“Sábio é o ser humano que tem coragem de ir diante do espelho da sua alma para reconhecer seus erros e fracassos e utilizá-los para plantar as mais belas sementes no terreno de sua inteligência.” Augusto Cury
São 18:20 quando encosto a moto, retiro a capa de chuva e me preparo para o plantão de domingo. No corredor dos relógios alguns funcionários ainda comentam os últimos resultados da rodada dominical do futebol paulista. Brincadeiras, provocações e críticas ao desempenho dos jogadores são o teor das conversas. Vou para o sofá onde aguardarei o horário de iniciar o plantão.
18:45 e atravesso a porta vai e vem. Nenhum susto. Aliás, encontro um pronto socorro tranquilo, emergência vazia e até uma vaga na semi intensiva, coisa rara. Recebemos um plantão tranquilo e passamos a torcer que continue assim. A equipe começa a chegar. Um após outro vai assumindo seu lugar. Observo e sorrio, é incrível como eles se entendem e se ajudam quando querem.
O trabalho acontece de forma natural, controles, uma pressão alta, outro com febre. Uma moça, grávida de três meses, aguarda vaga para uma ultrassonografia de urgência para que descubramos os motivos de suas dores abdominais. Uma mulher de 42 anos com quadro de hipertensão e diplopia aguarda a tomografia. Ambos os exames tem quer ser feitos em outro hospital nos finais de semana. Isto é um problema pois temos que dispor de funcionários para o transporte e desfalcar a equipe de assistência. Mas, não adianta reclamar. É assim que é. E vamos fazer o melhor com o que temos.
Rapidamente equaciono as duas saídas: a FB levará a jovem grávida ao ultrassom e a EL acompanhará a outra a tomo.
Antes da saída providencio um curativo oclusivo em um dos olhos da mulher com diplopia que tentava caminhar tampando um dos olhos.
- Isto deve te ajudar a caminhar . – falo enquanto coloco as gazes
- Nossa! Melhorou muito.
Mal acabo o procedimento e sou abordado por duas mulheres e um homem:
- Podemos falar com o senhor?
- Claro – respondi, não gostando do semblante deles.
- É o seguinte, meu irmão bebeu, caiu e bateu a cabeça. O médico suturou e mandou “pro” clinico. Agora ele está lá na frente com dor no peito e o médico não quer atender... – falou a mulher mais jovem.
- Deixa eu ver a ficha, por favor – pedi enquanto conferia a ficha onde constava os atendimentos de cirurgia e clínico.
Estranhei falarem que o médico não quer atender. O LC, médico de plantão, é muito atencioso e detesta confusão.
- Então, aqui consta que o medico atendeu, o que vocês desejam que eu faça?
- Ele só passou capoten , mas meu irmão está com dor no peito...
Decido que o melhor a fazer é intervir, pelo menos de forma paliativa, pego o telefone e ligo para a sala de triagem:
- AG, enfermeiro José. Tudo bem?
- Tudo, J.
-Tem um paciente aí na recepção com dor no peito, leva para a sala de eletro, faz um eletro e me chama para ver. Por favor.
- Olha, já me passaram que esta família esta causando...
- AG, não me interessa o que te passaram. Eu estou pedindo para fazer o eletro agora.
- Tudo bem.
Antes do eletro ficar pronto, fui até a sala e tomei um susto com o tamanho da supra de st.
- Coloquem ele na cadeira e levem para a emergência, agora.
Na emergência pedi para que preparassem MOV e MONAB e voltei à frente para conversar com o LC.
- Ô fio, sabe aquele paciente que veio da cirurgia com corte na cabeça? – perguntei com a intimidade que temos um com o outro.
- Sei, ele está bêbado. - respondeu o LC, visivelmente contrariado.
- Bêbado e enfartando. Olha o eletro.
- Bem vamos lá.
- Na emergência os familiares começaram a discutir com o LC e eu intervi mais uma vez:
- Dr. me ajuda aqui por favor. – pedi, dando a deixa para que ele saísse da confusão e nós fechássemos a porta da sala.
Durante o atendimento nosso bêbado começou a vomitar e me deu um banho de algo com cheiro indescritível.
- Que nojo. Não dá nem para experimentar – brinquei, disfarçando minha raiva em ter a roupa ensopada com a substância proveniente de seu estômago.
Não bastasse o paciente começou a descompensar.
- Olha aí LC, frequência de 50.
- Caramba, acho que vamos ter que entubar – respondeu.
O paciente rebaixou, vomitou, desmaiou, fez hipotensão e voltou após as intervenções com SF, atropina e muita torcida.
Após duas horas e meia, mais ou menos, ele estava estabilizado e ocupando aquela vaga que estava vazia na semi.
Pausa para um cigarro (somente a VC fuma, mas gostamos, AD e eu, de acompanhá-la) e aproveitamos para conversar:
- Chefe, você está chato hoje. Algum problema? – pergunta a AD.
- Não, estou bem. – respondi com sinceridade.
- Você não está normal – insiste a AD com o apoio, não verbal, da VC.
Voltamos para dentro enquanto eu pensava na conversa.
Madrugada, chega o SAMU: senhora de 86 anos, caiu no quarto. Ela é libanesa e eu não entendo nada do que ela fala (novidade). Ortopedista, raios x e o diagnóstico: fratura de fêmur e rádio. Acho que ela não volta a andar.
Enquanto atendíamos a idosa ouvi uma gritaria vinda da recepção. Um pai, inconformado com a forma com que um médico atendeu sua filha, não segurou a ira e agrediu o profissional. A partir daí foi uma enxurrada de palavrões e despautérios de ambos os lados. Tentei amenizar as coisas e tão logo diminuiu a tensão, voltei para o corredor. Pensando se isto poderia ser evitado. Trabalhamos sobre pressão, discussões e ofensas são comuns. As agressões físicas são raras, mas estão sempre latentes. Basta uma palavra errada e...
Arrumamos tempo para um bate papo no corredor onde falamos de amenidades. Plantão tranquilo, estávamos precisando depois dos dois últimos.
São quase sete da manhã quando a VC me chama. Uma sondagem vesical não saiu como o planejado o paciente esta sangrando. Tentaos sondar novamente, sem chance. Vai precisar do urologista. O problema é que ele está com apendicite e precisa ser operado pela manhã.
Passamos o problema para o plantão seguinte e saímos.
- Não podia ter acontecido isto. O plantão foi sossegado – diz a VC.
- Faz parte, nem sempre as coisas saem como queremos – amenizei
- Eu vou indo – completou ela, visivelmente contrariada. – até quinta.
- Até quinta. E..
- E…
- Mais que isto… (ela entendeu)
pmdv
“Acerte em tudo que puder acertar. Mas, não se torture com seus erros.” Paulo Coelho
Adorei q voltou a postar praticamente todos os dias, estava sentindo falta das histórias curiosas do plantão. gosto dos detalhes q vc não esquece de falar..... parabéns pela dedicação no trabalho.
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