domingo, 6 de fevereiro de 2011

Terceiro dia

Seis e meia da tarde, chego ao Hospital, estou “atrasado”… Registro minha entrada no cartão de ponto e me dirijo ao vestiário, está calor… Gostaria de um banho antes, mas não há tempo, “Alguém pode me dizer pra que eu carrego uma mochila deste tamanho?”, nunca uso o que trago e ainda por cima é um peso enorme.

Chego ao Pronto Socorro, faço a escala dos Auxiliares, está difícil, dois setores descobertos e o corredor com apenas três: Ad, N e Ed, “pelo menos são três bons”, penso. Coloco o quarto na escala: Rd, mas algo me diz que ele não virá… Como eu sei? Apenas sei.

Recebo o plantão, mudaram alguns pacientes, mas outros já estão me cumprimentando pelo nome devido ao tempo de “internação”, Pronto Socorro público; as pessoas ficam no PS por dias, na maca. Não há vagas nas enfermarias reclamamos, mas sabemos que não vai mudar.

Nenhuma novidade no recebimento de plantão. Faço as críticas de sempre, paciente sem medicação, sem avaliação… Aff, todo dia a mesma coisa. Decido não alongar a conversa, beijos, tchau… Até o próximo. Chega o Ln, enfermeiro, meu parceiro de hoje. Gente fina, bom moço

Começa o plantão, ainda tenho que resolver dois problemas: os isolamentos uma paciente com meningite e outra com tuberculose, decido deixá-las aos cuidados dos responsáveis pelas observações feminina e masculina respectivamente, não há outro jeito.

O Ed me procura, seu paciente tem enteroclisma de 04 em 04 horas, não tem onde fazer, corredor lotado, Nem biombos existem… Converso com o SH, cirurgião de plantão, discuto a necessidade em virtude do diagnóstico do paciente, pancreatite, o mesmo não “arreda pé”, quer porque quer o enteroclisma, outro cirurgião, SP, até tenta intervir, mas sem sucesso. “O cara chato”, não há o que fazer, o Ed arruma um jeito e inicia o procedimento (não me pergunte como).

Tem uma sonda nasoenteral para passar na emergência, procedimento para enfermeiro, peço para a D preparar o material “Não vou preparar nada, cada um com seus problemas”, ela diz, fingindo falar sério. “Quando você resolver o teu problema de preparar o material para mim, você me chama”, respondi sorrindo.

Durante o procedimento uma surpresa, descobri que o V já é Enfermeiro há um ano apesar de trabalhar como técnico, no Hospital. Isto explica sua diferenciação profissional, sonda passada, testada radiografada, liberada. Adoro quando tudo sai como nos livros.

Uma jovem, entra. Está engasgada. Faço as manobras de praxe…, nada. Avaliação da cirurgia, endoscopia, estava no esôfago. Como alguém engole um pedaço de carne deste tamanho sem mastigar? Resolvido. Esta vai dormir em casa

Dor aqui, nervoso ali, e a noite vai passando, penso em dizer que a noite está calma mas resolvo não falar nada. Não sou supersticioso, mas prudência nunca é demais. Gozado, nem um bêbado hoje… estranho.

Meia noite, alguém me chama na emergência, o paciente tentou descer da maca e caiu. Tem um ferimento na testa. “Caramba, estava tudo tão bem…” Chamo o cirurgião, SP vem realiza a sutura na testa do paciente e pede um “raio x”. Nada mais grave. Converso com a D e o V, escalados na emergência, quero entender o que houve… Isto é muito ruim.

Mal saio da sala, o V me chama; “Enfermeiro, parada”. Volto para a Emergência, o “SAMU” trouxe um rapaz, 19 anos. Encontrado agonizando em via pública, em parada cardiorrespiratória há 15 minutos, tem um médico com eles. :

- Já entubou?, pergunto.

- Não, responde C, enfermeira do SAMU.

- Então você instrumenta a IOT, eu punciono o acesso

- OK.

-Entubado! Anuncia o médico.

- Acesso pronto

Chegam os médicos da “casa”: O SP e a LL, clínica, discutem de quem é o paciente:

-Ele bateu a cabeça, é teu.

-Ele desmaiou, antes de bater a cabeça, então é teu..

Olho em volta e solto o meu sarcasmo: “Ele caiu do avião, e está parado, portanto é nosso”. O médico do SAMU, diz sorrindo a C, “Nossa, teu colega é curto e grosso”.

Após 45 minutos de tentativas, perdemos o paciente, mais novo que meu filho. O corpo vai para o IML. Vamos conversar com a família, a LL pede que eu fique a seu lado, está preocupada com a reação… Frieza, não houve nenhuma reação normal. A namorada, com que ele mora há quinze dias e cuja saia tem no máximo um palmo de comprimento, sequer mudou a expressão. O tio, idem. A mãe ainda não sabe…

A N vem me buscar no corredor: “Vai tomar um café…”, delícia. Pensei que ela não viria me chamar…

Duas da manhã, a paciente que entrou com Edema Agudo de Pulmão no plantão anterior, chama por ajuda. Chego no quarto e, “DROGA”, outra paciente caiu, uma senhora de 74 anos, resolveu descer da cama e levou junto, monitor, bombas de infusão e suportes de soro. Coloco-a na cama. Peço para que “amarrem-ano leito”. Olho para a paciente que chamou e brinco: “Nossa! A senhora fica mais bonita com a dentadura”, ela ri. “Obrigado enfermeiro, você salvou minha vida aquele dia” – PRONTO. Ganhei o mês.

Quatro horas, SAMU, de novo. Jovem, 20 anos, acidente de moto. Muito sangue, mas aparentemente está bem. O rapaz passeava de moto as 04:00 horas da manhã. Rotina de trauma, reavaliação… Tudo bem, mas vai ficar em observação e este pé ficará inutilizado por algum tempo

O EM, ortopedista, pede ajuda para um drenagem de abscesso, sem novidades…

Fim de plantão… Bate papo com o Ln:

- Que plantão, enfermeiro (ele sempre me chama de enfermeiro)

-Foi f*** mas sobrevivemos.

-Estamos passando com macas vazias, milagre. Comemora Ln.

-É. Nem “Cátias” nós tivemos. Só não gostei das quedas… Enfermeiro se sente mal quando um paciente cai. É como uma mãe que vê o filho cair do berço…

-Mas no fim, tudo ficou bem.

-É tudo sempre termina bem. Se não estiver bem, não terminou ainda.

Até amanhã…

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5 comentários:

  1. Engraçado quando um paciente cai no plantão, normalmente leva outro junto, e a sensação é ruim mesmo, parece que deixamos de fazer algo! O que tenho observado de auxiliares e tecnicos que se formam é justamente o contrario, ficam mais resistentes ao trabalho, acredito que seja por ansiedade de conseguir uma nova oportunidade, que muitas vezes demora ou não chega!

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  2. Então Ale, também conheço alguns assim. Mas este colega,(o V) é realmente bom. Faz o trabalho dele com dedicação e meticulosidade.

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  3. Nossa, nem me fale em queda de pacientes. Parece dominó, um cái eu já saio contendo todo mundo rsrs

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  4. eu tranquei a faculdade de matematica por que minha vocação sempre foi cuidar das pessoas é uma profissão muito bonita a enfermagem espero qd me formar tenha a mesma dedicação que você tem.

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  5. gostei do seu blog...sou enfermeira e pretendo trabalhar na área de urgência e emergência. Vejo pelo seu texto que o negocio é agitado...

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