Dez para as sete da noite. Debaixo de uma gélida e chata garoa chego para mais uma noite. Na entrada ainda encontro um tempo para conversar com AD, enfermeira, e alguns auxiliares que aguardam o horário no sofá da fofoca.
Chamo de sofá da fofoca um conjunto de estofados que colocaram do lado de fora no estacionamento do hospital onde os funcionários e, não raro, alguns pacientes se encontram para fumar, conversar e fazer aqueles negócios que existem em toda instituição pública ou privada de forma velada ou descaradamente escancarada como é no nosso caso. Roupas íntimas, celulares contrabandeados, relógios pirateados e uma infinidade de DVDs “genéricos”.
Recebo as informações a respeito de moinha última folga e de quebra alguns problemas a mais para resolver. Estou molhado, mas hoje não terei tempo para o banho pré plantão. Vou direto ao PS onde uma multidão me espera.
A escala está tranqüila, temos três enfermeiros esta noite e eu poderei me dedicar aos problemas administrativos do plantão.
Ainda estou trocando re roupas quando a SH me chama: ![]()
- J, preciso de ajuda, chegou um baleado e não tem enfermeiro na sala. Parece que foi um tiro no olho...
- Estou indo – termino de calçar os sapatos e ao chegar na sala de emergência encontro um homem, jovem trinta e poucos anos como rosto ensangüentado. E a enfermeira do dia ainda na sala.
- Pode deixar comigo, MT. Passe o plantão para as meninas no corredor e eu assumo aqui.
- Obrigada - responde ela, com o0 alívio de quem passou 12 horas dentro do PS e não vê a hora de sair dali.
- SH, prepare o material para punção venosa, e verifique a pressão dele. Já chamou a cirurgia?
- Já.
- Ótimo.
- Enquanto lavo as mãos observo a sala e o paciente. O cirurgião chega, enquanto faço a verificação dos ferimentos.
- Boa noite. FAF entrada no olho esquerdo, sem saída. Tem um corte no occipital, mas parece corto contuso. O paciente refere que levou uma coronhada no local.
- Parabéns, J. Sua equipe está cada dia melhor. Rápida, coesa. Nota dez.- diz o cirurgião de plantão.
- Oito e meio. (risos)
A história; O rapaz, guarda civil municipal, foi vítima de assalto. Quando descobriram que ele estava armado atiraram e roubaram a arma. Não vai enxergar deste olho. Por sorte não atingiu mais nada. Cuidados e transferência para cirurgia oftálmica.
Em pouco tempo a unidade está tomada de familiares, amigos e colegas de trabalho do rapaz. Mal conseguimos andar entre eles a ponto de ter que pqdir que aguardem do lado de fora do hospital.
Deixo a emergência e volto aos afazeres administrativos, quero dizer começo. A hora voa quando temos ação
Mais tarde escuto uma buzina estridente na entrada do hospital. Vou até o carro um homem de quarenta e poucos anos, forte esta no banco de trás no colo de uma mulher ensangüentado.
- Você vai ter sair, para eu poder examiná-lo – peço.
- Eu não vou sair.- responde a moça.
Antes que eu possa falar alguma coisa os outros acompanhantes a tiram do carro e eu consigo constatar que o paciente está em PCR.
- JB, traz esta maca para mim.
Colocamos na maca e vamos para a emergência, lá a SD, cirurgiã, entuba e começa mais uma batalha. Ela olha para mim e diz:
- J, eu e você sabemos onde isto vai dar. Mas vamos tentar.
- Certo. Por isto que te amo.
Neste momento entra outro médico na sala:
- Monitor, quanto tempo de parada? Adrenalina...
- Já tem um médico coordenando. Ou um ou outro, senão não dará certo.- intervenho de forma clara e dura.
O rapaz não gosta e sai batendo a porta.
- Boa viagem
Não conseguimos salvar o rapaz. Na hora de dar a notícia ficamos sabendo que ele foi empurrado durante uma briga no bar e bateu a cabeça. Motivo ele não gostou que outro homem olhasse para sua companheira. O outro retrucou, ele enfrentou e deu no que deu.
A companheira está chorosa, mas algo me inquieta...
- Você é o que dele? – pergunta a SD.
- Esposa. – responde ela.
- Esta mulher não é esposa dele – falo para a SD, enquanto voltamos à sala – Está mais para amante ou companheira de boteco.
- Será?
- Com certeza...
Notícia dada choros, gritos e volto para meus afazeres.
Mais tarde a VC me chama.
- Chefe, a verdadeira esposa do rapaz chegou. Ela ainda não sabe.
Eu tinha razão e a missão de contar para a esposa que o pai de seus filhos estava morto sobrou para mim.
Ela parecia não acreditar enquanto eu falava e ao final caiu em pranto.
- Ele era um pai maravilhoso. O que será de minhas crianças sem ele...? Quem trouxe ele pra cá?
- Amigos do bar...
- Mulher?
- ... sim.
Encaminho-a para entrega de documentos e dou meu plantão por encerrado.
Minha coluna está pedindo um tempo e eu pretendo atender.
Ainda consegui fazer reunião com os enfermeiros e compartilhar alguns problemas.
Minha cabeça está a mil com o plantão de hoje.
Atendi dois casos, violência, gratuita, fútil e corriqueira.
Penso onde os homens vão parar.
Queremos proteger os animais, as florestas o cosmos e não protegemos a nossa própria espécie…
Animais?
Lembro da Mel, em casa.
Não merecemos este título.
Fim de plantão. Ainda tem o segundo tempo.
Até amanhã
Cotidiano num pronto socorro, nem tudo, aliás, raras as vezes que temos histórias com final feliz para contar. Costumo dizer que elas oscilam entre a tragédia e a comédia, como as máscaras do teatro. O que não é cômico, é trágico ou no mínimo comovente!
ResponderExcluirVocê esta precisando descansar um pouco!
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