Oito horas da manhã. Chego ao Pronto Socorro (emprego numero 2) e me deparo com um problema: Cadê o enfermeiro da emergência?
Decido não pensar muito, estamos defasados em matéria de enfermeiros e com minha recente decisão de transformar a NM em diarista a situação ficou ainda mais difícil. Mas o trabalho não é tanto e com um pouco, muito pouco mesmo, de esforço dá para fazer tudo com qualidade.
Ao chegar a NM me passa as principais “notícias” do fim de semana. Nada de anormal. Neste momento estamos sofrendo um apagão. A cabine de alta tensão está com algum defeito que não permite que tenhamos energia elétrica por mais de duas horas consecutivas. ![]()
O vigilante está tentando arrumar. E eu resolvo dar um apoio
- Cuidado para não se machucar. Se você tomar um choque garanta que a luz fique acesa. Nosso desfibrilador está sem bateria.
Decido assumir a emergência pelo menos até que a demanda diminua e possamos remanejar alguém. Segunda feira é o dia nacional do atestado médico. Pela manhã os PS são cheios diminuindo sensivelmente a tarde e aumentando novamente á noite quando os desesperados que não conseguiram, o “habeas corpus” trabalhista pela manhã, fazem sua derradeira tentativa.
Paro por um momento e penso na minha coluna. Ela esta merecendo um repouso, mas não será hoje.
Primeiro caso da manhã; senhora de 84 anos, esta com hiperglicemia e os estagiários não conseguiram puncionar o acesso venoso.
- Coloquem-na na maca, vamos puncionar e liberar.
Nada feito, a idosa mal consegue andar, sua boca esta espumando e ela não reconhece a filha. A glicemia não está tão alta para justificar tudo isto. Punciono o acesso venoso, realmente está difícil.
O clínico vem, avalia e nada diz.
- Verifique a pressão e repitam o dextro, por favor.
Os técnicos de enfermagem demonstram não estarem acostumados com um enfermeiro ativo na sala de emergência, ficam sem saber o que fazer até que me coloco.
- Atenção! Vamos organizar a feira: Uma vai buscar a ficha da paciente, outra me ajuda com a monitorização e coloque um cateter de O2 nela.
Vou atrás do médico.
- Escuta, na boa, reavalie aquela paciente. Não é DM descompensado e a pressão está 17/10.
- De um captopril.
- Já dei, agora vamos lá escrever e pedir uma tomo. A vozinha está estranha.
Para minha surpresa ele não relutou. Solicitou a TC ainda perguntou:
- Acha que dá para fazer mais alguma coisa?
- Sonda nasogástrica e vesical. Controles e vamos esperar a Tomo.
Enquanto atendíamos a idosa uma garota entra com a filha no colo e toda suja de sangue:
- Gente ajuda, ela caiu...
Um corte profundo no punho. Compressão sutura e pronto.
- Legal, diz o médico. Vai ficar bom. Vou liberar e ela retira os pontos em oito dias.
- Pede um raio x. Ela caiu em cima do azulejo. Se tiver algo aí dentro é melhor reabrir do que aparecer na TV.
Não tinha. A mãe foi embora satisfeita. Nós voltamos á rotina.
O resto do dia foi calmo. A tomografia da idosa indica um aneurisma preste a inundar o cérebro. Contatos e transferência para neurocirurgia. O DN, médico do dia, me cutuca.
Você começou hoje aqui?
- Não, sou o RT. É que não fico muito na emergência.
- Putz, você é bom. Deveria ficar mais. – intervém a colega dele – que até agora acompanhava nossas interações meio que a distância.
- É por isto que ele é meu chefe- diz a uma técnica de enfermagem enquanto esvazia a bolsa coletora de uma sonda vesical
- Não conta para ninguém... – respondi sorrindo
A hora voou, são quatro da tarde e eu preciso subir na moto logo para que chegue ao outro emprego antes das cinco. Tenho problemas para resolver antes de pegar o plantão
Gente, obrigado por hoje. Até quarta-feira
No caminho, vou analisando minha vida atual; dois empregos, duas chefias, sem tempo para quase nada e uma correria que não deve ser saudável...
São 16:50 quando chego ao emprego numero um. Converso com a chefe e colocamos o papo em dia. Ela está voltando de férias...
Consegui arrumar uma solução para o problema da RSL. Arrumou outro emprego e precisa de horário diferenciado, para se manter em dois.
Ao mesmo tempo recebo a notícia que a MH, enfermeira jovem e competente, está precisando deixar meu plantão. Motivo: conseguiu outro emprego e precisa conciliar os dois.
Com assuntos administrativos equacionados me dirijo ao PS. Hoje a AD volta de férias e isto me traz tranqüilidade, mas a MH vai chegar mais trade e isto faz com que eu tenha que assumir a emergência enquanto ela não chega. Rotina assistencial; receber o plantão checar e alterar escalas de serviços, avaliar os pacientes... Nossa quantos pacientes. Não sei por onde começar então decido; pelo começo![]()
São oito da noite quando observo que os batimento cardíacos do paciente da emergência não estão normais. Aliás, 190 está ale do anormal. Chamo a PT, clínica por quem nutro grande admiração, em virtude da forma atenciosa que conduz suas consultas a despeito da multidão que se aglomera á porta do consultório e pela forma respeitosa que trata os profissionais de enfermagem. Uma “lady”.
Tentamos reverter, ele evoluiu mal e rápido. Taquicardia, fibrilação, assistolia, óbito. Um misto de incredulidade e impotência tomou conta de mim. Tentei entender o mecanismo e até agora não sei o que aconteceu. Duvido que o SVO descubra. Primeiro óbito da noite. Durante as manobras outra paciente, na semi, parou. Outro óbito. Dois a zero para a morte.
A noite avançou rápido. O pronto socorro está tão lotado que não há como andar. Mudamos aqui, mexemos ali e nada. Não há escapatória.
Uma acompanhante me aborda:
- Estou filmando tudo. Se você não arrumar uma cama para minha mãe, vou mandar pra televisão...
- Por favor, escolha um paciente, qualquer um. Peça para que ela saia da maca e eu coloco sua mãe nela.
Com a inesperada resposta a moça resolveu conter seus ânimos e aguardou por mais duas horas até que conseguimos uma maca.
A recepção está lotada, um paciente me pára no corredor:
- Você que é o chefe?
- De que?
-Da enfermagem.
- Sim, posso te ajudar.
- Passei no médico, ele me passou uma injeção e estou há duas horas na fila, esperando.
- Me deixa ver... Duas horas? São 22h00min e sua ficha é das 21h23min. Acho que suas contas estão erradas.
- Vai **** seu filho da **** p**** do ****
- Tenho certeza que tinham mais palavrões, mas não estava ouvindo o que ele falava, pois me afastava para atender uma moça com dor de garganta que precisa muito do atestado do dia.
O plantão avança noite adentro. Um café com a AD, comentários sobre férias, estudo e voltamos à carga.
Peço para alguém me medicar e a VRC intervém:
- Você está parecendo o House...
- Sarcástico e insensível?
- Não. Viciado em remédio.
- Tenho dor crônica...
- Ele também.
São seis e meia da manhã quando me dou conta que sobrevivemos a mais uma batalha e eu não tomei o remédio para dor.
- Santa VRC!!!
Fim de plantão. Aqui.
Ainda tenho mais algumas horas no emprego numero dois antes de fazer as pazes com minha cama.
Até amanhã.
Minha nossa!!! Como você aguenta? Parabéns acompanho o blog como se fosse uma novela. Precisa ser mais pontual hein... Esta demorando para postar kkkk.
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