"Você poderia tirar de mim as minhas fábricas, queimar os meus prédios, mas, se me der o meu pessoal, eu construirei, outra vez, todos os meus negócios." Henry Ford
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Já está escuro quando encosto a moto em seu lugar “quase reservado”. O trânsito estava horrível e a impressão que tenho é de que estou atrasado ou, pelo menos, em cima da hora. Algumas auxiliares de higiene conversam animadamente junto ao sofá e respondendo a minha pergunta, informam as horas:
- Cinco para as seis, J.
- Obrigado. Então estou adiantado – comemoro já me dirigindo para o sofá e me livrando da carga que tenho as costas.
A porta vai e vem revela um Pronto Socorro cheio, mas não tumultuado. A emergência com duas pacientes entubadas, uma de 37 e outra de 95 anos e mais dois com diagnóstico de IAM, dá a impressão de que exigirá muito de nós. Mesmo porque a experiência mostra que não vai parar por aí.
Recebemos o plantão e a equipe vai se organizando de forma a colocar em ordem as pendencias como exames, reavaliações e encaminhamentos. Separa um, encaminha outro e percebemos que não temos macas disponíveis. Apenas uma e quer logo é ocupada por um senhor de 80 anos, trazido pelos bombeiros e que caíra pela manhã em casa. Mas os familiares só perceberam que ele estava com dor agora.
A AND, técnica de enfermagem, me chama na emergência:
- Acho que ela não está legal, olhe o monitor – disse, se referindo à jovem de 37 anos que estava entubada.
Observei o monitor, analisei o ritmo e disse:
- Fica de olho, agora esta sinusal.
- Está bem...
Paramos os quatro enfermeiros, AND, VC, MC e eu, para uma conversa rápida sobre o plantão. Não podemos ficar muito tempo ociosos que começamos a provocar um aos outros e rir a toa. É bom pois quebra um pouco a tensão que é conviver com o sofrimento alheio e a morte a rondar cada minuto do dia de trabalho.
Meia hora depois, já no horário de visitas entrei na sala de emergência para ver a paciente pois as técnicas LC e AND estavam envolvidas com os cuidados da senhora de 95 anos na sala ao lado e percebo o monitor registrando 20 batimentos por minuto;
- AL, chame os enfermeiros pra mim. Alguém chame um clínico e me ajuda aqui.
Após a reanimação, os familiares do paciente ao lado, que haviam sido convidados a se retirarem pela EL enquanto trabalhávamos na parada, voltam para complementar o horário de visitas interrompido e a filha comenta:
- Nossa! Como vocês agem rápido. Observei tudo e parece uma sinfonia... Cada um faz uma coisa e a menina esta viva.
- É o nosso trabalho. Temos que ser bons nisso – respondi.
Saio da emergência e observo o paciente trazido pelos bombeiros: ainda está na prancha e não foi reavaliado.
- O que está faltando para este paciente? – pergunto olhando para a VC.
- Já chamei o ortopedista por três vezes. Estou esperando.
- Então eu vou chamar.
Peguei a ficha e fui até o consultório.
- Já estou indo, só acabar esta fila – disse o médico a me ver à porta.
- Não dá para esperar. O paciente tem 85 anos e está na prancha há duas horas. A fila não acaba.
- Vamos lá então.
Nosso paciente tem uma fratura de fêmur. Vai ficar internado para cirurgia. Assunto encerrado pelo menos para nós. Ele ainda vai aguardar a cirurgia.
Quando saiamos, EL e eu, para jantar (já que não podemos mais comer no hospital) o paciente da emergência me aborda:
- Parabéns, rapaz. Você nasceu para isto.
Meus olhos encheram de lágrimas e simplesmente agradeci...
- Obrigado.
Jantamos e voltamos ao batente. A noite não está fácil. Um depois do outro, mal temos tempo para repor nossas bandejas de punção.
A VC entra com um idoso em cadeira de rodas:
- O dextro dele está em 39...
Acesso venoso, glicose e o velhinho acordam como em um passe de mágica. Mas vai ficar a noite toda. Está hipotérmico.
Emergência, diabético com hipotensão e sem acesso venoso. A DN, médica do horário, pede:
- J. A pressão dele esta muito baixa, precisamos de um acesso bom e melhorando a pressão podemos tirar da emergência.
Não demorou muito e o gordinho estava com um jelco 16 na jugular. Mais um pouco e a pressão normalizou. Alta da emergência.
A madrugada avança e com ela conseguimos alguma calma no plantão. Já passavam das três horas quando conseguimos começar nossas anotações e evoluções. Desta forma o plantão chega ao fim...
Já estava indo para o banho quando entra uma senhora em cadeira de rodas, agitada, referindo dor no peito e náuseas. Com muito custo punciono um acesso, colocamos na maca e fazemos um eletro. Depois de medicada, ela fica aos cuidados da equipe do dia que já assume o plantão.
A MC já foi ela entra e sai mais cedo. Desta forma ficamos os três: AND, VC e eu no sofá para nossa desintoxicação. Ao nosso lado sentam-se AL e FB. Eu provoco a FB:
- FB. Você trabalhou muito esta noite. Não foi?
- Muito enfermeiro. – responde a baixinha.
- Então, como prêmio, não precisa vir hoje. – como se hoje fosse plantão dela.
- Obrigada, enfermeiro. Você é muito bonzinho
A VC lembra uma coisa importante:
- Ninguém morreu hoje. Isto é muito bom.
- Hoje estou me sentindo muito bem. - completei
- Eu também. -disse a gordinha engraçada.
Ficamos falando banalidades e brincando como três adolescentes durante alguns minutos e logo nos despedimos.
Até amanhã.
"A performance de hoje é um produto do aprendizado do passado. A performance de amanhã é um produto do aprendizado de hoje." Bob Guns
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