terça-feira, 28 de maio de 2013

Segunda- feira – Status: DEZ

“Gostar do que se faz e sentir que é importante - existe algo mais divertido?” Katharine Graham

garoa2-300x202 Sob uma garoa fina e gelada chego à base desejando que meu plantão seja tão tranqüilo, quanto os dois últimos quando saímos da base apenas para buscar o almoço e atender uma criança em crise convulsiva que já estava atendida em uma UBS e, portanto, não necessitava de muito mais que o transporte para um hospital.

O almoço foi um capítulo a parte. Na quinta feira saímos para buscar nosso almoço como de costume, fizemos a marmita e voltamos à base.

Já sentados à mesa resmunguei:

- C***** não acredito.

O TH, médico do dia, continuou comendo quando me ouviu falar:

- O pior é que é mesmo, tem até as patinhas...

barata - O que foi? - perguntou o médico.

- Meu tem uma barata na minha marmita...

- Putz cara, não acredito. Vamos trocar.

Voltamos ao restaurante, trocamos a marmita e recebi, e aceitei, os pedidos de desculpas do dono. Aceitar os pedidos de desculpa não significa que vamos voltar lá tão cedo.

 

Voltando  ao plantão de segunda-feira, estacionei a moto, recebi o plantão, tomei o café da manhã e fui conferir minha viatura, junto com a DN, minha parceira hoje.

Viatura conferida, equipe passada ao controle e logo chega a ML a médica da equipe. Estamos prontos.

Viagem-Tranquila-1 Estávamos tranqüilos, sem chamados, resolvemos adiantar o administrativo: trocar psicotrópicos, abastecer a viatura. Não tínhamos alcançado o primeiro destino quando o rádio chama:

- Suporte avançado, é a central.

- Prossiga.

Vítima em PCR. Recebemos o endereço e rumamos para lá. Um senhor de 67 anos paraplégico e que vivia só, foi encontrado inconsciente no banheiro, não havia nada que pudéssemos fazer a não ser um ECG e constatar o óbito.

Voltamos a nossa rotina e como a hora do almoço se aproximava começamos a perguntar onde compraríamos a marmita já que ninguém queria voltar ao restaurante da barata, abastecemos, trocamos os psicotrópicos, compramos o almoço (em outro restaurante) e voltamos à base. Almoçamos e passamos a esperar. Até que o rádio nos chama.

alergia3 Uma garota de 17 anos. O código da ocorrência é de PCR então vamos com a pressa que o caso requer e chegamos muito rápido.

A garota esta dentro de uma escola de enfermagem, não é PCR e sim uma reação alérgica à algo que ela comeu. Acesso venoso, medicação antihistamínica e vamos levar a menina, estudante de enfermagem, para seu primeiro passeio de ambulância, só que não no banco em que ela queria estar.

Já estávamos saindo do hospital, quando ouvimos o radio: um operário prendera a mão em uma máquina e necessitava de nossa ajuda. Fomos para lá, o problema é que mais uma vez estamos do outro lado da cidade, mas o AG, nosso condutor, não vê isto como um problema e liga a sirene. Chegamos em poucos minutos mas é incrível como para nós o tempo parece uma eternidade, por mais que o condutor acelere, corte, passe, temos a impressão de que esta demorando muito. No caminho um motorista desatento provoca um acidente, ele mudou bruscamente de direção e o AG não teve como desviar, como não tinha feridos, deixamos o motorista lamentando a lateral amassada de seu carro e continuamos até o local.

- Onde está a vítima? – perguntei.

- No décimo primeiro andar – respondeu o condutor da viatura de suporte básico que já estava no local.

- Elevador?

- Não tem – respondeu rindo um dos operários da obra.

escadaria escada desce Subimos os onze andares, 23 lances de escadas com mochilas que no 5º andar pesavam uma tonelada quando chegamos ao 11º, eu nem sentia as pernas, a ML estava hipotensa e a DN pálida. A vítima, um rapaz de 23 anos que limpava uma trituradora de massa quando alguém ligou a máquina, teve todo o antebraço direito literalmente moído pela máquina. Os auxiliares da básica já o tinham imobilizado. Puncionei o acesso, fiz a medicação para dor e começamos a descer os onze andares de volta. A descida foi mais tranquila, com o rapaz imobilizado na cadeira de rodas, seus companheiros o transportaram até o térreo. Lá embaixo reavaliamos, o risco de choque era grande pois o sangramento ainda continuava ativo, sirene aberta fomos para o hospital.

No hospital o rapaz começou a pedir para urinar.

- Moço quero urinar.

- Espera um pouco, você já vai.

- Não estou agüentado.

tesouraEle insistiu tanto que peguei a tesoura e disse:

- Vou te ajudar.

Quando o rapaz viu a tesoura, arregalou os olhos e ficou sem fala, o AG quase caiu no corredor de tanto rir, a DN me olhou como a perguntar “O que você vai fazer?”

Peguei a tesoura, cortei a braguilha de sua calça e sua cueca e coloquei um papagaio.

Pronto, agora você pode urinar.

Passamos o caso, fomos fazer o relatório de acidente de trânsito estávamos prontos para retornar à base. Estamos sem material, cansados e a viatura está imunda. A ML pergunta:

- E aí qual status a gente passa?

dez- Status DEZ. – responde a DN

- Dez?

- Sim - completa minha parceira – Dezmantelados, dezmanzelados, deztruídos, dezorientados e dezcabelados

Rimos até chegar à base. Lavamos e repusemos o material da viatura. Estamos prontos.

Prontos para passar o plantão.

Foi um dia excelente

Até amanhã.

“Só disciplina, só empenho, só vontade de lutar não bastam. Se você não tiver amor pelo que você está fazendo, se você não conseguir fazer com diversão, com reverência, com alegria, normalmente as coisas não dão certo.” Kristie Hanbury

3 comentários:

  1. Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida.
    Confúcio

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  2. Dez é a forma como vc trabalha e a forma que vc encara sua profissão!!!!! te admiro muito!!!!!!!!!

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  3. Depois de 11 andares... equipe DEZ, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Adorei!!! DN

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