quinta-feira, 12 de abril de 2012

Molhados

 

Só aqueles que têm paciência para fazer coisas simples com perfeição é que irão adquirir habilidade para fazer coisas difíceis com facilidade.
Johann Christoph Von Schiller

pmdv

17h15min e já estou encostando a moto no local de sempre. No caminho fui pego por uma verdadeira tempestade de verão e me arrependi de ter saído tão cedo. A intenção era evitar a chuva e tudo que eu consegui foi ir ao encontro dela mal sabia que este seria apenas o primeiro banho do plantão. Bem não há o que fazer a não ser esperar pelo horário de entrada. Vou para o chuveiro, nada melhor que um banho quente depois de uma tempestade.

Tenho problemas administrativos para resolver então decido ler a papelada que se acumula há dias na pasta da supervisão. A hora passa rápido. Lembro que hoje a VC está de folga e AND chega as oito então terei que receber o plantão do PS. Subo, registro o cartão e me dirijo ao meu local preferido.

Aparentemente tudo normal. Casa cheia, é verdade. Mas isto não é uma novidade.

Recebo o plantão e começo a distribuição de tarefas. No corredor lotado uma paciente acompanhando por uma médica do “consultório de rua” me chama atenção. Ele precisa ser admitido e internado para realizar a dissecção do maior condiloma anal que eu já vi na vida, peço para a PT, auxiliar de enfermagem, adiantar o atendimento, consigo a vaga e transfiro o rapaz para enfermaria em tempo recorde, na esperança de que estando mais bem acomodado ele não desista do tratamento.

A AND chega com o nariz parecendo o do Rudolf, rena do papai Noel. Esta gripada e, apesar de meus conselhos, ela decide ficar e ajudar no que for possível. Esta decisão salvará nossa noite, pois não sabíamos o que estava por vir.

Queda de moto, pressão alta, nervosismo e a noite avança sem que tenhamos grandes novidades. Nossa técnica recém chegada, LC esta sentindo dificuldades e decidimos conversar com ela. Ela é excelente e se cobra demais. Não há motivo para que fique preocupada com seu desempenho que apesar da inexperiência, está muito acima da média.

Conversávamos AND, LC e eu, quando a FB entra na sala:

- Enfermeiro, tem três admissões, uma emergência e uma família causando no corredor.

Agora sim nossa noite iria começar...

Chego ao corredor e encontro o caos, uma senhora de 90 anos na cadeira de rodas com hipertensão e dispneica, uma garota de 20 com “crise nervosa” e a mãe dela em igual estado. Na emergência o DN, médico de plantão, está às voltas com um Edema Agudo de Pulmão.

A AND vai para emergência e eu fico com o corredor, sinais vitais, diazepan e veia para quem precisa e em pouco tempo o corredor está equalizado. Em pouco e por pouco tempo...

Entro na emergência e a paciente não está respondendo ao tratamento. O Acesso venoso não ajuda. Tento, uma duas vezes e nada. Neste momento a AND saca um jelco 14 e introduz na jugular da paciente.

- Pronto, tem veia.

- Metida, exibida – provoco.

A jugular não durou muito e precisamos de outro acesso. Mais uma vez a vampira de plantão com seu jelco 14 entra em ação.

- Pronto tem veia, de novo.

- É por isto que eu te amo. Exibida

A FB entra na sala:

- Enfermeiro, SAMU, 45 anos confuso com dextro 38.

- Acesso venoso, soro glicosado e eu já vou lá. Posso mandar a glicose DN?

- Claro – responde o médico, envolvido com o EAP.

Após a milagrosa glicose o paciente recupera a consciência e volto para a emergência. Vamos adaptar um, CPAP com o que temos mas acho que ela não escapa do tubo.

Outro SAMU, atropelamento. Um senhor com o chulé mais virulento que já senti. O mau cheiro tomou conta do PS.

As auxiliares do SAMU, para nos ajudar levam-no ao raio x e lá o paciente convulsiona. Voltam para o corredor, acesso venoso difícil e a AND resolve mais um caso com um jelco 18 no pulso do rapaz.

- Hoje você está demais – provoco mais uma vez.

A paciente na cadeira de rodas não está bem.

- LC, tire este paciente da maca e coloque aquela senhora. Depois leve para a feminina e coloque no oxigênio enquanto passa a sonda vesical.

- Sim, é pra já.

Passamos a sonda e voltamos à emergência. O RD nos oferece uma coca-cola e depois de um tempo vamos tomar. Mal tomamos o primeiro gole e alguém chama.

- A paciente da sondagem parou.

Corremos para a emergência e o DN dá a outra notícia:

- Vamos ter que intubar as duas antes que esta aqui para – diz se referindo a paciente do EAP.

- Então você fica com esta e nós assumimos a outra. Traz a cânula laríngea para mim, JB.

A introdução da cânula foi de primeira e iniciamos o ACLS na senhora. Depois de meia hora e dois choques a decisão de parar. Não havia mais o que fazer.

- Vamos cuidar da que esta viva.

Deixamos o corpo na maca e nos viramos AND e eu, para a paciente do EAP.

Apesar de intubada ela não satura bem. Fiz a ausculta e sugeri tracionar o tubo. Estava seletivo. Melhorou mas ainda não estava bom.

De repente a AND descobre o motivo.

- Se insuflar o cuff melhora – provoca.

Após atender a sugestão da AND a paciente começa a saturar decentemente.

Saímos da emergência e damos as notícias aos parentes que esperavam do lado de fora.

- Pelo menos vocês tentaram- disse a filha da senhora que morrera- até tiraram o rapaz da cama para colocar minha mãe. Muito obrigada pelo atendimento.

Lá fora, no corredor, duas equipes do SAMU aguardam a liberação de macas, quando a HD, auxiliar de enfermagem, resolve lavar as mãos na pia da emergência e...

- J, ajuda aqui a torneira quebrou- gritou assustada com um mundo de água saindo e uma torneira solta nas mãos.

- Chamem a manutenção para fechar o registro.

Neste momento a água jorrava sobre o corpo da paciente que aguardava para ser levado ao morgue e do lado fora a multidão assistia, sem entender, uma cachoeira saindo da sala de emergência.

O JB tentou com um lençol e eu após um banho frio consegui colocar a torneira de volta no lugar. Quando saí, ensopado, para o corredor a VV, auxiliar do SAMU, disparou:

- Ainda bem que fiquei aqui para ver esta cena (risos)

- Você me paga – respondi sorrindo

Quando o rapaz da manutenção chegou, encontrou a sala inundada, uma paciente morta e a torneira encaixada no lugar.

- Ela morreu do que? – perguntou.

- Afogada. Vocês demoraram muito e ela engoliu muita água. – respondi.

Percebendo que o rapaz acreditou a AND interveio:

- J, você não presta. Ele está brincando, moço.

Para nós chega. A AND passou pelo médico. Pegou atestado e foi pra casa. Está muito gripada e já são quatro da manhã.

Tirei a roupa molhada e fui descansar um pouco. Fim de plantão.

Seria cômico, não fosse trágico.

Mas que foi divertido… isto foi.

Até amanhã.

A maior recompensa do nosso trabalho não é o que nos pagam por ele, mas aquilo em que ele nos transforma.
(John Ruskin)

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