sábado, 26 de outubro de 2013

Sexta feira 25 de outubro. Dia da bruxa solta!!!

 

“Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo que amar e algo que esperar...”    Aristóteles

São pouco mais de 18h30min e ainda estava recebendo o plantão quando o rádio nos chamou pela primeira vez. Esta noite estamos o SL, médico, JB, condutor e eu. O JB já me acusa logo de cara:

- Fala sério J, não saímos nenhuma vez de dia e você mal pisa na base e já vemos pra rua. Vai esquentar este pé senão não entra na minha viatura.

Conferimos o endereço no guia e fomos para o local onde encontramos um senhor de 85 anos já sem vida no sofá. Nada a fazer a não ser chamar a polícia militar e “correr um DII longo”. A noite só estava começando e nós ainda não sabíamos o que nos esperava.

De volta à base, resolvo esquentar meu jantar. Se tiver uma coisa que aprendi no APH é que devemos comer quando temos a chance, pois o depois pode ser jamais.

antenaMal acabara de jantar e o rádio chama novamente, uma senhora de 86 anos com suspeita de AVE, na viatura enquanto o JB acelerava com sirene e luzes ligadas eu tentava convencer meu jantar a permanecer no estômago e não fazer o caminho de volta. Chegamos no local e minha eterna pergunta se repetiu: “Por que nunca é no térreo?”

ATRAENTEBem, depois de subir uma longa e estreita escadaria encontramos nossa vítima, deitada em uma cama, com sinais claros de desidratação. Sua filha falava mais que o homem da cobra,

- O que vocês são? De onde vocês vêm quando a gente chama? Por demora? Pra onde vocês vão leva-la?

Ela não esperava uma resposta e já emendava outra pergunta e o SL ia, pacientemente, respondendo às dúvidas e indagações da diligente filha, enquanto eu tentava auscultar a PA.

- Você não esta conseguindo porque está muito baixa. Não é? Ela tá muito mal. Vocês vão levar pra UTI? Possom escolher o hospital?

- Não minha senhora – respondi - não estou conseguindo porque a senhora esta falando demais e muito alto. Tenta ficar um minutinho só em silêncio.

Ela me concedeu o minuto pedido e consegui ouvir a PA, que realmente estava baixa: 80x40.

Avaliamos e decidimos que ela deveria ir para um hospital. O problema agora é como retirá-la e fazer o transporte até a viatura. Depois de uns segundos de confabulação decidimos retirá-la com o auxílio de um cobertor resistente e iniciamos mais uma longa descida de escadas com a responsabilidade de carregar alguém no trajeto. Na viatura enquanto escolhia o melhor lugar para o acesso venoso o SL provocou:

- Se não tiver veia pode deixar.

Olhei pra ele enquanto fazia um sinal com o dedo médio e respondi:_dedo_do_meio

- Como ela é idosa vou deixar um “18”. – o JB me ajudou a fixar o cateter e lá fomos nós. Com a filha falando de novo, desta vez na cabeça do JB.

- Por onde vocês vem? Foi difícil achar? Para onde vão levar minha mãe? E como eu faço para voltar?

Chegamos no hospital e logo percebemos que a coisa iria demorar. Não tinha macas disponíveis e o clínico de plantão estava com uma vontade de trabalhar de fazer inveja à personagem de Mazzaropi o “Jeca Tatu”.

Passamos o caso e fomos ao pátio aguardar pacientemente a liberação de nossa maca. Enquanto conversávamos observei um carro encostando e uma auxiliar de enfermagem levando um paciente até o mesmo. Aí tive a idéia!!

- Deixa que eu te ajude. - ofereci.

- Obrigada, enfermeiro. – respondeu a auxiliar, surpresa com minha disposição.

Colocamos o paciente no carro e ela agradeceu novamente.

- Obrigada, mesmo. Vou por estes lençóis no hampper.

- Deixa que eu leve a maca – respondi.

Ela agradeceu com um sorriso enquanto no meu íntimo eu comemorava o fato de ter conseguido uma maca. Liberamos a nossa e retornamos à base.

Alguns minutos de folga e o GD, rádio operador, lembrou-se de nós. Outro chamado. Desta feita uma briga entre dois “colegas de trabalho” em uma obra resultou em dois esfaqueados. E, por incrível que pareça, já estavam na delegacia. Foram cambaleando até lá, um para acusar o outro de ter começado a desavença.

brigaChegamos na delegacia e a cena era horrível, na calçada um homem, já sendo atendido por uma equipe do SAMU e no saguão da delegacia outro sangrando pela cabeça. O SL, a pedido da auxiliar foi avaliar o primeiro e eu me dirigi ao segundo. A situação era tensa, muito sangue, uma artéria pulsando e esguichando sangue a quase dois metros.

O investigador me apresenta a arma do crime: uma faca, sem a lâmina e acende a lâmpada da atenção: a lâmina pode estar dentro do crânio da “nossa” vítima. Não tem com saber só olhando. Vamos precisar de raios x para confirmar.

Fiz um curativo compressivo, enquanto avaliava o resto do corpo. Tinha três perfurações na cabeça e uma no lábio superior. Lembrei-me de minha parceira DN “Kiss, no more”. Colocamos o rapaz na viatura, puncionei a veia e fomos para o hospital. No caminho a hemorragia aumentou e aumentou nossa suspeita de que a lâmina ainda estava lá.

No hospital os raios x confirmam nossa suspeita. O briguento vai para cirurgia e nós vamos retornar à base, ou pensamos que vamos. O GD nos chama no rádio, acidente de automóvel, múltiplas vítimas.

- Delícia – comemorei – esta é pra fechar a noite.

- Faz barulho, JB – pediu o SL.

- É pra já – respondeu nosso condutor enquanto ligava a sirene e fazia uma curva em duas rodas. Menos de três minutos e chegamos ao local onde o choque de dois veículos deixou um saldo de cinco pessoas feridas, três delas com mais gravidade por não usarem o cinto de segurança.

Dirigimo-nos para o veiculo onde ainda estavam duas pessoas, duas meninas, uma no banco da frente e outra atrás. O para-brisas com o sinal de “olho de boi” denunciava o choque das cabeças contra o mesmo. Aplicamos o KED e retiramos a primeira vítima, enquanto chegava uma viatura de suporte básico que chegou logo em seguida.

- SL, você assume aqui? Vou auxiliar na outra vítima.

- Vai lá, respondeu o médico.

Kendrick Extrication DeviceOutra aplicação de KED, outra extração bem sucedida.

Colocadas nas viaturas, instalado o acesso venoso fomos para o hospital onde passei os últimos anos de minha vida profissional, revi as meninas Glória, Lindinha, AD, EL, e fiquei preso por falta de macas.

Nossa vítimas ficaram bem, a mais jovem, 18 anos perdeu os dentes da frente, talvez isto a ajude a pensar na utilidade do cinto de segurança, a outra ainda estava pensando na surra que levaria da mãe, já que mentiu onde estaria esta noite. Já estava na hora de passar o plantão quando finalmente nosso equipamento foi liberado.

Fim de plantão. Uma noite proveitosa onde mais uma vez senti orgulho em fazer o que faço.

“O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra.” Aristóteles

12 comentários:

  1. a cada nova ação uma nova surpresa!!!

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  2. ATE Q ENFIM SAIU.....saudade grande do blog em ação.parabéns enfermeiro.

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  3. Adoro o jeitinho delicado do enfer J

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  4. Que falta vc faz no HMU. Aquilo nunca mais será como antes. Voc~e faz a difernça por onde passa

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  5. nossa quantos admiradores.

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  6. Cara, adoro ler suas aventuras do dia-a-dia, assim que eu concluir minha faculdade espero ter uma vida profissional parecida com a sua, admiro-te muito!

    abraços.

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  7. Cara, adoro suas postagens do seu dia-a-dia, assim que eu concluir minha faculdade de enfermagem, espero ter uma vida profissional igual a sua!

    abraços.

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  8. Cara, adoro ler suas aventuras do dia-a-dia, assim que eu concluir minha faculdade espero ter uma vida profissional parecida com a sua, admiro-te muito!

    abraços.

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  9. Maravilhoso como sempre, fico sempre esperando para ler, mas esta demorando para postar hen?. Vc sabe que te admiro muito.

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  10. ansiosa pelo proximo post

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  11. nossa nossa abandonou o blog

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