“Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia.” John Lennon
A madrugada de domingo está agitada devido a “Virada Cultural”, pelo caminho estranho a quantidade de carros pelas ruas e o fato do ônibus estarem lotados, mas logo a lembrança do evento me vem à cabeça e eu me dedico apenas a pensar em caminhos alternativos para evitar as interdições.
Após uma breve parada na padaria para comprar meu café da manhã, chego à base. Ainda são 6h30m e após liberar meu colega do noturno passo a conferir nossa viatura. Hoje seremos DN, AL, médico, o WM, nosso condutor e eu. Equipe completa é só passar pelo rádio e esperar.
O plantão está calmo, conversamos, trocamos idéias, resolvemos problemas administrativos e continuamos a torcer para que nada aconteça. Hoje é dia de jogo e o pós jogo promete.
Já tínhamos almoçado quando o operador de rádio lembra de nossa existência pela primeira vez:
- Base é a central...
- Prossiga.
- Saída para avançada. Ferimento por arma branca. Posso prosseguir?
- Prossiga, respondi já pelo rádio da viatura.
Recebemos os dados e partimos para o local. Quando chegamos encontramos os bombeiros no local que já tinham enfaixado o braço da vítima que além deste ferimento teve também o lábio superior decepado à foice e um corte de 15 centímetros na cabeça
- Foi um corte profundo no braço e na face. - disse o soldado do corpo de bombeiros, enquanto eu abria o curativo recém feito, o que deixou o militar com uma cara nada agradável.
- Acho que não temos só um corte – disse, enquanto mostrava para o AL a fratura exposta do olecrano. - A foice quase arrancou o antebraço.
- Caramba – disse o bombeiro - não parecia.
Enquanto a polícia prendia o agressor imobilizamos a vítima, puncionamos o acesso venoso e fomos colher a história que era muito estranha. A vítima nos conta que estava conversando com o agressor, quando este passou a desferir golpes de foice sem causa aparente.
- Ele era meu amigo... Acho que é santista. Dei um maço de cigarros para ele hoje
- Sobre o que vocês estavam conversando?
- Futebol… nem lembro.
- Não quero conhecer seus inimigos – respondi.
- Nao acredito que perdi meu beiço…
- Kiss, no more. – completou a DN – que até então estavava quietinha.
Chegamos ao hospital, passamos o caso e enquanto limpávamos a viatura outro chamado. Desta vez devemos ir a apoio a uma unidade básica que atende um caso de agressão. O problema é que estamos do outro lado da cidade.
A distância não foi problema para o WM que em poucos minutos estacionava a viatura junto a uma escadaria dentro da comunidade onde um jovem de 24 anos dependente químico foi agredido a golpes de machado Tem ferimentos na cabeça e braços. Enquanto fazia os curativos a surpresa: quem o agrediu foi o próprio pai, que cansado das agressões do filho resolveu reagir.
Estabilizamos e já nos preparávamos para deixar o local quando a família se revoltou com o fato de termos chegado antes da polícia e estarmos socorrendo a rapaz, quando, na opinião deles, ele deveria ser preso. O clima ficou tenso.
Olhava em volta e espera o momento de começarem a nos agredir e parece que cada segundo que passávamos lá mais gente saia das vielas e ninguém gostava da vítima.
O rapaz por sua ve não ajudava, gritava, proferia injurias e palavrões, prometia que mataria a todos nós de form,a que em poucos segundos, já não gostávamos dele tambem.
Estávamos em uma situação dificil mas o que tínhamos que fazer estava claro: Sair dali.
Com a situação quase fugindo do controle, pedimos apoio policial, mas conseguimos contornar antes que a polícia chegasse. Saímos de lá e o rapaz, já estabilizado foi transportado pela básica.
Voltamos para base conversando sobre os dois casos, um atacado a foice pelo amigo o outro a machado pelo pai. Dois casos para pensar nas relações humanas atuais.
Chegamos a tempo de assistir o final do jogo. O AL, santista, ficou triste enquanto o resto da tripulação comemorava mais um título do Corinthians.
Não saímos mais. Fim de plantão tranqüilo, assim como o começo.
Volto para casa, Campeão mais uma vez…
“A violência destrói o que ela pretende defender: a dignidade da vida, a liberdade do ser humano.” – João Paulo II
hummm está de APH agora?
ResponderExcluirHoje em dia vemos quem amamos sair de casa e não sabemos se ela irá voltar, mas mesmo dentro desta realidade de um mundo em que a violência reina sempre nos deparamos com pessoas como vc, que enfrenta as dificuldades e entra na situação com coragem!!!!
ResponderExcluirPor Elis. Acho que estas servem para os agressores e agredidos:
ResponderExcluirÉ Fato, Falta de Afeto Afeta e Falta de Afago Afoga a Afeição e Afoita a Aflição...
Luciene Luba
Afeto. O mundo precisa de você.
Annely Oliveira