terça-feira, 25 de outubro de 2011

Segunda feira; Jornada tripla.

Oito horas da manhã. Chego ao Pronto Socorro (emprego numero 2) e me deparo com um problema: Cadê o enfermeiro da emergência?

Decido não pensar muito, estamos defasados em matéria de enfermeiros e com minha recente decisão de transformar a NM em diarista a situação ficou ainda mais difícil. Mas o trabalho não é tanto e com um pouco, muito pouco mesmo, de esforço dá para fazer tudo com qualidade.

Ao chegar a NM me passa as principais “notícias” do fim de semana. Nada de anormal. Neste momento estamos sofrendo um apagão. A cabine de alta tensão está com algum defeito que não permite que tenhamos energia elétrica por mais de duas horas consecutivas. clip_image001

O vigilante está tentando arrumar. E eu resolvo dar um apoio

- Cuidado para não se machucar. Se você tomar um choque garanta que a luz fique acesa. Nosso desfibrilador está sem bateria.

Decido assumir a emergência pelo menos até que a demanda diminua e possamos remanejar alguém. Segunda feira é o dia nacional do atestado médico. Pela manhã os PS são cheios diminuindo sensivelmente a tarde e aumentando novamente á noite quando os desesperados que não conseguiram, o “habeas corpus” trabalhista pela manhã, fazem sua derradeira tentativa.

Paro por um momento e penso na minha coluna. Ela esta merecendo um repouso, mas não será hoje.

Primeiro caso da manhã; senhora de 84 anos, esta com hiperglicemia e os estagiários não conseguiram puncionar o acesso venoso.

- Coloquem-na na maca, vamos puncionar e liberar.

Nada feito, a idosa mal consegue andar, sua boca esta espumando e ela não reconhece a filha. A glicemia não está tão alta para justificar tudo isto. Punciono o acesso venoso, realmente está difícil.

O clínico vem, avalia e nada diz.

- Verifique a pressão e repitam o dextro, por favor.

Os técnicos de enfermagem demonstram não estarem acostumados com um enfermeiro ativo na sala de emergência, ficam sem saber o que fazer até que me coloco.

- Atenção! Vamos organizar a feira: Uma vai buscar a ficha da paciente, outra me ajuda com a monitorização e coloque um cateter de O2 nela.

Vou atrás do médico.

- Escuta, na boa, reavalie aquela paciente. Não é DM descompensado e a pressão está 17/10.

- De um captopril.

- Já dei, agora vamos lá escrever e pedir uma tomo. A vozinha está estranha.

Para minha surpresa ele não relutou. Solicitou a TC ainda perguntou:

- Acha que dá para fazer mais alguma coisa?

- Sonda nasogástrica e vesical. Controles e vamos esperar a Tomo.

Enquanto atendíamos a idosa uma garota entra com a filha no colo e toda suja de sangue:

- Gente ajuda, ela caiu...

Um corte profundo no punho. Compressão sutura e pronto.

- Legal, diz o médico. Vai ficar bom. Vou liberar e ela retira os pontos em oito dias.

- Pede um raio x. Ela caiu em cima do azulejo. Se tiver algo aí dentro é melhor reabrir do que aparecer na TV.

Não tinha. A mãe foi embora satisfeita. Nós voltamos á rotina.

O resto do dia foi calmo. A tomografia da idosa indica um aneurisma preste a inundar o cérebro. Contatos e transferência para neurocirurgia. O DN, médico do dia, me cutuca.

Você começou hoje aqui?

- Não, sou o RT. É que não fico muito na emergência.

- Putz, você é bom. Deveria ficar mais. – intervém a colega dele – que até agora acompanhava nossas interações meio que a distância.

- É por isto que ele é meu chefe- diz a uma técnica de enfermagem enquanto esvazia a bolsa coletora de uma sonda vesical

- Não conta para ninguém... – respondi sorrindo

A hora voou, são quatro da tarde e eu preciso subir na moto logo para que chegue ao outro emprego antes das cinco. Tenho problemas para resolver antes de pegar o plantão

Gente, obrigado por hoje. Até quarta-feira

No caminho, vou analisando minha vida atual; dois empregos, duas chefias, sem tempo para quase nada e uma correria que não deve ser saudável...

Vida de enfermeiro... clip_image003

São 16:50 quando chego ao emprego numero um. Converso com a chefe e colocamos o papo em dia. Ela está voltando de férias...

Consegui arrumar uma solução para o problema da RSL. Arrumou outro emprego e precisa de horário diferenciado, para se manter em dois.

Ao mesmo tempo recebo a notícia que a MH, enfermeira jovem e competente, está precisando deixar meu plantão. Motivo: conseguiu outro emprego e precisa conciliar os dois.

Com assuntos administrativos equacionados me dirijo ao PS. Hoje a AD volta de férias e isto me traz tranqüilidade, mas a MH vai chegar mais trade e isto faz com que eu tenha que assumir a emergência enquanto ela não chega. Rotina assistencial; receber o plantão checar e alterar escalas de serviços, avaliar os pacientes... Nossa quantos pacientes. Não sei por onde começar então decido; pelo começoclip_image004

São oito da noite quando observo que os batimento cardíacos do paciente da emergência não estão normais. Aliás, 190 está ale do anormal. Chamo a PT, clínica por quem nutro grande admiração, em virtude da forma atenciosa que conduz suas consultas a despeito da multidão que se aglomera á porta do consultório e pela forma respeitosa que trata os profissionais de enfermagem. Uma “lady”.

Tentamos reverter, ele evoluiu mal e rápido. Taquicardia, fibrilação, assistolia, óbito. Um misto de incredulidade e impotência tomou conta de mim. Tentei entender o mecanismo e até agora não sei o que aconteceu. Duvido que o SVO descubra. Primeiro óbito da noite. Durante as manobras outra paciente, na semi, parou. Outro óbito. Dois a zero para a morte.

A noite avançou rápido. O pronto socorro está tão lotado que não há como andar. Mudamos aqui, mexemos ali e nada. Não há escapatória.

Uma acompanhante me aborda:

- Estou filmando tudo. Se você não arrumar uma cama para minha mãe, vou mandar pra televisão...

- Por favor, escolha um paciente, qualquer um. Peça para que ela saia da maca e eu coloco sua mãe nela.

Com a inesperada resposta a moça resolveu conter seus ânimos e aguardou por mais duas horas até que conseguimos uma maca.

A recepção está lotada, um paciente me pára no corredor:

- Você que é o chefe?

- De que?

-Da enfermagem.

- Sim, posso te ajudar.

- Passei no médico, ele me passou uma injeção e estou há duas horas na fila, esperando.

- Me deixa ver... Duas horas? São 22h00min e sua ficha é das 21h23min. Acho que suas contas estão erradas.

- Vai **** seu filho da **** p**** do ****

- Tenho certeza que tinham mais palavrões, mas não estava ouvindo o que ele falava, pois me afastava para atender uma moça com dor de garganta que precisa muito do atestado do dia.

O plantão avança noite adentro. Um café com a AD, comentários sobre férias, estudo e voltamos à carga.

Peço para alguém me medicar e a VRC intervém:

- Você está parecendo o House...

- Sarcástico e insensível?

- Não. Viciado em remédio.

- Tenho dor crônica...

- Ele também.

São seis e meia da manhã quando me dou conta que sobrevivemos a mais uma batalha e eu não tomei o remédio para dor.

- Santa VRC!!!

Fim de plantão. Aqui.

Ainda tenho mais algumas horas no emprego numero dois antes de fazer as pazes com minha cama.

Até amanhã.

Um comentário:

  1. Minha nossa!!! Como você aguenta? Parabéns acompanho o blog como se fosse uma novela. Precisa ser mais pontual hein... Esta demorando para postar kkkk.

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