sábado, 14 de abril de 2012

Sexta feira 13.

Toda a história do progresso humano pode reduzir-se à luta da ciência contra a superstição. Gregório Marañón

Não sou supersticioso, mas o trânsito que eu enfrentei para chegar ao trabalho me fez considerar a existência da maldição da sexta feira 13. Foram quilômetros de congestionamento na marginal, três motociclistas caídos no percurso e um sem número de fechadas e sustos no trânsito até que eu conseguisse estacionar minha moto em segurança em seu lugar quase resevado no hospital. Mal cheguei e já estou cansado, o corpo pede urgentemente um banho, então eu me dirijo ao chuveiro. O banho é quase um ritual. Ele separa uma jornada de outra. Tomo um quando chego, pois estou saindo de outro trabalho e um quando saio, pois estou indo para outro trabalho. Quando por qualquer motivo não o faço, parece que as jornadas se emendam e o cansaço é maior.

Ainda no sofá da fofoca, me encontro com o RD e observo a chegada dos funcionários enquanto conversamos sobre besteiras masculinas (também conhecidas por mulheres) a hora avança e a VC se aproxima, ganhando os olhares e atenção dos presentes e encerrando o assunto vigente até então. Aproveito a carona dela e vamos para o Pronto Socorro. Paramos em frente a porta vai e vem e dou um suspiro esperando a visão do inferno...Surpresa! Tem até macas vazias. Está tranquilo, dois na emergência, uns dez ou doze no corredor. Que bom.

Checamos as escalas, redistribuímos e vamos começar a brincadeira. Estava calmo demais para ser verdade então chegam logo duas equipes de resgate juntas, uma do SAMU e outra dos Bombeiros, duas quedas de moto. Uma, certamente, com fratura exposta, controles raio X cuidados e um está liberado o outro vai para o centro cirúrgico.

Na emergência VC e eu, observamos um paciente: olhos esbugalhados, frequência cardíaca de 50...

- Você viu isto, o que acha? – pergunta a VC

- Acho que ele vai parar… – respondo, enquanto obeservo o monitor

- O que vamos fazer por ele? – pergunta a VC.

- Observar... – respondi.

Dez minutos depois descubro que o monitor era de outro paciente e que o único problema deste eram os olhos esbugalhados. O outro? Problema nenhum. Um senhor de 63 anos cujos batimentos nunca passaram de 60 a vida toda. Mas aguém não quer aceitar isto e por este motivo ele esta monitorizado

Problemas de hospital público e sem recursos... O mesmo monitor para três pacientes… torneiras que voam… internações em poltrona…agulhas que rasgam e não furam a veia… Melhor parar de pensar e voltar ao trabalho senão teremos que acrescentar “Enfermeiro desanimado” à lista.

Estou no balcão quando a VC provoca:

- Você não gosta de emergência? Vai lá que está chegando uma.

Entro na sala e encontro uma mulher de 62 anos, passou mal em casa, ligou para o filho e agora está aqui. Sem pulso com fibrilação ventricular.

- JB, ajuda aqui. Pega uma escadinha e oxigênio, alguém chame o clínico lá na frente. Rápido!

Massagem, drogas, choques, massagens, mais drogas, mais choques e nada. O coração não saía da fibrilação. Depois de algum tempo o LC, médico de plantão pergunta:

- Alguém tem ais alguma ideia. Já fizemos tudo...

- Tente um antiarrítmico, mal não faz – sugeri.

- Duas amiodaronas então...

Mal não fez, mas nada mudou. Saímos LC e eu, para conversar com a família e o filho questiona:

- Mas você estava fazendo massagem cardíaca nela, eu vi.

- Sim, e ainda estamos, mas ela não vai voltar. Não responde... – diz o LC.

- Eu quero ver – e entra na sala para logo em seguida sair aparentemente aceitando o desfecho indesejável do atendimento de sua mãe.

O CL, enfermeiro da Clínica Médica, traz um paciente de lá. Não está bem, respira com dificuldades e seu eletro nos deixa preocupado. Acomodamos na sala de emergência e isto me incomoda. Está cheia demais. Não teremos espaço para trabalhar em caso de intercorrências.

Ainda arrumávamos a sala quando outra paciente que entrara há pouco com PA inaudível e rebaixamento no nível de consciência evoluiu para PCR. Massagem, veia, drogas e... Mais uma perda.

O resgates não param. Já não temos mais macas e o HR, sargento dos bombeiros, me alerta:

-J, vem todo mundo para cá hoje. Só vocês estão funcionando. Os outros hospitais da cidade estão em greve.

- Nada pessoal, mas não quero velos mais esta noite.

Ainda os verei por duas vezes antes de passar o plantão.

Mais um SAMU, outra moto, outra fratura exposta, outra cirurgia de emergência. Até a meia noite foram quatro bombeiros, um resgate de rodovia e quatro SAMU.

Meia noite, sábado 14. O plantão se transforma. Quando VC e eu retornamos do jantar parece outro PS, limpo arrumado e com duas macas disponíveis...

- Viu, foi só mudar o dia e acabou o inferno – provoca a VC com seu doce e cativante sorriso.

A partir daí foi só tranquilidade.

Já eram quase sete da manha quando o HR chega com mais um resgate: jovem alcoolizado e vomitando muito. Colocamos na poltrona, medicamos e encerra-se o plantão da sexta feira 13.

VC e eu paramos no sofá para desacelerar.

- Plantãozinho zuado – comento.

- Estou cansada e ainda tenho muita coisa para fazer, Vai trocar a folga que eu te pedi? – pergunta já sabendo a resposta.

- Claro. Você merece...

- Então vamos tomar café.

Tomamos o café, conversamos, rimos e nos despedimos

- Até amanhã. Chefe

- Até amanhã.

Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver. Dalai Lama

pmdv

Um comentário:

  1. Com tantas dificuldades e esta equipe ainda se diverte..... parabéns vcs são TDB.

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