quinta-feira, 21 de abril de 2011

Quarta feira; Um copo d’água. Por favor

agua São 17:00 quando chego ao hospital. Véspera de feriado, todo mundo quer fugir da cidade e com isto o trânsito fica parecendo o corredor do PS em seus dias mais tumultuados. Subo rapidamente à sala da RG onde recebo a notícia de que o Protocolo de Dor Torácica foi aprovado sem ressalvas não tenho nada de modesto quando se trata de reconhecer meu trabalho. Fico orgulhoso e recebo os elogios com satisfação. Conversamos um pouco e me dirijo ao Pronto Socorro.

Está confuso, até tento ajudar meus colegas em seu fim de plantão, mas só eles entendem o que está acontecendo. Vou para o posto de enfermagem uma montanha de caixas de soro atravanca o caminho, decido dar um fim nela e distribuo os soros pelas prateleiras enquanto observo os profissionais e suas atitudes.

Uma Auxiliar de Enfermagem, que a cada duas palavras uma e meia contém um palavrão ou jargão, reclama das condições de trabalho que assim não dá etc. Outros falam da possível greve planejada para os próximos dias em virtude do aumento salarial dado somente aos médicos em detrimento das outras categorias profissionais outra fala do namorado que passará à posição de ex-namorado, em alguns dias. E assim a hora passa. Decido fazer minha escala. Mexe aqui, risco ali. Este não faz isto, aquela não quer trabalhar com aquele, esta não se dá bem aqui. Escala pronta. Nem foi tão difícil, temos funcionários em quantidade, agora vamos precisar lapidar a qualidade. Isto faz parte do trabalho do enfermeiro.

Recebo o plantão com algumas vagas no corredor, emergência lotada e um monte de problemas para resolver. Muito bem, problemas foram feitos para serem resolvidos.

Uma criança de 14 anos. Atropelada. Está com fratura exposta no pé esquerdo. Seu acompanhante é um garoto da mesma idade que brincava com ele no momento do acidente. Está assustado, agressivo e não colabora. Falo firme com ele.

- Você precisa me ajudar. Só queremos que você melhore. Então pare de pirraça e aja como um verdadeiro corintiano.

- Ele é são-paulino provoca o amigo.

Ele sorri pela primeira vez. É a deixa para conseguir localizar os parentes, que não sabem onde ele está. Precisamos de um adulto, responsável pela criança. A mãe está trabalhando, não sabe o que aconteceu. Com meu celular começo a ligar para todos os números que os meninos lembram de cabeça. Após um sem número de chamadas localizo uma tia, que passa o telefone da mãe.

Quando esta chega ao hospital fica evidente a falta de estrutura familiar. Briga com o garoto, culpa-o pelo ocorrido. Chamo-a de canto:

- Deixe para brigar depois. Ele vai para uma cirurgia e, apesar de simples, não sabemos como reagirá à anestesia.

A mãe chora e me pede um copo com água. Ofereço-lhe a água e encaminho os dois ao centro cirúrgico.

Falta prescrição para uma paciente do corredor. Está assim desde as 09h00 da manhã, chamo a AC, uma das clínicas de hoje:

- Precisa prescrever a paciente.

- Por que eu?

- Por que você é bonita, é simpática, inteligente e... é a clínica deste plantão.

- Mas agora, por quer não chamaram antes?

- Primeiro EU vi agora. Segundo: Eu entrei as 19h00. Terceiro não temos que chamar, a paciente está internada e deve ser vista pelo médico todos os dias.

Ela decide não ponderar mais e vai fazer a prescrição. Melhor assim.

Uma paciente da psiquiatria está agitada. Aguarda o psiquiatra desde a tarde. Peço para contê-la na maca. Vai ficar amarrada até o psiquiatra chegar. Mais tarde ela grita.

- Estou com sede.

Ofereço-lhe água. Ela bebe um gole e pede para que eu dê pro menino que também está com sede. Dou um sorriso e saio. Ela dorme. O psiquiatra chega e a transfere para enfermaria. Bom. Muito bom.

Outra paciente chega, transferida de uma unidade de pronto atendimento, ictérica com história de obstrução do ducto biliar. O cirurgião de plantão nem a examina, solicita exames e encaminha à clínica médica. Ela está bem clinicamente, sinais vitais normais. O dextro está alto, mas não é motivo para encaminhar. Eles que são mouros, que se entendam.

Uma legião de estagiários invade o PS, gente pra todo lado. Por alguns instantes fico sem entender o que está acontecendo. São muitos estagiários, meus auxiliares aproveitam para sair de fininho, uma vai fazer o café (já estava na hora) a outra vai tomar um ar. O plantão vai ser moleza.

Uma estagiária tenta ajudar em um procedimento de sutura no corredor. Contaminou dois kits. Me aproximo e a oriento como abrir o material e como se posicionar. Olho para sua professora que está envolvida com uma punção e sequer toma ciência do que sua aluna está fazendo. Hoje não vou brigar.

- Se tiver dúvida me chame – digo para a estagiária.

- Obrigada

Na emergência o AN esta às voltas com um EAP, mexe aqui, chama um médico, outro, discute, pondera até que, após mais de uma hora, consegue compensar o paciente um senhor de 70 e muitos anos com marca passo.

O SP, cirurgião de plantão, vem me chamar:

- Professor! (Ele só me chama de professor) Pode me ajudar com um anel? Lembra que você tirou outro dia com óleo mineral e fio?

- Vamos lá.

O paciente estava no consultório da ortopedia. Depois de alguns minutos retirei a aliança do dedo médio do rapaz.

- P*** meu, tentei fazer assim e não deu certo - diz o SP

- Tem que ter paciência, não adianta pressa.

- Vamos tomar um café? – convida.

-“bora”, você paga.

Após o café volto para o PS. A DB me chama:

- Enfermeiro, o Enfermeiro LN pediu para que você avaliasse este paciente. Ele precisa ir ao raio x e estava dispneico.

Observo o paciente, não está tão dispneico. Ausculto os pulmões: limpos.

- O senhor sente dores?

- Sim, nas costas. É pneumonia. Já tive duas.

- Sei. DB, vou pedir um eletro. Ele faz o ECG, e volta pra cá.

- Sim senhor, enfermeiro, respondeu sorrindo.

Quando o paciente voltou, ficou evidente o Infarto agudo do miocárdio. Seu eletro tinha supra de ST. Suas enzimas cardíacas também estavam alteradas.

Chamei a AC para reavaliar.

- Quem pediu o eletro?

-Eu.

- Obrigada. Ele não reclamou de dor no peito.

- Dor nas costas...

- Vamos fazer “estrepto”.

- Ele tem mais de 24 horas de dor... Apesar de não podermos confiar cegamente no paciente é muito mais que as doze do protocolo...

Ligo para uma amiga especialista em cardiologia, peço ajuda. Estudiosa do assunto ela me dá as dicas quanto ao não uso de trombolíticos após mais que doze horas de dor.

- Você sabe tudo? - pergunta a AC.

- Ele é velho – provoca o AN

- Não. Mas conheço quem sabe e é bonita (risos)

Depois de muitas discussões o intensivista de plantão decide pela Estreptoquinase. E o paciente realmente melhorou muito após ela.

Plantão morno, sem grandes novidades ou acontecimentos.

Madrugada, ao passar pela emergência o paciente do EAP me chama.

- Moço. Quero te pedir uma coisa, me dá um copo de água bem gelada. Mas bem gelada mesmo.

Dou-lhe um sorriso. Vou até o posto de enfermagem, pego água do bebedouro. Gelada, bem gelada. Ele bebe.

- Muito obrigado – dormiu.

Nunca me senti tão bem ao ofertar um copo com água.

Chega um resgate do corpo de bombeiros. Bêbado, atropelado. Suturado, levantou da maca e fugiu. Espero que não volte para outra sutura ainda hoje.

Cobro do DN a avaliação da paciente com icterícia:

- Por que eu?

- Você que a verdade ou algo que te agrade?

- A verdade.

- Porque é o teu trabalho e você está aqui para isto.

- C*****, e algo que me agrade?

- Agora é tarde, você já escolheu a verdade. (risos)

Ele avalia a paciente. Examinou, prescreveu e solicitou nova avaliação cirúrgica. Perfeito. Seria melhor se não fossem três horas da madrugada e paciente não tivesse aqui desde as 19h00.

O plantão caminha para o fim. Tranquilo, sem problemas e sem perdas. Estávamos precisando de um desses.

Despeço-me dos rapazes.

- Crianças, não chorem. Estou indo embora.

- Já vai tarde - provoca o AN

- Até amanhã – diz o LN

Na saída observo o paciente do IAM na emergência. Dorme tranqüilo. Que bom. Fizemos o melhor.

Até amanhã.

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