sábado, 26 de março de 2011

Sexta-feira, tranquila para nós. Noite de cão para outros

PRONTO SOCORRO Sexta-feira. Entro no PS por volta das 18:20, um pouco tarde para minha rotina, mas muito cedo para meu horário. Troco de roupa e vou preparar a escala. A vontade é de sair correndo. Não temos funcionário. Se não faltar ninguém ficará apenas um no corredor. Se faltar... Não sei o que acontecerá. Escala pronta começam a chegar os auxiliares, nenhuma falta. Chegam também a RS e o AN, equipe completa. AN e eu conversamos tentando dar um jeito na escala.

- Já conversei com o EN, ficará sozinho na semi. Informo

- Não dá pra fazer diferente? Um na semi é complicado.

-Só tem três pacientes. A gente não coloca mais e dá pra tocar

- E o corredor?

- Ficando um na semi, puxamos a FN para o corredor e P e NS ajudam. Já que a emergência está vazia. Se chegar algo a gente entra.

-Concordo. Vamos fazer assim.

Assim foi feito. Para nossa surpresa a AL veio trabalhar. Estava de licença, mas voltou hoje. Desta forma teremos uma pessoa na coleta. Que ficaria fechada. O interessante nestes casos que a AB, não aprece. Principalmente enquanto o tumulto está formado. Não que faça falta. Mas o mínimo que se poderia esperar de uma “surpervisora” é que desse as caras e tentasse pelo menos propor uma solução. Quer saber? Melhor assim.

Conversamos com os auxiliares e comunicamos as decisões. Todos concordam.

Primeiro SAMU da noite. Homem 40 anos, morador de rua. Entrou na frente de um ônibus e foi atropelado. Está embriagado. Chamo o cirurgião, levo-o ao raio x e vou chamar o ortopedista.

- Dr, paciente vítima de atropelamento. Precisa ser avaliado.

- É o morador de rua?

- Sim.

- Então dê um banho primeiro. Depois eu vou.

- Como?

- Não vou atender o cara está fedido

- Tudo bem. Vou anotar isto aqui e, amanhã, seu colega avalia.

- Custa a enfermagem fazer seu trabalho?

- Não. Mas quem determina quando e como o paciente vai tomar banho sou eu. E não é agora. Também não custa você fazer o teu trabalho.

- Só você é assim.

- Ainda bem. Posso esperar ou deixo para amanhã?

- Estou indo.

Após avaliação e alta o paciente recusou terminantemente o banho e disse que vai processar o SAMU, quer outra calça pois cortaram a dele. “Não sabem tirar uma calça sem rasgar”

Na porta outro atropelado. Visivelmente sob efeito de drogas ameaça a todos. Tem escoriações no ombro. Proponho fazer um curativo e ele aceita para logo a seguir tentar me agredir. Afasto-me e deixo o circo pegar fogo. Os homens da GCM o dominam e levam para a psiquiatria. Vai dormir a noite toda.

Outro reclama de uma medicação que a esposa tomou e agora esta com dor.

- A culpa é do hospital. A barriga dela dói. Precisa fazer exame para ver se está grávida.

Nem entro na discussão deixo que o médico explique para ele que não pedirá o exame.

Uma senhora está “desmaiando”. Ao aproximar-me ela mede a distância e se joga. Tiro o corpo e me divirto com a cena. Ao perceber que eu não a seguraria começou a andar de costas até encostar-se à parede.

- Estou muito mal. Não enxergo nada.

-Então senta aqui. Daqui a meia hora vão ver tua pressão de novo.

-Mas acabaram de ver. Aqui está anotado. (Mostra-me a anotação da Auxiliar)

-Se você não enxerga nada, como consegue ver a anotação?

Milagre. Ela melhorou e saiu andando. Sem cambalear. O ED não perdeu a cena e dispara no posto de enfermagem.

-O J tem mão santa mesmo. A mulher estava morrendo. Ele só segurou na mão e ela já está boa. (risos)

Por volta das 22:00 o plantão já está mais tranqüilo. Nenhuma novidade com os internados. Problemas só na porta. Uma discussão aqui. Uma revolta ali.

Viatura dos bombeiros, mulher 60 anos. Mordida pelo próprio cão. E bem mordida, diga-se de passagem. O cão estava convulsionando e ela tentou contê-lo. Quando ele “voltou” distribuiu dentadas a torto e a direito. Dilacerou-lhe as mãos, braços e pernas. O filho está mais aflito que ela. Precisamos colocá-lo para fora. Muitos pontos e curativos depois, ela está bem. Vai receber antibióticos, observar o cão e alta.

Sossego total na madrugada. Hoje o café ficou a cargo da P e da DB. Muito bom os dois. Com a noite tranqüila o papo rola solto. Até os pacientes internados cooperam para isto. Poucas solicitações. Ajuda para ir ao banheiro, um soro que acaba. Nada demais.

O assunto é falar errado. As meninas estão comentando o quanto eu sou chato e corrijo quando elas falam errado. Explico que temos obrigação de falar certo. Não precisamos falar difícil. Mas temos que falar corretamente. De repente chega a AB.

- J, tem um curso dia 31 no “afiteatro”. Você vai?

- Onde? Pergunto incrédulo.

- No “afiteatro.”

Não prestou. As meninas começaram a rir descaradamente. Precisei sair de perto e espetar a FN com uma caneta p-ara ela parar de rir. A DB se justifica:

- J, o problema é a cara que você faz. Você não disfarça. Você vai no AFITEATRO?

- Aff, respondo. Tome mais risos

Duas da manhã, a LC, clínica de plantão vem ao balcão e me pede adrenalina.

- Pra que?

- Uma paciente com angioedema.

- Cadê a paciente.

- Lá na medicação.

- Dra, traga-a para cá. Se ela complicar já estará na emergência.

- OK

Ao chegar percebo que a paciente já está complicada. Respira mal. A face e lábios edemaciados.

- Já fiz flebo. Diz a clínica

- Fernegan?

- Não gosto.

- Hum, acho que você precisa fazer. Ela não vai sair.

- Tudo bem, vamos fazer.

-Faça a adrenalina também.

- Na veia?

-Não. Subcutânea.

- OK.

Feito o fernegan e a adrenalina a paciente melhorou. Fomos colher a história junto aos familiares. Ela tomou um antigripal e foi dormir. Acordou com falta de ar.

Conversamos no corredor a respeito de atender estes casos no consultório.

- É ruim, pois se complicar você está só. Na medicação não tem material de emergência e nem maca. Podemos perder a paciente.

- É pensei que teria que entubar.

-Eu também.

- Obrigado, diz a clínica. Você foi ótimo. Da próxima vez trago direto para cá.

- Da próxima vez você não vai precisar de mim. Já sabe o que fazer.

-Mas nunca vou esquecer quem ensinou. (Risos)

Volto para emergência. Todo cheio.

Fim de plantão, conversamos RS, AN e eu sobre a escala do próximo mês, quando entra a P.

- Preciso de um jelco 14.

- Para que.

- O Dr HB vai puncionar um tórax.

- Não temos mais jelcos que encaixam na seringa...

Depois de muita procura achamos um, tamanho 16. Feita a punção. Fim de plantão. P e eu vamos em direção a chapeira para registrar o ponto:

- Tá com pressa por que? Pergunto, tentando acompanhar seus passos.

- Tenho que levar meu cachorro ao retorno médico.

- E por que ficou auxiliando?

- Queria ver isto. Nunca vi.

- Não falei que o PS é bom para ver tudo.

- Tem razão. Até amanhã.

Até amanhã.

7 comentários:

  1. VC É UM PROFISSIONAL MUITO DINÂMICO, CONSEGUE RESOLVER TUDO, ATÉ QD PARECE IMPOSSÍVEL! TÔ APRENDENDO MT COM VC!

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  2. Só quem conhece o J, sabe o quanto ele é dedicado ao que faz. Não agrada a todos e nem liga. Faz o que acha certo e briga muito pelos que ele gosta

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  3. Quem conhece o Enfer J sabe que o cara é f. Adora o que faz e ainda por cima dá de dez na maioria dos colegas dele. Falei?

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  4. Nem preciso dizer nada. Este cara é meu ídolo

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  5. Hei, vc sabia que o Enf J foi convidado para o cata bêbado? (SAMU) Dizem que ele recusou. É verdade?

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  6. Não sei disso não. Se ficar sabendo publico aqui. rsrsr

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