segunda-feira, 28 de março de 2011

Domingo. Poderia ter sido melhor…

 

bagunça Plantão de domingo não deveria existir e pronto. Isto é o que pensa minha eterna melhor amiga. E a cada domingo que passa chego mais perto de apoiá-la nesta teoria. No sábado à meia noite todos os pacientes deveriam receber alta para retornarem segunda feira. Domingo seria como cantou Raul “O dia em que a terra parou”. Mas como vivemos no mundo real onde os doentes necessitam de cuidados 24 horas por dia, chego ao Pronto Socorro para mais uma noite de plantão. Pelo caminho agüento as gozações a respeito do resultado do futebol. As pessoas não acreditam que eu realmente não ligo para isto. Mas para ser sociável entro nas brincadeiras e vou levando. Ao passar a porta vai e vem tenho a literal visão do inferno. De cara observo dois pacientes em poltronas e mais duas no “puxadinho” que uma sala de guarda de materiais onde, quando não há mais espaço, “guardamos” os pacientes. O Problema é que, não raro, esquecemos que têm pacientes lá. Como cheguei em cima da hora (18:30), toco a preparar a escala que recebeu mais riscos do que nomes. Devido ao reduzido numero de auxiliares fiz e refiz a escala por três ou quatro vezes. Hoje temos três pacientes na emergência e gostaria que as meninas ficassem lá. Precisamos desenvolver a cultura da previsão. Estar sempre esperando algo. Se não chegar é lucro. Escala pronta. Com a volta da AL está mais fácil compor a equipe da frente (medicação, sutura e classificação), mas o fundo ainda carece de auxiliares. E não é só escalar, eles têm que se entender, cobrir e proteger uns aos outros senão for assim não dá certo.

Feita a escala os auxiliares começam e chegar. Vão assumindo os postos. Observações e corredor lotados. Emergência sem macas. Uma viatura do SAMU aguarda liberação da maca. A Auxiliar de enfermagem da ambulância parece não ter pressa para esta liberação, eu menos ainda. Há uma animosidade entre atendimento pré e intra hospitalar que não consigo entender. Eles acham que escondemos as macas para segurá-los no hospital e nós temos certeza que eles não avaliam adequadamente as vítimas trazendo para nós pessoas que seriam mais bem atendidas em outros serviços. Em casa que falta pão todos brigam, ninguém tem razão. Bem, depois de alguma espera a maca foi liberada. A espera foi suficiente para que nenhuma outra viatura do SAMU aportasse em nossa unidade durante o plantão.

A porta está um horror, a cada 10 atendimentos seis são devido a sintomas de conjuntivite. Há um surto na cidade. No próprio hospital há médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem afastados devido à conjuntivite. A cada vez que meus olhos coçam fico preocupado em ser o próximo. Uma paciente reclama da demora do atendimento:

- Não tem médico nesta m****?

Ao perceber que eu não lhe dei ouvidos foi mais direta:

- Moço, cadê os médicos desta porcaria?

Continuei em silêncio e ela disparou:

- Você é surdo c****

- A senhora falou comigo?

- Sim, falei.

- Desculpe, pelas palavras que usou achei que estava falando com seus parentes.

Dei-lhe as costas e sai. Hoje não estou a fim de agüentar este tipo de desaforo.

Lá dentro está corrido. Muito desorganizado, coisas por fazer, exames para encaminhar, retornos não vistos. Por volta das onze da noite teremos alguma organização, mas até lá...

Uma paciente, sentada, aguarda pacientemente por uma maca. Ela caiu e está com dor na perna. Depois de muito tempo esperando conseguimos colocá-la deitada. Quando vem o raio x, fratura de tíbia. A dor não era à toa. Vai ficar internada por dias, aguardando cirurgia.

Um pai entra com a filha de 16 anos no colo. Estava na festa de casamento da irmã e bateu com a cabeça ao tentar pegar o buquê. Não está desmaiada, está simulando. De longe observo que apesar do desmaio sua mão esquerda segura no braço do pai enquanto a direita está caída. Assim que o pai sai da sala ela acorda:

- Onde estou? O que aconteceu?

Penso que ela conseguiu estragar a festa da irmã.

Proponho ao RD, cirurgião de plantão, mantê-la em observação até amanhã. Ele aceita. Ao perceber que perderia o restante da noite ficou desesperada. Após o raio-x queria ir embora de qualquer jeito. Teve que ficar. O pai estava muito preocupado.

A N traz uma paciente em cadeira de rodas, caiu da própria altura. Idosa, mora só com um monte de gatos. Escandalosa, grita a toda hora por atenção. Vai ficar em observação até amanhã. Não vai ser fácil. Ela ficará na cadeira por horas até que na madrugada, conseguiremos uma maca para acomodá-la melhor.

Tenho que avaliar e evoluir seis pacientes das observações… Aproveito que não temos emergências e começo logo pois não sei se teremos calma a noite toda.

Avaliar pacientes acamados me deprime. Não raro encontro pacientes com úlceras por pressão espalhadas pelo corpo e não há muito o que fazer. Faço a prescrição dos curativos e das placas de proteção, mas sem esperança de que serão feitos conforme prescrito. Um dia não tem a placa, no outro não tem a pomada, raramente tem os colchões piramidais. Mas faço as prescrições assim mesmo.

Há uma paciente que necessita de sonda nasoenteral já retirou a sonda duas vezes durante o dia. Passo a sonda, peço raio-x, libero a dieta. Sei que ela vai tirar de novo. Mas fazer o que?

A N me chama na sutura, uma paciente de 60 anos caiu da escada e bateu a cabeça. O filho a trouxe no colo. Está saturando mal e com  um cheiro de álcool que sente-se de longe. Vai ficar na emergência, utilizando a última maca disponível.

Duas da manhã, o MC, clínico de plantão chega com um paciente. Dor torácica intensa, descorado, sudoreíco. Corro para fazer o eletro, não temos eletrodos, não temos macas. Tiro um paciente de sua maca, ele nem discute, aliás, só tem tempo de dizer:

- Fica a vontade, mano. Tô legal.

Depois de uns minutos de raiva aparece a AB com um pacote de eletrodos na mão. Estava trancado em seu armário

- Realmente, o armário é o melhor lugar para guardar o material de emergência. Disparo.

Feito o eletro. Não há alteração significativa. Apesar da dor o índice de preocupação diminui bastante. Medicado, o paciente continua a dizer que vai morrer. Não gosto disto. Recebe mais analgesia, dorme um pouco, mas continua com queixa de dor. Ficará assim até o final do plantão. Não há mais o que fazer além de observar. É o que é feito, observamos.

O plantão está acabando, não estou bem. Não gostei da forma que atendemos a SCA, poderíamos perder o paciente devido a falta de materiais e organização.

Saio pensando o que poderia ser diferente, o que pode ser mudado. Tratamos mas não cuidamos. Acostumamos-nos a perder pacientes como se isto fosse o normal.

Não é só a emergência. É tudo. As enfermarias sem condições físicas e de material, pacientes se acabando em úlceras, prescrições feitas para não serem cumpridas...

Não estou bem, sinto-me impotente, nadando contra a maré.

Não adianta treinar, orientar se todo dia falta alguma coisa. Um dia não tem eletrodos, outro não tem gel no terceiro não tem auxiliar e assim vamos. Até quando?

Bem, no próximo estou de folga. Vou me dedicar ao protocolo de dor torácica para apresentar semana que vem. Talvez e muito provavelmente eu volte renovado, mas hoje saio desanimado.

Peço para a RS passar o plantão.

- Sem problema. Está aí amanhã?

-Não, estou de folga. Ainda bem.

-Então até quinta-feira

-Até quinta

5 comentários:

  1. Chefe, não fica triste não. Todos sabem o quanto você se preocupa. Mas vamos combinar que vc é chato pra caramba neh? Boa folga. Merecida. Olha lá o que vai fazer na escala heim

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  2. Como diz o Enf J, Inferno brasileiro, um dia não tem lata. No outro não tem merda. Sem contar o salário

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  3. E depois ainda temos que aturar elogios para os médicos...

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  4. Acho muito legal as histórias, mas vc poderia publicar coisas tecnicas de interesse da enfermagem, dúvidas etc. O que vc cha da idéia?

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  5. Ana Lucia, você pode visitar enferjose.wordpress.com É um blog chamado "Profissão: Enfermeiro" que tem esta proposta. Valeu pela visita. Volte sempre

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