sábado, 18 de maio de 2013

Sexta Feira: Básica

“Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.” Madre Teresa de Calcuta

seis e meiaEram seis e meia da manhã quando cheguei para pegar o plantão. Hoje estou fora da minha base, fui escalado para cobrir uma base e rodar na viatura de suporte básico. Hoje também será meu primeiro plantão sem o apoio direto de meus colegas RD e DN.

Chego à base e sou recebido pela auxiliar de enfermagem que esta deixando o plantão, já a conhecia do hospital e isto facilita a interação. Ela ainda está me passando o plantão quando a auxiliar que deverá me acompanhar chega e ao mesmo tempo o rádio dá sinal de vida:

- Base … é a central

- Prossiga

radio- Ocorrencia para os senhores, colisão auto versus auto, várias vítimas. A informação é que uma van de transporte escolar capotou...

- É isto aí meninas, nada como começar bem o dia.

A LD, minha auxiliar e parceira hoje, logo está pronta e na viatura, que será conduzida pelo RN. No caminho ouvimos a central solicitar mais duas viaturas para nos apoiar, entre elas uma avançada. Em poucos minutos chegamos a cena do acidente e a visão assusta. Um motorista avançou a preferencial na rotatória e colidiu com a van escolar, esta por sua vez capotou. Por sorte estava voltando da escola e, portanto tinha apenas quatro crianças. Nenhuma se feriu com gravidade.

escolarObservo a cena, as crianças já estão sendo atendidas pelos bombeiros. Então me concentro no motorista causador do acidente. Ele tem um corte na testa e está visivelmente embriagado. Grita que sua arma está no carro e que é policial militar. Procuro acalmá-lo para que possamos começar o trabalho. Colocamos na prancha, imobilizamos e vamos para o PS. No caminho ele grita, solta palavrões e diz que a van surgiu do nada. Deixamos no PS e voltamos para base. Nossa missão está cumprida. Na volta vamos discutindo o fato do cidadão estar bêbado às sete da manhã e como estão os pais das crianças da van.

Voltamos à base, o RN prepara um café e a LD me oferece um pão com requeijão.

- Come enfermeiro, que hoje o senhor vai rodar. Aqui a gente não para.

- Gozado, sempre passei aqui na frente e nunca vi esta base. – observei.

- É porque a viatura não para na base. Aí não dá para ver. (risos)

O rádio interrompeu nosso café. E fomos para mais um atendimento.

Um rapaz estava caído na rua e pedindo ajuda.

No local encontramos um jovem de 30 anos que nos disse ter sido espancado. Tem escoriações na face e seu pé esquerdo está deformado. Imobilizamos e levamos para o pronto socorro. A história é de que foi espancado há dois dias e desde então não foi em casa, estava pelas ruas… Deixamos no PS e voltamos para base. Ou melhor, tentamos voltar o radio operador não nos deixa chegar.

Homem, 35 anos que segundo a família não deixa ninguém dormir e precisa ser internado. Afinal ele está parando de beber e precisa de remédios. Converso com o mesmo, avalio seus sinais vitais e coloco-o na viatura. Não há motivo para que ele vá para o hospital, mas se eu disser isto agora é capaz da família me linchar. Então... PS, aí vamos nós.

Chegamos ao mesmo PS em que deixamos a vítima anterior, ele já estava de saída de alta e preso por dirigir embriagado. Deixamos o rapaz e voltamos à base.

Voltamos à base, compramos nosso almoço e antes que terminássemos a refeição o rádio chama para atender um rapaz que estava convulsionando no meio da rua. Chegamos ao local e lá estava um homem de 40 anos que eu já conhecia de internações anteriores. Está evacuado e o cheiro é algo insuportável. Ele reluta em ir para o hospital, mas com jeito o convencemos a embarcar e rumamos para o hospital. Dentro da viatura o cheiro piora e eu falo para o RN.

- RN, dá uma prioridade aí. Senão não vamos aguentar.

- Pensei que você não fosse pedir, enfermeiro. – disse o condutor, já ligando a sirene e acelerando.ambulancia

Chegamos ao hospital onde trabalhei nos últimos anos. Fui bem recebido e rapidamente liberado. Na saída encontro as vítimas dos dois atendimentos anteriores a do acidente veio fazer o exame de dosagem alcoólica e o rapaz, por insistência da família, avaliação psiquiátrica.

Voltamos à base, mas sequer sentamos. O rádio operador passa mais um caso. Um homem teria desmaiado dentro da igreja. Em quatro minutos estamos no local. A vítima, etilista crônico, convulsionou e bateu com a cabeça nos bancos da igreja.

Tem um corte feio na testa e esta com o olho direito muito inchado. Colocamos a prancha, colar cervical e pedimos ajuda aos membros da igreja para descer os vários degraus que separavam o local da queda de nossa viatura. Voltamos ao hospital deixamos a vítima e descubro que o anterior (aquele todo evacuado) já fugiu.

- É, colega, as coisas não mudam – comento com o enfermeiro da emergência.

- Não mesmo, J. Não mudam mesmo. – responde meu colega entendendo o que eu quis dizer.

samu2Na volta para base um acidente carro versus moto bem ao lado de nossa base e já sendo atendido pelos bombeiros. Que bom, vamos conseguir arrumar a base e repor a viatura a tempo de passar o plantão.

No final tivemos uma hora inteira sem chamados. São 19h00m e a equipe da noite chega para assumir. Foi um bom dia.

Até o próximo

“Acredite em si próprio e chegará um dia em que os outros não terão outra escolha senão acreditar com você.” Cynthia Kersey

3 comentários:

  1. Como e bom fazer parte dos seus plantões, lendo e imaginando e como se eu estivesse lá!!!! Parabéns!!!

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  2. É diferente de estar no PS, porém, não deixa de ser cansativo e trabalhoso! Enfermagem é assim, sempre muito trabalho!

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  3. Por Elis: "Isto é de forma básica a única coragem exigida de nós: ter coragem para o mais estranho, mais singular e mais inexplicável que possamos encontrar."
    ( Rainer Maria Rilke )

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