Sexta feira, feriado com cara de domingo. São 17:30 quando entro no Pronto Socorro. Vazio, seis ou sete macas no corredor, uma na emergência. Tudo tranqüilo.
Faço a escala. A N não vem trabalhar, atestado médico. ML e ED de folga. Opa, se N e ML estão ausentes quem fará o café? Isto é importante. Termino a escala, PT e NS na emergência, DB, RSM e PT II no corredor. Vai ser “mole pro gato”, se continuar assim.
Antes que eu receba oficialmente o plantão a NS me chama de canto:
- O paciente da Emergência está morto. E não foi agora.
- Como assim?
Bem, vamos aos outros enquanto o JQ resolve este B.O., que ainda lhe pertence. Assumimos o plantão e nossa noite começa a ficar divertida.
Uma paciente da feminina precisa de uma tomografia. Conseguimos o exame em outro hospital e peço para a DB acompanhar. Estranho como estão deixando as tomografias para o noturno, preciso lembrar-me disto na próxima reunião.
Primeiro resgate da noite, dois irmãos voltavam da igreja quando caíram com a moto. Escoriações e contusões por todo o corpo. O mais velho parece uma múmia de tão enfaixado. Não temos tomografia no feriado, então teremos que levá-lo pra realizar a tomo fora. Assim que conseguirem uma vaga.
Antes que possamos resolver este problema, chega outro rapaz, 27 anos, caiu do telhado. Sente dores no pescoço. Também fará tomo. Também sairá.
A central de vagas me cobra auxiliar para acompanhar as tomos:
- J, tem duas TC para sair quem vai?
- Vai alguém, assim que minha auxiliar, que está fora, voltar.
- Ok, eu espero então.
Conseguiram as duas vagas ao mesmo tempo. Em dois hospitais diferentes. Temos apenas uma ambulância disponível no momento. Decido por mandar o rapaz que caiu do telhado, que neste momento recebe os carinhos de uma linda loira. Explico para o paciente da queda de moto, porque mandarei o outro primeiro. Ele complementa:
- Sim ele está pior que eu. Não é?
Olho para a namorada do rapaz que está de costas para nós e digo:
- Não meu amigo. Ele está melhor que você. Melhor que nós dois.
- Com certeza.
A RSM que chegava para pegar o paciente, que ela levaria à tomografia, ouve a conversa e divide as risadas conosco. Gosto do seu senso de humor raramente vêem-a zangada.
A DB volta e já sai de novo para levar o rapaz da moto, mas antes solta a dela:
- Hoje você não me quer por perto não é? Estou escalada na remoção.
Rimos, ela ainda terá que sair mais uma vez e nós não sabemos disto.
PT e NS pedem para ir jantar.
- As duas juntas, não.
- Mas alguém cobre para a gente - pondera a NS.
- Não e se chegar...
Chegou! Uma senhora de 70 anos, inconsciente.
- Moço, ajuda aqui. Ela estava caída no chão em casa. Está gelada
- Meninas, acesso venoso, dextro e PA.
Diabética, está em hipoglicemia. Seu dextro é de 36. A glicose quantificada no laboratório menor ainda: 21.
Medicada, melhora rapidamente. Dou orientações quanto ao uso da insulina e alimentação tanto a ela quanto aos familiares. Vai passar a noite em casa.
Enquanto isto, a Auxiliar de Enfermagem da soroterapia me chama:
- Enfermeiro, tem uma paciente lá péssima de veia. O que eu faço?
Ela não é do PS, está cobrindo a escala hoje.
- Espera lá que eu vou.
Chego na soroterapia. A paciente realmente tem acesso venoso difícil. Enquanto preparo o material escuto:
- Psiu.
Não atendo a este tipo de chamado. Sequer olho. Acabo de instalar o soro e vou lavar as mãos, enquanto a auxiliar me pede para puncionar outro paciente igualmente difícil.
Quando viro-me, após lavar as mãos, deparo com uma senhora à minha frente. ( A mesma do Psiu):
- O soro dele acabou. – Diz apontando para o paciente que ela acompanha.
- Tudo bem a auxiliar já vai tirar.
- E você não pode tirar, porque?
Eu até ia responder que era porque, ela era mal educada. Porque estava me preparando para outro procedimento. Porque a prioridade é instalar a medicação de quem ainda não foi medicado. Mas me contive e respondi apenas:
- Porque eu sou chique.
A sala de soro quase veio abaixo. Até os doentes riram. Puncionei o segundo acesso lavei as mãos e fui jantar.
Na volta, uma senhora entra na sala de emergência. Largada na cadeira rodas, dá pra sentir a metros o cheiro de álcool. Pergunto o que aconteceu e a filha responde exaltada:
- Embebedaram ela. Ela caiu e bateu a cabeça.
Toda história tem dois lados e outro lado da história é que a paciente estava em um centro de umbanda com alguma coisa no corpo. A filha brigou com a “mãe de santo” a mãe entrou na briga, foi empurrada, caiu e bateu a cabeça na pia. Adivinhe: Vai precisar de tomografia.
Esta paciente dará trabalho durante a noite toda. Peço que a PT dê um banho nela e a DB, que acabou de voltar, sai para mais uma missão radiológica. Preciso agradecer-la pelo empenho. Após a tomo a paciente ficará gritando o nome dos filhos no corredor por um longo tempo.
O SAMU traz um garoto. Atuava na interpretação da “Paixão de Cristo”, ainda está com a roupa cenográfica, caiu e teve os lábios presos ao aparelho ortodôntico. Deu algum trabalho para retirar, mas saiu ileso. Casa.
Na emergência, as meninas se batem com um bêbado dispneico. É asmático e encheu o caneco. Quase agrediu a PT, tiveram que chamar a GCM, gozado que quando chegam homens a valentia diminui sensivelmente... Medicado, amarrado, melhorou. Mando-o para o corredor onde os familiares o retiram e levam para casa. Um a menos.
Na outra maca, uma senhora de 53 anos, renal crônica, transplantada, está com dores abdominais. Exames, eletro, medicação. Nada demais. Vai para o corredor.
Um rapaz de 25 anos chega na sutura. Tem o corpo todo riscado com gilete ou outro instrumento similar. Estava bebendo com a ex mulher e o ex cunhado. Quando acordou estava assim. Não se lembra de nada. Em seu corpo uma estrela de Davi, muito mal feita, lesões no pescoço e tórax e nos braços onde foi escrito “lusifer”. Avalio as lesões, nada profundo. Sem urgência.
- Quem fez isto? - pergunto.
- Não sei. Acordei, estava assim.
- Você escreve com qual mão?
- Esta. - mostra a mão esquerda
- Além de maluco, quem escreveu é analfabeto, lúcifer esta escrito com “S”. Assine aqui.
Ao estender a mão ele o faz com a direita, lógico que é destro, mentiroso e quer chamar a atenção. Vai para a psiquiatria.
Outro resgate, outro bêbado. Bateu o carro contra outro que estava parado na via. Resultado; Fratura de cabeça do fêmur. Uma fratura inesquecível para ele pois é do tipo que costuma necrosar por falta de irrigação. Não andará de novo tão cedo. Quando chega a polícia, mais surpresas, documentos do carro vencidos há anos e carteira de habilitação vencida há três.
E quem pagará o prejuízo do outro carro...
Ah, este também precisa de tomografia.
Lá na frente a RS, minha colega de plantão, sofre com a triagem. É bêbado para todo lado. Eles chegam a brigar entre eles.
No corredor do gesso as auxiliares de limpeza já foram chamadas diversas vezes para retirar vômitos do chão.
Hoje está tranqüilo, autorizo a limpeza terminal no corredor. Há meses tentam fazer uma.
O RD, cirurgião de plantão, chega e pede:
- J, preciso de um favor teu.
- Fala menino.
- Não estou ouvindo nada do lado direito. Lava pra mim?
- Tudo bem.
Separo o material e depois de algumas tentativas retiro uma enorme rolha de cerume de sua orelha direita.
- Melhorou.
- Muito. Não ouvia nada.
Madrugada, bate papo. O DN, ortopedista, aparece para ver um paciente e investir contra a MC, ele não desiste e ela gosta. Rimos um pouco. Hoje não teve café.
Mais um bêbado para suturar a testa.
O RD não se conforma:
- Feriado religioso, como podem beber tanto?
- É meu amigo, eles levam a sério o “tomai e bebei, todos vós”
Meu plantão está acabando, fui descansar um pouco. Volto na hora de sair. Já trocado, observo a sala de emergência. Estão trabalhando em uma parada cardiorrespiratória. Pela pulseira do paciente, identifico que ele estava internado em uma das clínicas. Pelo horário, provavelmente o encontraram parado e pelo histórico não sairá desta.
Também observo a equipe, funciona como um relógio, cada um fazendo tua parte, sem bater cabeças, sem correria. Estou orgulhoso. Vou pra casa.
Até amanhã.
Meu, como tem cachaceiro neste mundo... Fala sério
ResponderExcluirAÍ SIM, fomos surpreendidos novamente
ResponderExcluirQue absurdo! Como as pessoas bebem...rs
ResponderExcluirAlê
ResponderExcluirAinda bem que Você evita né?
Beber, cair, levantar...
ResponderExcluirDeixa o povo. A vida é curta
Seria cômico se não fosse trágico... Em 2006, 16,2% da população adulta admitia beber em excesso. O percentual agora está em 18%. Entre mulheres, a variação subiu de 8,2% para 10,6%. Na população masculina, os índices passaram de 25,5% para 26,8%. Fonte: Ministério da Saúde, publicado em 19/04/11 no jornal o Estado de São Paulo... Pior, são os excessos cometidos justamente em feriados religiosos. É como "acender a vela e pedir para o capeta apagar"... Fala sério. Bem aventurados os profissionais de enfermagem que trabalham em pronto socorro e ainda conseguem ter paciência. Sou fã de todos vocês!!!!!!
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