sábado, 23 de abril de 2011

Sexta feira Santa; “Tomai e bebei todas”

tomai Sexta feira, feriado com cara de domingo. São 17:30 quando entro no Pronto Socorro. Vazio, seis ou sete macas no corredor, uma na emergência. Tudo tranqüilo.

Faço a escala. A N não vem trabalhar, atestado médico. ML e ED de folga. Opa, se N e ML estão ausentes quem fará o café? Isto é importante. Termino a escala, PT e NS na emergência, DB, RSM e PT II no corredor. Vai ser “mole pro gato”, se continuar assim.

Antes que eu receba oficialmente o plantão a NS me chama de canto:

- O paciente da Emergência está morto. E não foi agora.

- Como assim?

Bem, vamos aos outros enquanto o JQ resolve este B.O., que ainda lhe pertence. Assumimos o plantão e nossa noite começa a ficar divertida.

Uma paciente da feminina precisa de uma tomografia. Conseguimos o exame em outro hospital e peço para a DB acompanhar. Estranho como estão deixando as tomografias para o noturno, preciso lembrar-me disto na próxima reunião.

Primeiro resgate da noite, dois irmãos voltavam da igreja quando caíram com a moto. Escoriações e contusões por todo o corpo. O mais velho parece uma múmia de tão enfaixado. Não temos tomografia no feriado, então teremos que levá-lo pra realizar a tomo fora. Assim que conseguirem uma vaga.

Antes que possamos resolver este problema, chega outro rapaz, 27 anos, caiu do telhado. Sente dores no pescoço. Também fará tomo. Também sairá.

A central de vagas me cobra auxiliar para acompanhar as tomos:

- J, tem duas TC para sair quem vai?

- Vai alguém, assim que minha auxiliar, que está fora, voltar.

- Ok, eu espero então.

Conseguiram as duas vagas ao mesmo tempo. Em dois hospitais diferentes. Temos apenas uma ambulância disponível no momento. Decido por mandar o rapaz que caiu do telhado, que neste momento recebe os carinhos de uma linda loira. Explico para o paciente da queda de moto, porque mandarei o outro primeiro. Ele complementa:

- Sim ele está pior que eu. Não é?

Olho para a namorada do rapaz que está de costas para nós e digo:

- Não meu amigo. Ele está melhor que você. Melhor que nós dois.

- Com certeza.

A RSM que chegava para pegar o paciente, que ela levaria à tomografia, ouve a conversa e divide as risadas conosco. Gosto do seu senso de humor raramente vêem-a zangada.

A DB volta e já sai de novo para levar o rapaz da moto, mas antes solta a dela:

- Hoje você não me quer por perto não é? Estou escalada na remoção.

Rimos, ela ainda terá que sair mais uma vez e nós não sabemos disto.

PT e NS pedem para ir jantar.

- As duas juntas, não.

- Mas alguém cobre para a gente - pondera a NS.

- Não e se chegar...

Chegou! Uma senhora de 70 anos, inconsciente.

- Moço, ajuda aqui. Ela estava caída no chão em casa. Está gelada

- Meninas, acesso venoso, dextro e PA.

Diabética, está em hipoglicemia. Seu dextro é de 36. A glicose quantificada no laboratório menor ainda: 21.

Medicada, melhora rapidamente. Dou orientações quanto ao uso da insulina e alimentação tanto a ela quanto aos familiares. Vai passar a noite em casa.

Enquanto isto, a Auxiliar de Enfermagem da soroterapia me chama:

- Enfermeiro, tem uma paciente lá péssima de veia. O que eu faço?

Ela não é do PS, está cobrindo a escala hoje.

- Espera lá que eu vou.

Chego na soroterapia. A paciente realmente tem acesso venoso difícil. Enquanto preparo o material escuto:

- Psiu.

Não atendo a este tipo de chamado. Sequer olho. Acabo de instalar o soro e vou lavar as mãos, enquanto a auxiliar me pede para puncionar outro paciente igualmente difícil.

Quando viro-me, após lavar as mãos, deparo com uma senhora à minha frente. ( A mesma do Psiu):

- O soro dele acabou. – Diz apontando para o paciente que ela acompanha.

- Tudo bem a auxiliar já vai tirar.

- E você não pode tirar, porque?

Eu até ia responder que era porque, ela era mal educada. Porque estava me preparando para outro procedimento. Porque a prioridade é instalar a medicação de quem ainda não foi medicado. Mas me contive e respondi apenas:

- Porque eu sou chique.

A sala de soro quase veio abaixo. Até os doentes riram. Puncionei o segundo acesso lavei as mãos e fui jantar.

Na volta, uma senhora entra na sala de emergência. Largada na cadeira rodas, dá pra sentir a metros o cheiro de álcool. Pergunto o que aconteceu e a filha responde exaltada:

- Embebedaram ela. Ela caiu e bateu a cabeça.

Toda história tem dois lados e outro lado da história é que a paciente estava em um centro de umbanda com alguma coisa no corpo. A filha brigou com a “mãe de santo” a mãe entrou na briga, foi empurrada, caiu e bateu a cabeça na pia. Adivinhe: Vai precisar de tomografia.

Esta paciente dará trabalho durante a noite toda. Peço que a PT dê um banho nela e a DB, que acabou de voltar, sai para mais uma missão radiológica. Preciso agradecer-la pelo empenho. Após a tomo a paciente ficará gritando o nome dos filhos no corredor por um longo tempo.

O SAMU traz um garoto. Atuava na interpretação da “Paixão de Cristo”, ainda está com a roupa cenográfica, caiu e teve os lábios presos ao aparelho ortodôntico. Deu algum trabalho para retirar, mas saiu ileso. Casa.

Na emergência, as meninas se batem com um bêbado dispneico. É asmático e encheu o caneco. Quase agrediu a PT, tiveram que chamar a GCM, gozado que quando chegam homens a valentia diminui sensivelmente... Medicado, amarrado, melhorou. Mando-o para o corredor onde os familiares o retiram e levam para casa. Um a menos.

Na outra maca, uma senhora de 53 anos, renal crônica, transplantada, está com dores abdominais. Exames, eletro, medicação. Nada demais. Vai para o corredor.

Um rapaz de 25 anos chega na sutura. Tem o corpo todo riscado com gilete ou outro instrumento similar. Estava bebendo com a ex mulher e o ex cunhado. Quando acordou estava assim. Não se lembra de nada. Em seu corpo uma estrela de Davi, muito mal feita, lesões no pescoço e tórax e nos braços onde foi escrito “lusifer”. Avalio as lesões, nada profundo. Sem urgência.

- Quem fez isto? - pergunto.

- Não sei. Acordei, estava assim.

- Você escreve com qual mão?

- Esta. - mostra a mão esquerda

- Além de maluco, quem escreveu é analfabeto, lúcifer esta escrito com “S”. Assine aqui.

Ao estender a mão ele o faz com a direita, lógico que é destro, mentiroso e quer chamar a atenção. Vai para a psiquiatria.

Outro resgate, outro bêbado. Bateu o carro contra outro que estava parado na via. Resultado; Fratura de cabeça do fêmur. Uma fratura inesquecível para ele pois é do tipo que costuma necrosar por falta de irrigação. Não andará de novo tão cedo. Quando chega a polícia, mais surpresas, documentos do carro vencidos há anos e carteira de habilitação vencida há três.

E quem pagará o prejuízo do outro carro...

Ah, este também precisa de tomografia.

Lá na frente a RS, minha colega de plantão, sofre com a triagem. É bêbado para todo lado. Eles chegam a brigar entre eles.

No corredor do gesso as auxiliares de limpeza já foram chamadas diversas vezes para retirar vômitos do chão.

Hoje está tranqüilo, autorizo a limpeza terminal no corredor. Há meses tentam fazer uma.

O RD, cirurgião de plantão, chega e pede:

- J, preciso de um favor teu.

- Fala menino.

- Não estou ouvindo nada do lado direito. Lava pra mim?

- Tudo bem.

Separo o material e depois de algumas tentativas retiro uma enorme rolha de cerume de sua orelha direita.

- Melhorou.

- Muito. Não ouvia nada.

Madrugada, bate papo. O DN, ortopedista, aparece para ver um paciente e investir contra a MC, ele não desiste e ela gosta. Rimos um pouco. Hoje não teve café.

Mais um bêbado para suturar a testa.

O RD não se conforma:

- Feriado religioso, como podem beber tanto?

- É meu amigo, eles levam a sério o “tomai e bebei, todos vós”

Meu plantão está acabando, fui descansar um pouco. Volto na hora de sair. Já trocado, observo a sala de emergência. Estão trabalhando em uma parada cardiorrespiratória. Pela pulseira do paciente, identifico que ele estava internado em uma das clínicas. Pelo horário, provavelmente o encontraram parado e pelo histórico não sairá desta.

Também observo a equipe, funciona como um relógio, cada um fazendo tua parte, sem bater cabeças, sem correria. Estou orgulhoso. Vou pra casa.

Até amanhã.

6 comentários:

  1. Meu, como tem cachaceiro neste mundo... Fala sério

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  2. AÍ SIM, fomos surpreendidos novamente

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  3. Que absurdo! Como as pessoas bebem...rs

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  4. Beber, cair, levantar...
    Deixa o povo. A vida é curta

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  5. Seria cômico se não fosse trágico... Em 2006, 16,2% da população adulta admitia beber em excesso. O percentual agora está em 18%. Entre mulheres, a variação subiu de 8,2% para 10,6%. Na população masculina, os índices passaram de 25,5% para 26,8%. Fonte: Ministério da Saúde, publicado em 19/04/11 no jornal o Estado de São Paulo... Pior, são os excessos cometidos justamente em feriados religiosos. É como "acender a vela e pedir para o capeta apagar"... Fala sério. Bem aventurados os profissionais de enfermagem que trabalham em pronto socorro e ainda conseguem ter paciência. Sou fã de todos vocês!!!!!!

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