Como sempre cheguei bem cedo. Fui direto ao Pronto Socorro, cumprimentei os colegas e resolvi estudar um pouco até dar a hora de assumir o plantão. O PS está relativamente vazio, mas muito confuso. Vejo muita gente andando para lá e cá e o trabalho parece que não flui. Bem, isto não de minha conta, ainda. Vou para a sala da Gerencia abra a porta e ficarei lá até as 18:30 quando saio para receber o plantão.
A falta de funcionários começa a apresentar suas conseqüências, há muitos “rabos” deixados de um plantão para outro. Um exame aqui, uma anotação ali, um procedimento acolá. Acho que minha expressão, ao receber as informações, denuncia o desagrado. Tanto que a colega tenta justificar “Estamos com poucos auxiliares”, diz. Em resposta ouve um “Então temos que priorizar, tem coisas que não podem ficar para depois”. Referia-me a uma paciente que aguardava ser admitida desde as 17:30 com diagnóstico de hemorragia digestiva. No restante era a mesma coisa: pacientes aguardando procedimentos, admissões e as salas de emergência em desordem, repetindo o que já ocorrera nos últimos dias.
Recebo o plantão. Na observação feminina uma paciente de 86 anos está com desconforto respiratório importante. A colega da tarde relata sua preocupação com a mesma e eu completo: “Não demora e teremos uma PCR”. Maldita boca. Mal assumimos o plantão e a MN, auxiliar escalada na feminina me chama. A paciente está parando. Parou.
Iniciamos as massagens e levamos para a emergência. Chega a AC, clínica da noite. “Não vamos reanimar” Paro as massagens e peço para as meninas, P e Ns, monitorizarem a paciente que está de volta com pulso fraco e respiração lenta. Surpresa, o AN sente o pulso e: “Caraca, o pulso está forte pra caramba”. “Se não tivesse visto não acreditaria”, diz a AC. “Voltar da PCR com Suporte Básico, muito bom. Não espalhem isto aí fora. Senão vai fazer fila para eu benzer”, completei. Rimos. Deixamos a paciente confortável, com pulso forte e saturação de 96%. Achei que ela iria parar de novo durante o plantão. Mas a velhinha é valente. Ficou bem a noite toda. Até começou a dar trabalho, retirando a máscara de oxigênio toda hora.
Na outra sala de emergência está um senhor de 48 anos, que há dois dias estivera no PS com dor abdominal e queixa de constipação. Recebeu lavagem intestinal e alta. Retornou em parada cardiorrespiratória. Causa: SDS (Só Deus sabe). Vamos transferi-lo à Semi-intensiva, lá receberá melhor atenção.
Por volta das 21 horas o ED me chama, a paciente da hemorragia digestiva está vomitando sangue. Ao avaliar percebo que o sangue não é gástrico. Tem catarro e bolhas de ar. Isto é indicativo de hemoptise. Chama os médicos, novo raio x. Uma imagem estranha aparece. Ninguém sabe o que é. Durante uma hora ou mais, várias pessoas viram o raio x sem conseguir dar uma opinião convincente. Não sabemos o quem ela tem e não vamos descobrir hoje. Está estável, os sinais vitais não indicam nenhuma alteração preocupante. Mas estou curioso. Vou acompanhar este caso. Depois eu conto o que era.
Plantão tranqüilo, com exceção dos rabos deixados o que irrita muito o AN. Ele está estressado. Faltou sangue para um. Sonda que diz ter sido passada, mas não foi, em outro. Pedido de NPP errado em outro. Tento acalmá-lo dizendo que é assim mesmo, que estão em poucos, nada. “É muita coisa” reclama.
Hoje tive tempo de ser enfermeiro. Avaliei os pacientes, conversei com eles, colhi histórias, fiz evoluções. Há muito não tinha tempo para fazer isto da forma que deve ser feito. Na madrugada chega o SAMU, paciente psiquiátrica, quebrou uma porta de vidro. A psiquiatria medicou e mandou para nós. Tem um corte no dedo anelar, abaixo de um anel de metal que precisa ser retirado. Avalio e decido retirar. O cirurgião intervém: ‘“Não vai sair, chame a manutenção”. O VN, dando uma demonstração de confiança pergunta: “O que você precisa?”
“Fio 2-0 e dersani” Não tinha dersani. Usamos óleo mineral e pronto. Anel fora, dedo suturado, cirurgião com cara de espanto e paciente no banho. Uma hora depois ela está na psiquiatria. Limpa, calma e em melhores condições do que nos foi enviada. Plantão tranqüilo sobra tempo para dar exemplos.
Um paciente com gastrite erosiva se revolta, quer ir embora. Pede para tirar o soro. “Estou morrendo de fome aqui”. Converso, oriento. Ele se convence a aguardar o dia amanhecer. Plantão tranqüilo. Temos tempo para ter paciência.
Café da N no postinho. Bate papo, risadas, troca de experiências. Cada experiência...
Fim de plantão. A RS faz o censo.
- Está aí amanhã? Pergunta o AN.
- Sim. Respondo
- Que bom. Então até amanhã.
-Até amanhã. Plantão tranqüilo…

Veja, não preciso provar que sou sua amiga né??? Mas, prefiro os plantões "punks"... não leve a mal tá? "Gosto de ver sangue!!!"
ResponderExcluirEu sei. Pimenta no olho do outro é pimenta. Mas dá pra dar risadas.
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