sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

DIA 02

Seis da tarde, já estou no Hospital, está chovendo então venho de moto para não me atrasar. Ninguém entende muito isto, mas o desconforto é compensado pela rapidez no trânsito. Vou “enrolar um pouco, muito cedo para ir ao PS…

Seis e meia, chego no PS, de cara encontro o Jq, Enfermeiro, meu parceiro de plantão até 31 de dezembro, agora está de dia novamente… comprimento-o com um beijo e as pessoas olham abismadas. Por que dois homens não podem se beijar? Trocamos algumas palavras sobre sua decisão de mudar de turno e recebo o plantão. Está melhor que o último, menos cheio. Mas não tem macas disponíveis no corredor. Na emergência sim, duas macas… já é alguma coisa.

Faço a escala dos Técnicos e Auxiliares, hoje sem grandes problemas temos cinco no corredor para vinte pacientes… cumprimentos, beijos, todo mundo está chegando, se não houver faltas será ótimo.

Entram os soldados do corpo de bombeiros, na maca uma paciente que recebera alta há 02 horas, foi levada para casa e a família diz que ela caiu de novo, caso estranho. Ela está dormindo e roncando alto. Não acorda. Verifico os sinais vitais: nada de anormal, peço para que chamem o cirurgião de plantão… Chega o Rn, recebe o plantão das observações, são 12 leitos e um isolamento,

Sete e dez, uma senhora entra desesperada pela porta da observação, em seus braços uma criança, cianótica (roxa) entrega para o Rn, que me passa e entra atrás de mim na emergência. O que aconteceu?  “Não sei, ele mamou e ficou assim” é a resposta da mãe que eu jurava ser a avó. Peço uma sonda fina. Não tem. ‘Preciso aspirar a criança, traga um cateter de O2”  chega o cateter, aspiramos e o bebê começa a chorar. É lindo ver uma mãe sorrir, quando seu bebê chora. “Ele está bem?”  , “Aparentemente sim, mas precisará ser avaliado pelo pediatra em outro hospital”.  “Quantos filhos a Sra. tem?” “dois mais o meu filho mais novo, acima deste tem 22 anos… perdi a prática rs”  Entra o V, técnico de enfermagem novo no PS, primeiro plantão comigo… “Boa noite enfermeiro”. O médico chega é o Lb, boliviano, atencioso, ouve a história e concorda comigo em estabelecer um acesso venoso e encaminhar ao Hospital da Criança. Fazia tempo que eu não furava um bebê, ainda não perdi a prática.

Sete e vinte e cinco, ouço gritos no corredor..  uma senhora entra na emergência?: Respira mal, sua muito, dedos e lábios cianóticos, está muito agitada. O V, me ajuda a colocá-la na maca, já eram as duas vagas… chega o Ad, auxiliar experiente, equipe da emergência completa. Tento auscultar (ouvir) os pulmões, não gosto do resultado. “Parece um  edema agudo, chame o clínico”, solicito. Lb retorna, ausculta, iniciamos o tratamento, chega Al, clínica, jovem, atenciosa. Assume o caso. Medica, colhe exames, posiciona. Retiro as próteses. “Acho que vai entubar…” A pressão também está muito alta 22x16, mais medicamentos… A pressão diminui, a oxigenação parece melhorar a paciente começa a se acalmar… Errei, não vai pro tubo, penso. Uma hora e meia depois está estabilizada. Comprimento os meninos. Ad, dispara “Nós é f…” Respondo com um soco em sua mão.

Nove horas, chega o Rd, técnico de enfermagem e acadêmico de odontologia, atrasado. Tinha avisado que iria atrasar e já estavam rolando apostas de que ele não viria. Eu gosto dele, atencioso, profissional e engraçado, devia fazer humor “stand up”.

Plantão tranquilo: decifra uma letra de médico aqui. Explica um procedimento alí. Atende um paciente acolá. Chegam mais duas crianças, queda e fratura, nada grave (para nós, as mães estão desesperadas) atendidas e transferidas.

Dez horas: Observo com o Rd, uma paciente que volta do banheiro, branca como cera (cera é branca?), peço para a P, aquela que eu queria que fosse minha filha, verificar a pressão: 12x09. O Rd sugere que ela seja colocada em “TRENDELEMBURG”, respondo: “Não! É melhor levar para a emergência, instalar um acesso e elevar as pernas” O Rd, ri e sai falando: “Chefe é chefe, só pra não concordar comigo…” (Trendelemburg é uma posição em que as pernas ficam acima do resto do corpo).

Tem duas vagas na semi-intensiva, transferimos dois pacientes para lá e a emergência volta a ter três macas vagas. Difícil é explicar para os dois pacientes que estão nas cadeiras que eles não podem deitar nelas… E o pior elas vão ficar vazias até o fim do plantão. Mas como saber?

Ab, enfermeira que faz as vezes de supervisora do plantão, me cobra a remoção de um paciente da semi-intensiva para realizar um cateterismo em outro hospital… Respondo que o paciente está grave, portanto precisará de ambulância UTI e acompanhamento médico, ela não concorda. Bato o pé que não vou liberar o paciente se não for nestas condições salvo se um dos médicos atestar em prontuário quer ele pode sair em ambulância comum… Ela tenta, tenta, tenta e não consegue. Os médicos não querem se arriscar… O paciente não sairá esta noite… “Isto vai dar conversa…”, penso.

Madrugada, bate papo no posto, risadas o Rd é muito cômico. Assuntos variados. A D não agüenta de tanto rir das performances do humorista do plantão… O café da N, é uma delícia… Acho simpático ela sempre me faz dar uma parada para o café.. às vezes até posso ir mas fico esperando ela me “buscar”… Sou manhoso e gosto de atenção.

O Rd pede ajuda para trocar um paciente, vamos Mc, auxiliar muito bonita e competente, e eu. Me assusto com o que vejo. O paciente tem as costas toda ferida, úlceras por pressão. Ele é caquético, peço material para curativo: somente soro e gazes (é o que tem). “Não é possível, pelo menos “dersani”, tem que ter” Não tinha. Aquela sensação de impotência toma conta de mim. A vontade é largar tudo. “O que eu estou fazendo aqui?”  - “Tudo bem, vamos fazer com o que temos”,  - é o melhor que podemos fazer agora.

Voltamos para o posto. Nossa, como temos assunto!!!!

Fim de plantão, trocas de cama. Medicação… arrumações…

O Rn está fazendo o senso (é o segundo plantão que ele faz o senso).

“Está pronto, é só passar e ir pra casa”, ele diz

“Você está aqui amanhã”, pergunto.

“Não, estou de folga”

“Legal, bom descanso”

Até amanhã

Um comentário:

Faça um ENFERMEIRO feliz. Comente