terça-feira, 22 de março de 2011

Plantão de segunda-feira. Simples como deveria ser

PRONTO SOCORRO

São seis da tarde. Está frio, mas decido tomar um banho pré plantão, pois a capa de chuva deixa um cheiro desagradável no corpo. De banho tomado vou para o Pronto Socorro. Ainda no corredor da radiologia, encontro a BT, enfermeira diarista, acompanhando um paciente que me previne da “loucura” que vou encontrar.

Paro na porta e respiro fundo. Pensei que estaria pior. A BT exagerou. Está desorganizado, mas não tão cheio quanto os outros dia. Vou para a escala, difícil, mas ainda melhor que os últimos plantões. Escala pronta, recebo o plantão. A Emergência está cheia e desorganizada. Quatro pacientes, mas um me prende a atenção. Um senhor de 80 anos com respiração difícil, máscara de oxigênio a dez litros e saturação em 96%. Na outra maca temos uma senhora com hemorragia digestiva e do outro lado mais dois pacientes um com insuficiência cardíaca e outra com dor torácica “a esclarecer”.

O LN chega. Somos nós dois hoje. Ele está cada dia melhor. Mais solto e resolutivo e com iniciativa. Muito bom.

O corredor esta cheio, mas ainda conseguimos ver macas vazias. Duas ou três, mas existem. Os auxiliares começam a chegar. Não teremos faltas hoje. Isto deixa a escala tranqüila. Apertada, porém tranqüila. Se cada um fizer o seu o plantão vai ser bom.

O RP, enfermeiro da tarde, me informa da dificuldade em obter acesso venoso em um paciente que chegara à tarde. Vou avalia e fico estarrecido com o que vejo. O paciente é literalmente pele e ossos. Não encontro músculos ou gordura nele. Fétido, com feridas por todo o corpo, desidratado e aparência cadavérica. Lembrou me, sem exageros os corpos mumificados das aulas de anatomia. Se bem que aqueles tinha músculos. Após tantos anos vendo isto ainda consigo me indignar com o descaso pela pessoa humana. Depois de quase meia hora consigo uma veia para que possamos hidratá-lo. Vou até a prescrição médica e outro susto: nada. Apenas pedidos de exames e uma prescrição “feijão com arroz”. Isto me deixa chateado, o paciente não foi visto. Apenas o papel.

Chega o VL, clínico da noite.

-Boa noite, tudo bem?

-Boa noite, VL. Preciso de dois favores.

-É só dizer

-Uma prescrição decente para aquele paciente (aponto o paciente que acabo de instalar o acesso venoso) e uma avaliação para o paciente da emergência.

-Por que decente?

-Olhe e me responda.

Ele pega a prescrição, murmura um palavrão e após avaliar o paciente refaz.

-Mais alguma coisa?

-Você ainda não acabou o que te pedi.

Vamos para emergência. Hoje estão a P e RS, excelentes. A P está ficando melhor na emergência, ainda precisa praticar a organização. Mas isto é coisa de tempo. Vai bater cabeça mais umas vezes e depois encontrará sua forma de trabalhar. A RS ainda está no começo. Acho que devemos deixá-la mais um tempo na emergência para treinamento. Emergência é planejamento, conhecimento e método. Devemos estar preparados o tempo todo para fazer algo que talvez não façamos. Devemos ter tudo à mão. Emergência não quer dizer correria e sim rapidez. E elas estão no caminho certo.

O Sr de 80 anos está com respiração horrível e após algumas tentativas não invasivas o VL decide pela intubação. Fico feliz ao ver a P com o cadarço para fixação do tubo, pronto para ser usado, na mão. Na última vez ela colocou o rolo fechado na bandeja. Logo após a intubação nosso paciente pára. Agimos rápido, revertemos. Mas algo não está bem. Ele tem pulso, mas os pulmões estão com muita resistência. Sua saturação não sobe. Ele vai parar de novo e depois de uma hora de tentativas será declarado morto. A Família ainda espera do lado de fora. Estamos no horário de visitas. Outra coisa ruim. Estamos ali prestes a comunicar a alguém que seu parente morreu e não temos sequer um local adequado para isto. É no meio do corredor, perante todos.

A família recebe resignada a notícia do óbito. Mas uma das filhas diz que não sabe se quer o atestado de óbito. Cogita a hipótese de uma necropsia. Isto travará todo meu trabalho. Enquanto não se decide o que será feito, atestado ou verificação de óbito, o corpo fica na sala de emergência aguardando o preparo adequado. Após esperar por mais de uma hora, chamo os parentes e cobro uma solução. Decidem pelo atestado. P e RS preparam o corpo e encaminham.

Entre o óbito e o preparo, levei a P para jantar. Comemos algo que não sei o que é. Ela falou algo como carne ao molho. Sei lá. Conversamos, rimos e voltamos ao PS.

Procuro pela N, ainda não tomei café hoje. Ela está preparando outro. É a segunda garrafa da noite. Em noites frias o café vai mais rápido.

A Noite vai tranqüila. Nenhuma emergência. Nem SAMU, nem bombeiros. Somente os pacientes da porta mesmo.

Uma garota de 19 anos com taquicardia, tomou ancoron, reclamou das instalações e alta.

Quatro da manhã chega uma mulher, 42 anos, dor abdominal. Ela aparenta ter bem mais. A ML dispara para nossa diversão.

- Caramba, mais nova que eu. Sou gostosa pra caramba (risos).

Vou admiti-la, punciono sua veia, medico, oriento. Faz dois dias que está com dor. A filha a acompanha. Típica família evangélica pentecostal (aprendi a identificá-los com a HL) cabelos compridos, pouca preocupação com a aparência e saias longas. Após as orientações a filha vai embora e com sua saída a mãe fica menos solicitante. Segue o plantão.

Não teremos novidades. A correria do início foi recompensada por uma paz do meio para o fim do plantão. Sem tumultos, sem emergências, somente rotinas.

Fim de plantão. O LN faz o senso, conversamos sobre tudo. Rimos.

- Você está aí amanhã, pergunto.

- Não, também tenho folgas. Domingo estaremos juntos.

Está acabando. Troco de roupas e deixo o plantão para o LN passar.

Os “meninos” acabaram de passar o corredor.

-Sobrevivemos J.

- Então até amanhã.

Até amanhã.

2 comentários:

  1. Uma noite tranquila de vez em quando é bom né? Adoro o blog. Visito Todos os dias

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  2. Hummm, parece sadismo mas eu gosto quando vcs ralam mais kkkk. Mas sou fã do blog. Já está em favoritos

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