terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

QUARTO DIA - "O PLANTÃO"

 

correria Chego cedo, mais uma vez, preciso conversar com as chefes a respeito das quedas de meus pacientes no dia anterior. Como eu imaginava, tem conversa a respeito pra todo canto: Como isto pode acontecer? Onde estavam os auxiliares? Por que o paciente não estava amarrado? Etc...

Dadas as explicações a quem de direito, vou para o vestiário: hoje ninguém impede meu banho, o calor está de matar... Enquanto tomo banho ouço um temporal lá fora e logo penso que ele trará consigo algumas faltas ou atrasos ao plantão. Mas ainda é cedo pra se preocupar com isto e termino meu banho tranquilamente.

Volto a sala da chefe para me despedir e a gerente do PS, Gr, me previne: "Hoje aquilo está bombando". Pra chefe achar que está bombando é porque já bombou há muito tempo. Pronto ou não, lá vou eu. No caminho encontro o enfermeiro J, paro para cumprimentá-lo com um beijo e as pessoas que aguardam no raio x olham com caras de espanto, trocamos algumas palavras e ele me previne do que encontrarei na emergência, além de me perguntar o que aconteceu no plantão para que três pacientes caíssem; "C******* já aumentou um?" Chego ao PS.

Se alguém já teve uma visão do caos, muito provavelmente viu o PS hoje, lotado, com pessoas para todos os lados e cantos e macas insuficientes.

Vamos à escala, "não está fácil", mexe aqui, arruma ali e pronto. “Vou conseguir desagradar todo mundo então está justo”, brinco comigo mesmo. Recebo o plantão, sem grandes novidades, queixas e comentários de sempre, observações reincidentes, chegam os enfermeiros An e Ln, companheiros de hoje e vamos começar a brincadeira...

Logo no começo percebemos que o Rd vai dar o cano de novo, isto só complica um pouco mais as coisas. Minha mão está "inchada" é a artrite, o tempo mudou e minhas articulações são ótimos instrumentos meteorológicos, meu joelho direito também faz a sua parte.

Como estamos em poucos, todo mundo se ajuda. O An, se envolve com as transferências, precisamos de espaço para trabalhar e diminuir o número de pacientes, mas pra cada um que sai outro está na cadeira esperando. As macas não chegam a ficar vazias.

Um paciente, impaciente, aguarda medicação: jovem, vinte e poucos anos, viciado em drogas, tentou suicídio ao pular de uma passarela na Dutra. Conseguiu dois tornozelos quebrados e uma internação para aguardar cirurgia... No corredor.

No corredor estão Fn, P e N, correm pra lá e pra cá. Tentam alguma metodologia em seu trabalho que sempre é quebrada, por um pedido de ajuda do colega ou meu. V, e Ns estão na emergência. Quatro pacientes para quatro macas, mas está calmo. Ns prepara o material e me chama para realizar as sondagens prescritas. Chamo a P e peço: "Prepara um tilatil com dipirona para seu paciente." Ela sorri e diz "Pro meu paciente? Tudo bem." Realizo as sondagens, minha mão dói muito.

Oito horas, mais ou menos, chega uma ambulância da Infraero, um rapaz de aproximadamente 20 anos. Queda de moto. Nada mais grave, pode esperar. Mas vai dizer isto pra ele. A cirurgiã de plantão, JL moça dedicada e sempre de bom humor, me pede para adiantar a radiologia. “A porta está cheia, vou demorar um pouco”. A demora faz com que a enfermeira que acompanha o paciente preste atenção em nossa dinâmica, ou loucura  segundo ela. “Não agüentaria isto nem um mês, você está de parabéns. Raio-X pronto. Avaliação cirúrgica. Alta. Até que foi rápido

Outra viatura, SAMU, senhor 64 anos, alcoolizado, espancado pelo filho. Resultado: fratura de fêmur. Avaliado, medicado, internado, vai aguardar cirurgia. Mais um no corredor.

Não demora e outra viatura do SAMU encosta, outro senhor 75 anos, encontrado pelo filho caído em casa. Sofre de mal de Alzheimer e agora tem o fêmur esquerdo quebrado, após uma hora consigo colocá-lo em uma maca e liberar o SAMU. Sinto mais dores, P não conseguiu fazer minha medicação, ainda.

O An está a todo vapor. Conseguiu transferir um monte de gente, se não sobram macas também não faltam, estamos equilibrando a balança.

Uma acompanhante me aborda. Seu... , parente, esta precisando receber a medicação. Espera há uma hora. Pego a prescrição, medico o paciente e ela se retira. Mais tarde chega a esposa do paciente, procurando por ele. “Quem te trouxe", pergunta ela ao marido que após responder "Vim só", coloca o indicador na boca, a me pedir segredo. Só posso sorrir e balançar a cabeça. Meu joelho está me matando...

P me chama: "A medicação está pronta, só falta o paciente", sento um pouco. Aproveito e tomo o café da N. P punciona e medica. Mãos de fada... Felizes seus pacientes e eu, lógico.

A dor está passando... Já não sinto o joelho e a mão diminuiu o inchaço.

Meia noite, entra um paciente em cadeira de rodas, pálido, sudoreíco, com a mão no peito. Sente muita dor. Levo-o para a sala de emergência, monitor, oxigênio, veia, exames, eletro... Chega o HB, clínico, jovem bem disposto, começa a examinar. Neste momento entra uma maca na sala: Um dos pacientes do corredor acaba de ter uma parada cardíaca, voltamos para ele: Eu começo a massagem, o HB se prepara para entubar. "de primeira, hein?" provoco. "Sei não". E ele entubou de primeira... Massagem.... Massagem... Medicação e nosso paciente voltou. "Valeu garoto" e o toque das mãos fechadas diz o que pensamos.

Voltamos ao paciente da dor no peito. ECG normal. Vamos aguardar as enzimas, que também viriam normais, mas vai ficar para investigar (o que?). Ele, o paciente, diz: “Nossa, hoje eu vi algo que nunca vi na vida, como vocês se dedicam... Parabéns! Nunca vou esquecer o que eu vi aqui”. O orgulho toma conta da equipe, reconhecimento faz bem de vez em sempre.

Duas e meia da manhã, chega um paciente no consultório, andando e com muita dor. Jovem, 20 anos. Queimaduras em todo corpo, jogou álcool e ateou fogo em si mesmo. Motivo: é estrábico tem vergonha de seus olhos. Os pais estão inconformados. Corre, retira roupas, punciona veia, faz sondagem, medica com analgésicos, morfina, dipirona e vamos lavar e fazer curativo. Lava, faz curativos. 50-60% do corpo queimado. Quase tudo segundo grau... Ele terá mais problemas com a aparência agora. Desde os tempos de auxiliar eu não fazia curativos em queimados... Ainda sei... Durante o curativo observo um ferimento diferente: “Você se furou com faca?” “Sim, responde o paciente queria me matar”. A JL avalia, e sutura. Como entender...

Quatro e cinqüenta. Ainda estou escrevendo os relatórios da parada cardiorrespiratória e do queimado o An se prepara para levar um paciente para cateterismo em outro hospital e me pergunta: “Está aí no próximo?” -“Não, estou de folga” - “Caramba, vai ser f***. “Relaxa, você agüenta a saudade”.

Até as sete, sem novidades. Sete horas, o Ln está arrumando o senso. “E ai Ln, o próximo vai ser pior” “ Não estou nem aí, estou de folga também” rimos e observamos os colegas chegarem para receber o plantão. Alívio.

Notou que não teve bate-papo no postinho?  Mas foi “divertido”.

Amanhã estou de folga...

Até o próximo

6 comentários:

  1. Sem quedas, e com muitas soluções! Boa folga!

    ResponderExcluir
  2. Imagino pior que o plantão só foi mesmo explicar para a chefe as quedas e ainda aguentar as piadinhas dos colegas.

    ResponderExcluir
  3. Alessandra, to precisando... rs
    Com certeza claudia, com certeza

    ResponderExcluir
  4. Meu!!! Istoé muito bom, queria escrever assim.

    ResponderExcluir
  5. Este lugar existe. Isto acontece mesmo ou é só ficção?

    ResponderExcluir
  6. Descobri o blog por acaso mas já virei fã...
    Adicionado aos "favoritos"! Hehehe

    ResponderExcluir

Faça um ENFERMEIRO feliz. Comente