“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.”
Leon C. Megginson
São seis e meia da manhã quando toco a buzina em frente ao portão da base o que faz com que este se abra deixando que eu estacione e comece meu plantão. Desde a minha saída do hospital os plantões tem sido calmos, sem muitas ocorrências e isto me deu tempo para pegar as rotinas do novo trabalho com minha parceira a DN, jovem enfermeira que me recebeu muito bem e tem me acompanhado em todas as ocorrências. Hoje ela não estará. Meu parceiro será o RD, enfermeiro que também me recebeu bem, mas com quem não tive muito contato até hoje.
Recebo o plantão, confiro minha viatura e a escala das auxiliares, tudo certo. Não temos faltas nem limitações. Agora é passar a equipe pelo rádio e esperar.
Na equipe avançada estamos TH, médico, RB o condutor, RD e eu. O primeiro chamado não demora. Queda de moto é uma ocorrência comum que as unidades de suporte básico estão mais que acostumadas, se estão chamando a avançada é porque a coisa não está boa para a vítima.
O RB não economizou no pé e em poucos chegamos ao local do acidente, um jovem conduzia sua scooter e, ao passar por uma poça de óleo, escorregou caindo embaixo de um caminhão que passou por cima seu tórax. Ele já estava na viatura dos bombeiros e assim que chegamos entrou em PCR, iniciamos as manobras, puncionei um acesso venoso e fomos para o hospital, não havia tempo para tentar estabilizar no local. Fizemos o possível, mas chegamos com ele sem vida. Retornamos à base discutindo o caso. Nosso dia tinha começado.
Tínhamos acabado de almoçar quando a voz metalizada do rádio nos chama:
- Base, é a central.
- Prossiga.
- Saída para avançada, carro versus moto
Fomos para o local e encontramos um senhor de quase 60 anos que pilotava sua moto quando o pneu do carro ao lado estourou. O carro rodou na pista e atingiu a moto, resultado o piloto está com graves ferimentos na pelve e perna esquerda que quase foi amputada no acidente. Imobilizamos e com dificuldade, conseguimos um acesso venoso para repor líquidos já que a hemorragia era intensa e a vítima caminhava para o estado de choque. Com a sirene aberta chegamos ao hospital, seu prognóstico, com exceção da perna que talvez precise ser amputada, é bom. Agora é voltar para base e no caminho vamos discutindo as vantagens e desvantagens do uso da motocicleta. Nos dois casos de hoje os motociclistas não tiveram culpa. Pilotavam suas motos e foram vítimas de eventos que não dependiam de suas ações. Fiquei alguns minutos absorto em meus pensamentos e questionando minhas escolhas.
Outro chamado, desta vez para constatação de óbito. Chamamos o RB, nosso condutor e saimos.O RB abriu a sirene e pisou fundo, desvia daqui, freia ali, passa por lá e quando estavamos quase chegando ele pergunta:
- Constatação de óbito – respondi.
- Caramba! Vocês não falam nada.
- Achei que você soubesse- respondeu o TH - nós estamos gostando.
Enquanto riámos da situação o RB tirou o pé e chegamos ao local onde as condições do corpo indicavam a morte há muitas horas, o rapaz mora só e a ultima vez que dera notícia foi há mais de 24 horas. Parte ruim feita, vamos retornar.
- Viatura 2027
- Prossiga central
- Ocorrência para os senhores, vítima soterrada.
Recebemos o endereço e o RB ligou a sirene, o local era muito longe e com o transito de fim de tarde as coisas só pioram. Mas hoje o RB está inspirado e entre cantadas de pneus, freadas e desvios bruscos chegamos relativamente rápido ao local. Ainda na viatura perguntávamos:
- Cadê os bombeiros?
- Parece que não tem.
- Está brincando...
Descemos da viatura e encontramos um homem de 53 anos caído em um buraco com barro para todos os lados e junto a um barranco que estava prestes a desmoronar. O TH olha para mim e pergunta:
- E aí J, vamos extrair ou esperar?
- Eu acho melhor extrair, já tiraram a terra de cima. Tiramos do buraco e estabilizamos longe do barranco. O que acha?
- Então vamos logo. Antes que esta p### caia.
- Demorou. RB traga a prancha para nós. - pedi
O pedreiro tinha uma fratura exposta nos ossos da perna esquerda o que dificultaria a remoção do buraco. Ainda assim o tiramos de lá rapidamente e depois imobilizamos sua perna e bacia. A quantidade de gente em volta era enorme, mas com a estratégia de estabilizar dentro da obra conseguimos um pouco de tranqüilidade para trabalhar. O RD providenciou o acesso venoso enquanto TH e eu nos ocupávamos com a estabilização da perna que era mantida ligada apenas pela pele. Agora é hospital e mais uma vez o RB mostrou do que é capaz um motorista de APH na hora do rush.
No hospital olhamos as condições da viatura, e as nossas, e decidimos baixar a viatura. Não tínhamos mais material para atender a uma ocorrência e nosso plantão já acabara há meia hora.
- Vamos baixar a viatura, J?- perguntou o TH
- Sim, mesmo porque minha bota esta suja de barro e eu não trabalho sujo.
- V#####, (risos)
Chegamos a base e passamos o plantão
Fim de plantão. Um daqueles plantões em que você tem certeza que escolheu a profissão certa.
“Toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço.” Immanuel Kant
como sempre show...é com certesa vc fes a escolha certa msm.parabéns como sempre um espetaculo de enfermeiro um mestre msm.
ResponderExcluirSeja onde for, seja o recurso que tenha, vc sempre se supera!!!!! Parabéns!!!!! Te admiro muito!!!!
ResponderExcluiramoooo !!!!!
ResponderExcluirPor Elis Regina "Quando o líder efectivo dá o seu trabalho por terminado, as pessoas dizem que tudo aconteceu naturalmente".
ResponderExcluirLao-Tsé
Ótima leitura, tipo filme de aventura rs!
ResponderExcluirPor Elis Regina. Acho que combina contigo:
ResponderExcluirEstudos têm demonstrado que as pessoas mais bem-sucedidas tomam decisões depressa porque não têm dúvidas a respeito dos seus valores e do que realmente desejam para suas vidas
Anthony Robbins