quinta-feira, 10 de julho de 2014

Terça, depois da derrota...


Quando o trabalho é prazer, a vida é uma grande alegria. Quando o trabalho é dever, a vida é uma escravidão.”  ―  Máximo Gorki


São 17:30 quando chego à base. Este é o meu terceiro plantão pós férias. Cheguei cedo, o fato de ter jogo da seleção ajudou com que o trânsito ficasse completamente livre. 
Na base todos estavam em frente a TV, incrédulos com a surra que a seleção brasileira levava do adversário, e ainda estava 2x0...
Hoje estamos WD condutor, JL médico e eu. O plantão promete.
Como era de se esperar, com o final do jogo iniciaram os chamados e não demorou para que o suporte avançado fosse solicitado. 
O chamado dava conta de que uma de nossas auxiliares estava inconsciente. Nem preciso que o WD bateu seu record de tempo resposta. Em menos de 04 minutos estávamos no local. 
A menina havia abusado de seus analgésicos. Sinais vitais estáveis, maca e hospital para a famosa lavagem gástrica. Atendimento finalizado, retornamos a base para jantar.
Mal terminamos o jantar e ouvimos o rádio chamar pela 2027, desta feita uma colisão auto x moto, vamos nós. A ocorrência é distante e, apesar da sirene e da habilidade do condutor fico com a impressão que estamos demorando muito. Só impressão pois com pouco mais de oito minutos chegamos ao local onde um motociclista bêbado bateu de frente com um carro. Ele estava andando e confuso com o famoso olho de guaxinim  mas não dava para dizer se a confusão era pela bebida ou pelo trauma. Tivemos que protocolar em pé e ainda assim o rapaz de 40 anos deu trabalho. 
Na ambulância, acesso venoso, sinais vitais e monitorização, o JL chamou a regulação e passou o caso, trauma, Glasgow 14 está tranquilo. Vamos  para o hospital.
Já tínhamos uns tres minutos de deslocamento quando o monitor começou a disparar. O JL olhou para mim e disse:
- A frequência subiu para 170...
- C*****, o que será?
- Meu peito está doendo, estou sufocado - gritou o paciente.
Pedimos para o WD parar a viatura, verifiquei a pressão de novo:
-  240x140
- Deixa as drogas prontas - pediu o JL.
De repente o clima ficou tenso, nosso paciente começa a "afundar" na nossa frente, mnas já estamos prontos para o pior. O JL já com o material de entubação na mão e eu com as drogas prontas.
- WD, quanto tempo até o hospital - perguntou o JL.
- Quatro minutos - respondeu nosso condutor
- Dá pra fazer em dois? - insiste o médico.
- Vou tentar
- Você tem um minuto, WD - interfiro.
 No caminho o celular do paciente tocou. Atendi e informei ao irmão dele para onde o levaríamos.
O WD bateu o record de novo e logo chegamos ao hospital.
- Em um minuto J- disse o condutor com um sorriso de satisfação.
- Parabéns- respondi.
Chegamos a tempo. Se ele parar agora, já está no hospital, nossa missão está cumprida.
Passamos o caso e ainda nem havíamos embarcado quando o radio chamou novamente. Desta vez um capotamento, longe de onde estávamos.
Chegamos no local, uma senhora de 57 anos presa às ferragens. Nestas situações o que temos a fazer é esperar o bombeiros fazerem a parte deles.
Quase meia hora depois ela foi retirada do veículo e podemos fazer a nossa parte. Procolo, acesso venoso, sinais vitais e hospital. 
Estamos prontos para o próximo, que não demora. Bandidos em  fugindo da polícia bateram em um taxi. O passageiro, um estrangeiro de 32 anos foi arremessado pela janela e bateu com a cabeça na guia. Morte instantânea, seu cérebro ficou espalhado pelo chão. O motorista teve mais sorte, luxação no ombro e contusão na perna. Imobilizamos o rapaz e o colocamos na viatura dos bombeiros. Missão cumprida.
- Vamos sair daqui - pedi ao WD - está chegando a imprensa e não me preparei para a TV hoje.
Retornamos  à base. 
- Chega, viu JL. - disse eu - Você estava com tanta saudade que resolveu passar a noite toda acordado ao meu lado.
- Você está doido. Se for assim não quero mais plantão com você.
Nosso plantão acabou.
Já voltando para casa e lembrando de nossos atendimentos refleti o quanto é tênue a linha que separa a vida e a morte. Em um minuto estamos aqui, no outro...
Se todo o ano fosse de férias alegres, divertirmo-nos tornar-se-ia mais aborrecido do que trabalhar. William Shakespeare
Até o próximo

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