sexta-feira, 1 de abril de 2011

Quinta feira. Mais um plantão e muitas brigas

 

hospital (1) São 17:30, atravesso a porta vai e vem com os olhos quase fechados para não ver o que me espera. Não está tão cheio, no “puxadinho” há macas disponíveis. Chego a tempo de encontrar a GR e o JQ confabulando em como passar mais atribuições ao plantão noturno. Imediatamente contra argumentei.

- JQ você estava no noturno até ontem. Mal saiu e já está achando que a gente não faz nada?

- Não é isso. É que o dia está sobrecarregado.

- Sobrecarregado de enfermeiros. Oito, com certeza, é muito.

- Não, você não entendeu...

- Espero que não.

Resolvo sair, para não entrar em outra discussão infrutífera. Ficarei na sala da RG até as 18:30 quando volto para receber o plantão. A vontade é cobrar tudo e mais alguma coisa. Mas me controlo. Tudo tem seu tempo e chegará o tempo da cobrança.

Quando volto ao PS sou abordado pelo Dr G:

- J, eu posso te pedir um favor?

- Pois não?

- Eu sei que vocês são proibidos de preencher pedidos...

- Proibidos, não. – interrompo – Nós preenchemos quando queremos. Ou seja, não é nossa obrigação, mas conforme a nossa disponibilidade, vontade e relacionamento com o médico podemos fazer.

- É por que eu deixo assinado e ninguém preenche.

- Como disse, não é minha obrigação. Fazer de vez em quando, tudo bem. Fazer todos os dias, não.

- Como não sei o nome do paciente que vem para cá hoje, você pode preencher para mim.

- Posso.

Recebo o plantão, quatro graves na emergência. As pacientes dos leitos 01 e 03 estão piores. No leito 02 um rapaz, 30 anos vítima de um tiro disparado durante um assalto. Teve sorte. O projétil entrou pelo lado direito do tórax e saiu antes de atingir algo mais que o pulmão. Está com dreno, mas está bem. Deve se recuperar logo. Anoto que devo cobrar reavaliação para tirá-lo da emergência. Em outro serviço ele ainda ficaria em uma semi intensiva pelo menos. Mas aqui ele vai pro corredor.

Começa o plantão, chega o AN, parceiro desta jornada. Estamos em três hoje. Parece que o RN, não vem. Suas férias terminaram ontem.Creio que Lee não quer ficar mais aqui. Não o culpo.

Recebo a primeira e única viatura do resgate esta noite. A Sgt AD, uma destas pessoas de sorriso fácil e que nos cativam no dia-a-dia, traz um senhor quarenta e poucos anos foi atropelado por uma moto. Avaliado pela equipe de cirurgia que pede raio x. Um dos residentes (agora temos residentes de cirurgia) pede para que o raio x de abdômen seja feito em pé. Chamo-o de canto:

- Vocês são...

- Residentes da cirurgia...

- Ah... E querem o raio x em pé?

-Sim. É melhor para avaliar trauma abdominal.

- Ótimo mas e a lesão na coluna vertebral?

- Ele tem lesão na vertebral?

- Não foi para descartar isto que vocês pediram este monte de raios x?

- Puxa, obrigado. Não tinha pensado nisto.

- Tudo bem. Depois, se você ainda quiser levamos ele ao raio x de novo.

- Obrigado pela dica.

Encaminho o paciente, com a ajuda do AN. O RN não veio mesmo.

Volto ao PS, a AB aparece. Quer que mandemos funcionários para assistir uma vídeo conferencia sobre Hipertensão Arterial.

- Não posso mandar ninguém, e muito menos ir.

- Tem que mandar.

- Não vou mandar e também não vou.

- Não está corrido.

- Você acha que uma pessoa no corredor não está corrido?

- Uma? Por que?

Finjo que não escuto. Volto ao trabalho. Cinco ou dez minutos mais tarde a paciente do leito 01 entre em PCR, começamos as manobras. Até achamos que ela fosse voltar. De fato voltou a ter pulso por três ou quatro vezes, mas não deu. Perdemos mais uma. Quando estou saindo da sala de emergência, dou de cara com a filha que chega para visitá-la. Que situação angustiante. O médico ainda não deu a notícia do óbito à família e ela ali, querendo entrar.

Coloco-a em uma cadeira, chamo o médico. Após algum tempo de espera a notícia é dada. Espero que a filha se despeça da mãe e peço para os estagiários preparem o corpo. Eles acham o máximo. Eu preferiria estar dando banho nela.

Vou jantar sozinho. Detesto isto. Mas a comida até que não está ruim.

Teremos ainda um caso psiquiátrico. Uma garota de 17 anos em pânico. Grita que está sendo perseguida. AN e eu a colocamos em uma cadeira de rodas e levamos à psiquiatria. Foi atendida e duas horas depois a encontro em frente ao consultório do clínico, na cadeira de rodas, sonolenta. Tem outras queixas, mas como será avaliada dormindo? Recebeu alta. Retorno se necessário.

Na emergência, P e N estão adiantando o serviço. Transferimos um para UTI, uma para SEMI e agora só falta o baleado que vai para a clínica. Como uma foi a óbito temos 04 vagas na emergência.

No corredor um paciente destes costumeiros que estão todo plantão no hospital reclama. Quer que eu puncione sua veia por que nesta m*** só tem incompetentes. Recuso-me a fazê-lo. Ele precisa aprender a respeitar os profissionais.

- Depois que o Auxiliar tentar e não conseguir, se precisar ele me chama. Antes disto não vou fazer.

- Esta m**** só tem incompetente.

Aproveitei e usei uma frase do LN:

- Se aqui é m**** você é lombriga. Por que vive aqui. E quem vive na m*** é lombriga.

Gritou, esperneou e desapareceu. Nem sei se foi medicado. Mas sei que ele vai voltar amanhã ou depois. Ele sempre volta.

Outro paciente está dando um trabalho danado. Com diarréia ele não pára no leito e cada saída da cama deixa um rastro até o banheiro. Recusa-se a colocar fraudas e agora se recusa a tomar banho também. Depois de alguma insistência levo-o para o chuveiro e coloco fraudas. Vai ficar tranqüilo a noite toda.

Sinto dores no estômago e nas pernas. Peço para a P me medicar. Ela faz. Estamos no postinho bate papo risadas. Falamos sobre tudo, principalmente sobre a escala do próximo mês. Poucos funcionários, muito trabalho.

A noite transcorre sem maiores problemas, não tivemos resgates, SAMU, bombeiros, nada. O corredor fica relativamente vazio. A emergência completamente vazia. A coisa ruim disto é que a AB vem bater papo e o assunto é sempre “muito interessante”.

Fim de plantão. O AN faz o censo e prepara a passagem do plantão.

- Ainda bem que estou de folga no próximo, diz ele.

- Eu estarei aqui.

- Então até o próximo

Na saída conversamos com outros enfermeiros. O assunto: falta de funcionários. Todo mundo está estressado, cansado e com os nervos à flor da pele. Mas não há o que possamos fazer agora a não ser esperar.

- Bem vamos embora que amanhã tem mais.

- Até amanhã

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