra que está disposta a acabar com minhas esperanças. Um homem de 38 anos chega em cadeira de rodas. Dores nas costas. Foi encaminhado para ortopedia e como estava doendo muito a família o trouxe para a emergência. Já estava pensando em manda-lo de volta para o consultório quando aquela voz interior sussurrou no meu ouvido: “Um eletro a mais, um a menos...”
- Meninas, verifiquem a PA e façam um ECG, para mim.
O paciente, diabético e hipertenso está há três ou quatro dias sem medicação. Sua pressão de 19 por 12 e o vomito denunciam uma pratada de feijoada na tarde anterior e o EWCG alterado com supra em ST indica que o coração está cobrando a fatura. IAM, o primeiro, mas não o único desta noite. Chamei a SVG, clínica de plantão, e dei a notícia.
- Começou bem. Suprado e bem suprado – disse lhe entregando o ECG.
- Caramba! Você é muito pé frio. Mal começou e já esta me dando trabalho – respondeu.
- E você ainda tem que fazer um atestado de capacidade física para que seu enfermeiro possa frequentar a academia.
- Ah, agora tem isto também? (risos)
Enquanto a SVG prescrevia sou procurado pelos familiares de outra paciente que já estava na emergência. Querem saber se ela vai receber alta e o que aconteceu com ela. Penso em empurrar para o dia seguinte, já que as informações médicas devem ser dadas por este profissional e eles raramente o fazem a noite mas, a voz fala na minha cabeça de novo: “ Dá uma olhada, informa e libera. É mais fácil que empurrar com a barriga”.
Pego o prontuário e vejo o diagnóstico: Taquicardia. Não gosto do eletro e peço para a AND, técnica de enfermagem, fazer outro. Resultado: Supra desnivelamento de ST ou seja, IAM.
Olho para o genro e falo:
- Preciso confirmar com a médica de plantão. Mas salvo engano sua sogra teve um infarto e vai ficar com a gente. Só preciso pedir que ela seja reavaliada.
- Mas não viram isto antes – perguntou a filha, que estava ao lado – ela está aqui desde as 07h00minh da manhã...
- Eu posso responder por mim e pelo meu plantão que começou às sete da noite. E estou fazendo isto. Mas o importante agora é que ela seja reavaliada – respondi já me dirigindo à SVG com o eletro na mão.
- Olha aí, meu amor. Mais um pra você, pode começar a chamar a emergência de unidade cardiológica.
- PQP, J. Quando não tem você procura. É IAM. E agora?
- Agora faz a prescrição, entra com anticoagulante, pede avaliação do cardiologista e vaga na UTI – respondi com ironia, já que ela sabe muito bem o que fazer.
Mas tarde o resultado da troponina iria confirmar o IAM, se é que um eletro com supra precisa da troponina para confirmar.
Enquanto falávamos, chega outra paciente. 43 anos, acompanhada pela filha em cadeira de rodas. Queixa-se de uma dor nas costas e como a noite é dos eletros...
Outro eletro, outro IAM. Não acredito e peço para repetir o ECG, nada muda. Emergência, anticoagulantes e monitorização.
Enquanto cuidávamos desta, chega o SAMU; mulher com câncer de mama e metástase óssea. Está pálida e com a pressão inaudível. As auxiliares do corredor providenciam uma veia e colocam um soro fisiológico enquanto aguardam a chegada da SV, para avaliar.
Estou observando o terceiro IAM quando a FB entra na sala de emergência:
- Enfermeiro, sabe a paciente do SAMU?
- Sei. Está com PA 8 por 4. Já Pedi pra colocar um soro e chamar a clínica...
- Então, enfermeiro, a pressão não está oito por quatro... Está inaudível e ela não esta bem.
Levamos a paciente para a emergência e eu punciono sua jugular com um “canudo” número 14.
- Quero ver este soro não correr agora.
A SVG chega em seguida e em pouco tempo nossa paciente está com a pressão melhor em condições de sair da emergência. Emergência que está prestes a “pegar fogo”.
Neste meio tempo a MC esta resolvendo os problemas do corredor e internação. A baixinha é rápida. Transfere um, avalia outro, evolui aqui, medica ali. Gosto da sua desenvoltura e o que é melhor ela esta mais solta. Brinca mais com os auxiliares e comigo a ponto de tentar filmar-me fazendo palhaçadas para a SVG dizendo que faria uso em momento oportuno.
- Tudo bem, MC? – Perguntei em determinado momento.
- Tudo. `e que você é muito taqui. Quando penso em fazer você já fez.
- Não esquenta comigo, não. Sou assim mesmo
Faltavam alguns minutos para a meia noite, quando uma das pacientes de IAM começou com epistaxe. Fizemos tamponamento, baixamos a pressão e nada. O sangramento aumentava e começamos a ficar preocupados. Ela recebeu anticoagulantes devido ao infarto e agora sangrava muito pela narinas. Com seu estado piorando as pacientes que estavam ao lado começaram a ter complicações, taquicardia de 200, dor precordial e nós tínhamos que parar o sangramento. Tentamos de tudo: kanakion, tamponamento com folley nas duas narinas e o sangramento não parava. Durante os procedimentos SVG e eu trocamos olhares ao perceber que a paciente sangrava pelos olhos, em todo estes anos de enfermagem foi a primeira vez que vi algo parecido. Assustador. A SVG estava visivelmente estressada com a evolução do caso na sala a LC tentava ajudar de todas as formas, pedíamos uma coisa atrás da outra e a japa tentando de todas as formas se superar. Se para mim estava estressante e assustador imagine para ela que está em seu primeiro emprego e além da inexperiência natural de quem começa ainda tem todo o componente emocional que demoramos anos para perder, quando perdemos.
O sangramento aumenta, trocamos as sondas, as meninas trocam a cama e percebemos que a paciente sangra pela vagina também. Estou preocupado e começo a pensar em alternativas. A LC não está bem, é muita pressão para ela.
- Não chora, vai estragar o rímel – provoquei, tentando dar força para que ela continuasse - a paciente precisa da gente lá. Inteiros. É bom ter sentimentos, mas se a gente desistir ela morre.
- Eu sei – responde ela, já se recompondo – é que é difícil. Eu estava segurando mas a CL mandou eu soltar e eu soltei.
- Se você soltar tudo que a CL mandar a coisa vai ficar boa – provoquei de novo me referindo a característica que tem a CL de fazer brincadeiras de duplo sentido.
Voltamos para a sala. A paciente esta melhor o sangramento diminuiu, praticamente parou. Agora ela está dormindo e esta na hora de trocarmos para que possamos descansar um pouco.
Antes preciso de meu atestado de capacidade física e cobro a SVG:
- Doutora, cadê meu atestado?
- Cadê o seu ECG, doutor? Como vou te dar um atestado sem um ECG?
Fui para o isolamento, tirei a parte de cima da roupa para a MZ realizar meu ECG, prato cheio para que MC e ADL utilizassem seus celulares com filmadora.
- Pelo menos este eletro não está com supra. – Comemorei
Eletro feito, atestado preenchido.
Chegam a MC e a AND, técnica, para assumir, mas a japa não sai da emergência.
- MC, tira a LC de lá.
- Ela não quer sair.
- Não estou pedindo. É uma ordem.
Somente assim ela saiu da emergência.
O plantão já estava acabando quando chega o último: homem trinta anos que segundo a cunhada, acabara de convulsionar. Veias de difícil acesso e quando a MZ conseguiu ele começou a gritar alucinadamente. Retiramos o acesso, ele se levantou e saiu dizendo que iria embora. Chegou à porta e fingiu ter desmaiado. Voltou na cadeira de rodas.
- Deixa que eu vou pegar esta veia – disse para a AD que ainda fazia a anotação de evasão do paciente.
- Está bem, chefe.
- Acesso colocado. Podem deixa-lo na soroterapia.
O paciente não gostou. Queria ficar na maca.
Antes de eu sair ele grita.
- Ei, eu quero uma maca.
- Você não está internado. Vai ser reavaliado e se o médico te internar você deita.
- Você é racista, né meu?
Enquanto todos riam eu respondi:
- Dá uma olhada na minha cor e responda, você mesmo
Fim de plantão. Faço uma pausa no sofá para desintoxicação enquanto a imagem da paciente vertendo sangue pelos olhos volta a minha mente. Volto para o PS, ela está bem e a voz fala de novo na minha cabeça: “Vá embora. Teu plantão acabou e vocês fizeram o melhor”.
Nenhum trabalho de qualidade pode ser feito sem concentração e auto-sacrifício, esforço e dúvida.
Max Beerbohm
Japa, este plantão é teu.!!! Parabéns
Se todos trabalhasem como esse Enfermeiro, a Saúde do brasileiro estaria muito melhor,não tem mais nada gratificante do q vc ajudar o próximo.A pessoa ser humilde e ter amor a profissão,faz muita diferença.Sei q as condiçoes do nosso País não são as melhores,salários baixos,cargas horarias cansativas entres outros fatores.Mais vc prestar um atentimento de qualidade,salvar vidas,fazer a diferença,é está em dia com vc mesma,é ter paz de espirito.
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