quarta-feira, 20 de junho de 2012

Segunda feira: A HYDRA

 

pmdv

“As dificuldades devem ser usadas para crescer, não para desencorajar. O espírito humano cresce mais forte no conflito“  Willian Ellery Channing

Seis e meia da noite, mal estaciono a moto e a notícia vem a meu encontro:

- Está preparado, J? O PS está um inferno – disse uma funcionário do dia, que fumava no sofá da fofoca.

Não deixei de pensar, e quase perguntei, o que ela estava fazendo no sofá, tão longe do local onde seu trabalho era tão requisitado. Mas como tenho conseguido, a muito custo, segurar minha língua, deixei minhas observações de lado e me concentrei em ouvir “Legião Urbana” até que chegasse o momento de encontrar meu desafio desta noite.

Já estou “levantando o acampamento” quando chega a VC, juntos registramos o ponto e nos dirigimos ao Pronto Socorro.

Ao abrir a porta uma sensação de “o que eu estou fazendo aqui?” toma conta de mim. Faço meia volta e simulo que sairei correndo, de volta ao estacionamento.

- Boa noite – diz a EL, nossa secretaria de ala, que não esconde a alegria em nos ver.

- Boa noite e tchau – responde a VC, se referindo a vontade de sair correndo do PS, sem olhar para trás.

A situação é indescritível, do ponto de vista organizacional. Há macas e pacientes por todos os cantos do Pronto Socorro. Uma verdadeira babel onde todos falam e tentam se entender. Em meio ao tumulto recebemos o plantão e enquanto a colega me passava as informações sobre os pacientes eu perguntava-me, mentalmente, onde vamos parar. Mal conseguimos nos locomover entre as mascas. Simplesmente não há espaço.

Uma paciente, na emergência, precisa ser encaminhada para a tomografia e uma verdadeira operação de guerra é necessária para que consigamos retirá-la da sala para fazer o exame, tantos eram os obstáculos entre a sala de emergência e a porta vai e vem do PS.

Para ajudar uma equipe do SAMU aguarda liberação e outra dos Bombeiros entra porta adentro, deixando o local um pouco menos espaçoso.

O paciente do SAMU requer mais cuidados, idoso, vítima de atropelamento, queixa-se de dores por todo o corpo e não coopera ao ser examinado.

Já o dos Bombeiros, é um jovem, vítima de queda de motocicleta, sem maiores consequências .Medicado e liberado em seguida.

Enquanto AND e LC, cuidavam do paciente em uma das salas de emergência, a paciente da outra sala parou. Saio no corredor e peço ajuda:

- SH, chama o clínico lá na frente e alguém me ajuda aqui dentro.

A clínica de hoje é a PT e ao entrar na sala dispara:

- Fala sério J. O plantão estava calmo até agora é só você chegar...

- Ah, tá. Hoje podemos filmar o “Missão Impossível” se sobrevivermos

Enquanto trabalhávamos na reanimação a VC entra na sala e da a notícia.

- O da outra sala esta parando também...

- Otima notícia – ironizou a PT.

- VC, fique aqui que eu vou do outro lado – pedi, já saindo da sala

- OK.

Chegando à sala dois encontro a , com cara de assustada, tentando reanimar o paciente.

- O monitor zerou , ele não responde e eu não senti o pulso – explicou enquanto eu avaliava o paciente

- Me traga uma máscara laríngea – pedi.

Nosso paciente parou mesmo. Não tínhamos opção a não ser tocar a RCP já que a médica estava na sala ao lado.

Recebi a máscara e, após a japonesa quase me dar um banho de xilocaína gel, instalei a via aérea. Tocamos a RCP somente com a equipe de enfermagem. JB na massagem, CL no ambu, LC na medicação. Algum tempo de trabalho depois trouxemos o paciente de volta. Pulso forte, pressão alta e bom nível de consciência, a ponto de ter que ser sedado para se manter com o tubo.

Do outro lado eles não tiveram a mesma sorte, a paciente não resistiu. Ficamos no um a um. O que é melhor que dois a zero.

A emergência pegava fogo e o corredor fervia. A todo instante aparecia um paciente novo. Dávamos alta para um vinham dois. Parecia a Hidra (monstro mitológico grego de sete cabeças que quando uma era cortada duas surgiam no lugar)

A AND chega e eu peço para que ela regule o respirador enquanto saio um pouco para pensar.

O plantão está o caos. Há muito tempo não vejo tantos pacientes juntos. Preocupante.

Um paciente do centro cirúrgico é trazido para a emergência devido a uma arritmia. Nada serio, recebe a amiodarona e vai passar a noite com a gente. Amanhã volta para a clínica, com certeza.

As meninas no corredor pareciam com rodinhas nos pés, não paravam um instante: medicando, levando ao banheiro, ao raio x. Veias, sondas estava um horror e tinha tudo para piorar.

Com a chegada da madrugada o movimento diminuiu e ao raiar do dia ficamos felizes por não termos perdido mais nenhum paciente.

O plantão esta acabando, olho em volta e sinto orgulho de minha equipe. Eles são unidos, coesos e se respeitam. Isto facilita o trabalho. Peço para que se reúnam no posto d enfermagem e coloco para fora o que esta me incomodando:

- Gente, tem coisa que não dá para falar depois. Então pedi que vocês se reunissem para que eu possa agradecer. Obrigado pelo plantão de hoje. Sem vocês isto não seria possível.

Com isto nosso plantão termina. A visão dos colegas do dia chegando é simplesmente maravilhosa. Tenho a sensação de missão cumprida e saímos do PS juntos AND, VC e eu, de braços dados e fazendo piada da vida e trabalho que escolhemos.

Até amanhã

Nós não nascemos andando, não nascemos falando, nem pensando tanta bobagem - e o que não podemos em hipótese alguma é perdermos o ânimo, o espírito, e nossa capacidade de amar, de se superar e de viver! Augusto Blanco

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